Bertolucci questiona aporte de R$ 130 milhões na privatização da Sercomtel
Economista Gabriel Bertolucci publicou vídeo sobre a venda da companhia e protocolou representação no MP pedindo novas apurações sobre aporte de R$ 130 milhões e movimentações financeiras
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A privatização da Sercomtel voltou ao centro do debate em Londrina após o economista e influenciador Gabriel Bertolucci, fundador da organização Missão Paraná, publicar um vídeo nas redes sociais relacionando a venda da estatal ao caso Banco Master. Segundo ele, a operação realizada em 2020 apresenta pontos que precisam ser investigados e motivou uma representação encaminhada ao Ministério Público.
No vídeo, Bertolucci questiona principalmente a forma como o controle da Sercomtel foi transferido ao Fundo Bordeaux, ligado ao empresário Nelson Tanure, e o destino dos R$ 130 milhões que deveriam ser aportados na companhia como parte da operação.
A representação apresentada ao Ministério Público, assinada por Gabriel Juliano Bertolucci Rodrigues e datada de 29 de setembro de 2026, pede a reabertura das apurações sobre a privatização e a instauração de investigação civil e criminal. O documento sustenta que surgiram elementos posteriores ao arquivamento de uma apuração anterior e cita, entre outros pontos, movimentações financeiras envolvendo a Sercomtel, o Fundo Bordeaux e o Banco Master.
Relação com o Banco Master
Um dos principais pontos abordados no vídeo é a relação entre Nelson Tanure e o Banco Master.
Bertolucci afirma que Tanure seria “sócio oculto” da instituição financeira. Essa caracterização, porém, deve ser atribuída às investigações e não apresentada como fato definitivo. Em documentos relacionados à Operação Compliance Zero, a Polícia Federal apontou Tanure como possível beneficiário final da Lormont Participações e como “sócio oculto” do Banco Master, segundo manifestação reproduzida em decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal.
A investigação aponta que Tanure exerceria influência sobre o banco por meio de fundos e estruturas societárias. O empresário, por sua vez, nega ser controlador ou sócio do Banco Master.
A Gazeta do Paraná já havia publicado informações sobre essa relação. Em janeiro, o jornal noticiou que as transações financeiras envolvendo fundos controlados por Tanure estavam entre os alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero e que a investigação levantava a suspeita de controle oculto do banco.
Os R$ 130 milhões da Sercomtel
Outro ponto destacado por Bertolucci é o aporte financeiro previsto na privatização da Sercomtel.
O leilão realizado em agosto de 2020 estabeleceu a transferência do controle da companhia ao Fundo Bordeaux. A proposta vencedora foi de R$ 0,10 por ação, enquanto o comprador assumiu o compromisso de realizar um aporte de R$ 130 milhões na empresa.
De acordo com a representação encaminhada ao MP, R$ 50 milhões seriam integralizados após a aprovação da operação pela Anatel e os R$ 80 milhões restantes ao longo de 18 meses.
No vídeo, Bertolucci questiona se esse compromisso foi efetivamente cumprido e afirma que os recursos teriam sido direcionados ao Banco Master.
A representação apresenta uma acusação semelhante. Segundo o documento, auditoria da Controladoria-Geral do Município e análises de movimentações bancárias teriam identificado operações trianguladas envolvendo o Banco Master. O texto afirma que recursos apresentados como capitalização da Sercomtel teriam retornado à instituição financeira por meio de aplicações e novos contratos de crédito.
O documento cita ainda demonstrações contábeis da Sercomtel e afirma que, em 31 de dezembro de 2021, a companhia mantinha R$ 43,045 milhões aplicados no Banco Master. Também menciona R$ 130,231 milhões em operações de crédito com a instituição e outras operações envolvendo empresas relacionadas ao grupo.
Essas informações são apresentadas na representação como elementos que justificariam uma nova investigação. Não cabe, a partir da representação ou do vídeo, afirmar que houve fraude sem a conclusão das autoridades responsáveis pela apuração.
Licenças e operação da Sercomtel
Bertolucci também questiona no vídeo a transferência de ativos e licenças da Sercomtel para empresas ligadas a Tanure.
A representação entregue ao MP afirma que houve transferência das licenças tecnológicas de 5G e da base de clientes móveis e de banda larga para outras empresas do conglomerado adquirente. O documento classifica a operação como parte de um suposto esvaziamento econômico e patrimonial da companhia.
Esse ponto também precisa ser tratado com atribuição, já que a expressão “esvaziamento” corresponde à interpretação apresentada pelo autor da representação.
Outro Belinati citado
O vídeo também estabelece uma segunda conexão com o caso Banco Master ao mencionar o desembargador Roberval Casemiro Belinati, apontado por Bertolucci como tio do ex-prefeito Marcelo Belinati.
Roberval Belinati, que integra o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, tomou decisões relacionadas ao plano de capitalização do Banco de Brasília (BRB) após os prejuízos envolvendo o Banco Master.
Em março, o desembargador derrubou uma liminar que impedia o governo do Distrito Federal de utilizar imóveis públicos como parte da estratégia de reforço financeiro do BRB. O plano previa o uso de nove imóveis públicos.
Posteriormente, Roberval Belinati também autorizou o uso da área conhecida como Serrinha do Paranoá, avaliada em cerca de R$ 2,3 bilhões, no plano de recomposição do BRB.
O Estadão também informou, em março, que dois filhos do desembargador ocupavam cargos de confiança no governo de Ibaneis Rocha. A reportagem registrou que o próprio Roberval não comentou o caso.
Esses fatos, contudo, não demonstram, por si só, qualquer relação entre as decisões judiciais de Roberval Belinati e a privatização da Sercomtel ou a atuação de Marcelo Belinati. Essa conexão é uma associação feita por Bertolucci no vídeo e deve ser apresentada dessa forma.
Pedido de investigação
Ao final do vídeo, Bertolucci afirma que esteve no Ministério Público e apresentou uma representação contra Marcelo Belinati. O documento efetivamente protocolado pede a reabertura das investigações sobre a privatização da Sercomtel e solicita a instauração de inquérito civil público.
Entre as providências solicitadas estão a requisição dos documentos e papéis de trabalho da Controladoria-Geral do Município, informações ao Banco Central sobre as operações entre Sercomtel, Fundo Bordeaux e Banco Master e dados da Anatel sobre a transferência do controle da empresa, licenças de 5G e carteiras comerciais.
O representante também pede que o caso seja encaminhado à Procuradoria-Geral de Justiça do Paraná para a abertura de procedimento investigatório criminal contra Marcelo Belinati, além da adoção de medidas judiciais caso sejam confirmadas irregularidades.
Marcelo Belinati e Nelson Tanure devem ser procurados para manifestação sobre as acusações apresentadas na representação e no vídeo antes da publicação final da reportagem.
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