Caixa do Paraná derrete: Ortigara admite queda bilionária e bastidores do Palácio já falam em caixa zerado
Secretário da Fazenda confirmou na Alep que caixa livre caiu de R$ 10,5 bilhões para R$ 8,5 bilhões e pode terminar o ano perto de R$ 6 bilhões
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Antonio More
A audiência pública de metas fiscais realizada nesta terça-feira na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) expôs um cenário que passou a preocupar deputados, prefeitos e até integrantes da própria base do governo Ratinho Junior: o caixa do Estado está encolhendo rapidamente em pleno ano eleitoral. Durante a sessão, o secretário da Fazenda, Norberto Ortigara, confirmou que o Paraná iniciou o ano com R$ 10,5 bilhões em caixa livre e que esse valor já caiu para R$ 8,5 bilhões ao final de abril.
Mais do que isso: o próprio secretário admitiu que o governo projeta fechar 2026 com algo entre R$ 6 bilhões e R$ 6,5 bilhões disponíveis. “Quando nós prestamos contas aqui em janeiro, o Estado apresentava um caixa de R$ 10,5 bilhões, caixa livre do Tesouro. Ao final de abril nós estávamos com R$ 8,5 bilhões”, afirmou. Na sequência, Ortigara reforçou: “Nós queremos chegar no fim do ano com R$ 6,5 bilhões livre de caixa”. O problema é que a própria fala do secretário levanta uma conta desconfortável. Durante a audiência, Ortigara admitiu que o caixa do Paraná “está perdendo por volta de R$ 500 milhões por mês”. Se o ritmo permanecer o mesmo até dezembro, a matemática não fecha em R$ 6 bilhões. Fecha perto de R$ 4,5 bilhões.
Mas nos bastidores do Centro Cívico, a conversa já é outra. Interlocutores do Palácio Iguaçu ouvidos pela reportagem afirmam reservadamente que, na prática, “não existe mais caixa” no Paraná. A avaliação interna é de que boa parte dos valores apresentados oficialmente já estaria comprometida com obrigações futuras, despesas vinculadas, cronogramas de obras, convênios, restos a pagar e desembolsos contratados.
Em outras palavras: o caixa existe contabilmente, mas o dinheiro efetivamente livre para novos anúncios, expansão de compromissos políticos e abertura de novas frentes de investimento estaria desaparecendo rapidamente. A preocupação ganhou força justamente porque a queda ocorre no mesmo momento em que o governo acelerou anúncios de obras, compra de máquinas, convênios, viaturas, investimentos em municípios e programas estruturantes. “Nem tudo cabe”, declarou o secretário ao tratar da avalanche de pedidos de prefeitos e deputados.
A fala provocou forte repercussão política porque ocorre em meio a uma sucessão de anúncios milionários feitos pelo governo Ratinho Junior nos últimos meses. Apenas recentemente, o Executivo divulgou investimentos de centenas de milhões de reais em pavimentação, recape, infraestrutura urbana, estradas rurais, maquinário e obras municipais em diversas regiões do Paraná. O problema é que, agora, a própria equipe econômica começa a sinalizar que boa parte dessa expectativa criada nos municípios não vai consiguir sair do papel no curto prazo.
O deputado Paulo Gomes foi um dos que verbalizaram essa preocupação na audiência. “Somente neste ano, os anúncios divulgados chegam a algo entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões. Como o Estado vai dar cumprimento a tudo isso?”, questionou. Na sequência, o parlamentar falou em “falsa ilusão” criada nos municípios. “Isso cria uma coisa muito ruim, que é a falsa ilusão nos municípios de que determinadas obras vão acontecer, quando não há recursos suficientes para isso”, afirmou. Arilson Chiorato também alertou para a deterioração gradual das contas estaduais. “O Estado apresenta caixa, mas ao mesmo tempo registra déficit e queda de receita. Isso precisa ser analisado com responsabilidade, porque não é só o número absoluto que importa, mas a tendência”, declarou.
Já Requião Filho apontou o déficit orçamentário registrado no quadrimestre e questionou o crescimento acelerado dos investimentos em pleno calendário eleitoral. “Hoje nós temos um déficit orçamentário de R$ 3,4 bilhões no quadrimestre. Isso não aconteceu nos anos anteriores e precisa ser explicado”, disse. O parlamentar também destacou a combinação entre desaceleração de receitas e explosão das despesas. “As receitas totais tiveram queda real. O ICMS praticamente não cresceu. O IPVA caiu fortemente. E mesmo assim houve uma explosão dos investimentos.”
A própria equipe econômica reconheceu que houve concentração incomum de desembolsos no início do ano. O diretor-geral da Secretaria da Fazenda, Luiz Budal, afirmou que apenas o programa de máquinas para municípios gerou impacto bilionário nas contas estaduais. “Desconsiderando o programa das máquinas, o resultado seria diferente. Foi um evento limite que aconteceu no início de 2026”, afirmou. Ortigara detalhou que o programa já consumiu mais de R$ 1,1 bilhão. “Tivemos uma grande compra de viaturas, compra de barcos potentes, compra de blindados”, acrescentou o secretário ao justificar a redução do caixa.
Apesar da dimensão do debate, um detalhe chamou atenção durante e após a audiência: não existe atualmente no Portal da Transparência do Paraná qualquer documento público atualizado que permita à população verificar, de forma objetiva e detalhada, a situação real do caixa livre do Estado mencionada pela equipe econômica.
Os dados apresentados na Alep dependem essencialmente da exposição feita pela própria Secretaria da Fazenda, sem que haja publicação transparente e consolidada que permita conferência imediata por parte da sociedade.
Isso ampliou ainda mais a desconfiança nos bastidores políticos, especialmente porque o governo passou os últimos anos sustentando o discurso de “melhor situação fiscal do Brasil” e de “caixa robusto”, enquanto agora admite queda acelerada da reserva financeira justamente no momento em que o calendário eleitoral impõe restrições legais para novos convênios e transferências.
Na própria audiência, Ortigara acabou resumindo o dilema vivido pelo governo ao admitir que “o Estado tem finitude”. A frase, dita quase como um alerta técnico, acabou virando síntese política de um problema que o Palácio Iguaçu agora tenta administrar: entre anúncios bilionários, expectativas municipais e queda acelerada da reserva financeira, o governo começa a enfrentar uma pergunta incômoda nos bastidores do próprio Centro Cívico — afinal, quanto dinheiro realmente ainda existe em caixa?
Créditos: Redação
