Câmara de Curitiba aprova comissão sobre moradores de rua em sessão tensa
Proposta de constituição de comissão especial provoca confronto político, questionamentos regimentais e troca de acusações sobre políticas públicas em Curitiba
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Rodrigo Fonseca
A votação de um requerimento para constituição de uma comissão especial sobre a população em situação de rua dominou a sessão desta segunda-feira (30) da Câmara Municipal de Curitiba e expôs um racha político no plenário. O debate, que deveria tratar da criação de um grupo de estudos, acabou se transformando em um embate direto sobre responsabilidade, políticas públicas e até intenções eleitorais.
O requerimento, apresentado pelo vereador Guilherme Kilter, propõe a criação de uma comissão especial com prazo determinado para debater o crescimento da população em situação de rua, avaliar políticas públicas e propor soluções. A iniciativa foi alvo de críticas desde o início da discussão.
“Não é criando comissão que se resolve o problema. Isso aqui é uma tentativa de parecer que está fazendo alguma coisa”, afirmou a vereadora Vanda de Assis ao se posicionar contra o requerimento.
Ela argumentou que a Câmara já possui instrumentos suficientes para tratar do tema. “Nós já temos comissões permanentes e uma frente parlamentar específica. O debate não acontece porque não querem fazer”, disse.
A crítica ganhou contornos técnicos com a fala da vereadora Laís Leão, que questionou a legalidade do requerimento à luz do regimento interno da Casa. “O regimento é claro. Não se pode criar comissão especial para tratar de tema que já é competência de comissões permanentes”, afirmou.
Na mesma linha, a vereadora Georgia Prates reforçou o argumento. “Se votarmos a favor, estaremos votando contra o regimento da própria Câmara”, disse.
Apesar das contestações, o autor do requerimento reagiu com dureza e elevou o tom do debate. Guilherme Kilter acusou a oposição de impedir avanços na discussão.
“Eu quero trabalhar, quero apresentar soluções, quero fiscalizar o Executivo. Mas aparentemente a esquerda e o PT não querem trabalhar. Não querem que esse problema seja resolvido”, afirmou.
Na sequência, criticou diretamente os parlamentares contrários à proposta. “Vocês vêm aqui, criticam, criticam e não apresentam absolutamente nada. Eu estou apresentando uma solução e vocês votam contra.”
O vereador também sugeriu motivação política na resistência ao requerimento. “Talvez porque, se essas pessoas conseguirem emprego e saírem da rua, parem de votar em vocês”, disse.
A fala provocou reação imediata. A vereadora Camila Gonda rebateu e apontou que o tema já é debatido em outros espaços da Câmara.
“O vereador diz que não consegue trabalhar, mas não participa dos espaços que já existem. Há reuniões, debates e propostas sendo construídas”, afirmou. Em seguida, questionou a motivação da proposta. “Isso não é sobre resolver o problema, é sobre direcionar politicamente o debate.”
O confronto avançou quando vereadores da base associaram o crescimento da população em situação de rua ao uso de drogas e criticaram políticas sociais.
“A maioria dessas pessoas não está na rua por falta de emprego, mas por causa do crack”, afirmou um parlamentar durante a discussão.
Outro vereador foi além ao dizer que “a esquerda não quer resolver o problema, quer manter essas pessoas na dependência”.
As declarações foram rebatidas pela oposição. “Estamos falando de um problema complexo, que envolve saúde mental, desigualdade e políticas públicas. Reduzir isso a uma questão de droga é irresponsável”, respondeu Camila Gonda.
Durante o debate, também foram apresentados dados sobre a situação na capital. Segundo Vanda de Assis, Curitiba tem mais de 4 mil pessoas em situação de rua, enquanto a estrutura de acolhimento não chega a 1.700 vagas.
“Hoje não há política integrada. Falta moradia, falta saúde, falta trabalho. A pessoa é acolhida e no dia seguinte volta para a rua porque não há continuidade”, afirmou.
Mesmo entre vereadores favoráveis ao requerimento, houve reconhecimento da complexidade do tema. “Esse é um dos maiores desafios da cidade. Não se resolve com uma única política ou comissão”, disse Marcos Vieira.
Apesar das críticas, inclusive quanto à possível incompatibilidade com o regimento interno, o requerimento de constituição da comissão especial foi aprovado por ampla maioria, com 28 votos favoráveis e 6 contrários.
Com isso, a Câmara deverá instalar o colegiado em meio a um cenário de disputa política crescente sobre como Curitiba deve enfrentar o avanço da população em situação de rua. O tema ultrapassou o campo técnico e se consolidou como um dos principais pontos de conflito no Legislativo municipal.
Créditos: Redação
