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CHECAGEM | Nova onda de fake news usa relatório falso, biometria e dados de cidades para questionar eleições de 2026

Documento sem autoria comprovada aponta suposta fraude na vitória de Lula; TSE desmente alegações sobre votos após as 17h, identificação de eleitores e municípios com mais votos do que habitantes

Ana Zimermann · · 8 min de leitura
Painel oficial do Tribunal Superior Eleitoral permite acompanhar a evolução da totalização dos votos nas eleições de 2026. Dados da Justiça Eleitoral contradizem alegações de fraude que circulam nas redes sociais.
Painel oficial do Tribunal Superior Eleitoral permite acompanhar a evolução da totalização dos votos nas eleições de 2026. Dados da Justiça Eleitoral contradizem alegações de fraude que circulam nas redes sociais. — Crédito: Leobark Rodrigues/Secom/TSE

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Uma nova onda de informações falsas sobre as eleições presidenciais de 2026 ganhou força nas redes sociais nos últimos dias. As publicações utilizam um suposto relatório pericial, números sobre eleitores que votaram sem reconhecimento biométrico e uma lista de municípios que teriam registrado mais votos para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que habitantes. As três narrativas são utilizadas para sustentar acusações de fraude na vitória do presidente sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, realizado em 25 de outubro.

A Gazeta do Paraná reuniu os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), esclarecimentos da Justiça Eleitoral e informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de checagens publicadas pelas agências Lupa e Aos Fatos. Os documentos mostram que as alegações misturam informações verdadeiras apresentadas fora de contexto, números não confirmados e dados incorretos. De acordo com o resultado oficial, Lula foi reeleito com 64.256.232 votos válidos (51,79%), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de 4.430.191 votos.

1. Suposto relatório afirma que Flávio Bolsonaro venceu às 17h

classificação: FALSO

Um documento de quatro páginas, denominado "Relatório Pericial Independente — Eleições 2026", passou a circular nas redes sociais em 28 de outubro, três dias após o segundo turno. O material afirma ter realizado uma análise dos boletins de urna e sustenta que Flávio Bolsonaro teria vencido a eleição caso fossem considerados apenas os votos registrados até as 17h. Segundo essa versão, a prorrogação da votação até as 19h teria permitido a inclusão de votos suficientes para garantir a vitória de Lula. O documento menciona entre 1,8 milhão e 2,5 milhões de votos supostamente irregulares e apresenta percentuais atribuídos a urnas encerradas depois do horário originalmente previsto. Entretanto, o TSE classificou o relatório como apócrifo e informou que suas conclusões não correspondem aos dados oficiais.

O principal erro está na confusão entre três momentos distintos: o horário em que o eleitor registra seu voto, o encerramento da votação em determinada seção eleitoral e o momento em que o boletim dessa seção é incorporado à totalização nacional. Uma urna encerrada depois das 17h reúne todos os votos registrados naquele equipamento durante o dia, inclusive os realizados pela manhã e no início da tarde. Portanto, não é correto atribuir toda a votação dessas seções ao período de prorrogação.

O TSE informou que apenas 34.393 votos foram efetivamente registrados depois das 17h, o equivalente a aproximadamente 0,03% do comparecimento eleitoral. Essa quantidade é muito inferior à diferença de 4,43 milhões de votos entre os candidatos. Mesmo na hipótese extrema de que todos os votos posteriores às 17h fossem atribuídos a um único concorrente, eles não seriam suficientes para modificar o resultado.

Outro ponto omitido pelo relatório envolve a divulgação da apuração. Após a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar a votação nas seções ainda abertas, o TSE suspendeu temporariamente o recebimento dos boletins, a totalização e a divulgação dos resultados. Os procedimentos foram retomados depois das 19h. Assim, votos acrescentados ao painel após esse horário não representam necessariamente votos feitos durante a prorrogação.

A Justiça Eleitoral também esclareceu que o sigilo do voto impede identificar em qual candidato votaram as pessoas que compareceram depois das 17h. O relatório ainda afirma que os boletins de urna teriam permanecido indisponíveis por 72 horas. A alegação também é falsa. Os documentos foram impressos ao final da votação, afixados nas seções eleitorais e disponibilizados para fiscalização. Os arquivos consolidados também podem ser consultados no Portal de Dados Abertos do TSE.

2. Oito milhões de votos sem biometria comprovariam fraude?

classificação: FALSO

Outra publicação, compartilhada no Facebook, no X e no WhatsApp, afirma que aproximadamente oito milhões de votos teriam sido registrados sem biometria e que parte deles corresponderia a pessoas falecidas. Uma das versões utiliza o número de 8,6 milhões de habilitações sem reconhecimento biométrico, mencionado no mesmo relatório apócrifo, para sugerir que a votação teria sido manipulada. Entretanto, o TSE não confirmou essa quantidade como um dado oficial. 

Além disso, a ausência de reconhecimento biométrico não torna um voto irregular. A legislação eleitoral prevê procedimentos alternativos para permitir a votação quando o eleitor ainda não possui biometria cadastrada ou quando o equipamento não consegue reconhecer sua impressão digital. Nessas situações, o mesário deve conferir o documento oficial com fotografia e os dados constantes do cadastro eleitoral. A habilitação alternativa pode exigir a confirmação do ano de nascimento informado pelo próprio eleitor, além da assinatura no caderno de votação e do registro da identificação do mesário responsável.

O procedimento é registrado no sistema da urna, permitindo verificações posteriores. A forma de identificação não altera o funcionamento da urna eletrônica nem permite que o mesário escolha o candidato no lugar do eleitor. Também é incorreta a afirmação de que a habilitação sem biometria comprovaria votos de pessoas falecidas. Segundo a Justiça Eleitoral, os cartórios de registro civil encaminham informações sobre óbitos para atualização do Cadastro Eleitoral, inclusive por meio do Sistema de Informações de Óbitos e Direitos Políticos (Infodip). Portanto, os dados apresentados nas publicações não demonstram que oito milhões de votos tenham sido fraudulentos, nem permitem associar a habilitação sem biometria a uma candidatura específica.

3. Cidades teriam registrado mais votos para Lula do que habitantes

classificação: FALSO

A terceira narrativa utiliza uma lista de dez municípios brasileiros que, supostamente, teriam registrado mais votos para Lula do que seu número de habitantes. As postagens insinuam que pessoas mortas teriam votado para produzir esses resultados. 

Uma das versões afirma que Nossa Senhora da Glória, em Sergipe, teria 3.053 habitantes e registrado 4.615 votos para Lula. Os números são incompatíveis com os registros oficiais. Segundo o Censo de 2022 do IBGE, o município tinha 41.212 habitantes. A estimativa populacional para 2026 é de 44.088 pessoas, muito acima do número divulgado na postagem. A lista também aponta Joaçaba como município da Bahia, embora a cidade esteja localizada em Santa Catarina. Poço das Antas aparece como pertencente a Pernambuco, quando fica no Rio Grande do Sul. Porto de Pedras, por sua vez, é um município de Alagoas. Outros nomes apresentados na versão analisada em 5 de novembro, como Barragem e Nova Liberdade, sequer correspondem a municípios brasileiros. 

A agência Aos Fatos confrontou a lista com registros do TSE e do IBGE e constatou que nenhuma das cidades existentes mencionadas apresentou mais votos para Lula do que habitantes. A publicação também reutiliza uma narrativa já desmentida em eleições anteriores. Versões semelhantes circulam desde 2022, com alterações nos municípios e nos números apresentados. É importante distinguir, ainda, o número de habitantes de um município da quantidade de eleitores vinculados à localidade. Diferenças entre cadastro eleitoral e população residente exigem análise específica e não comprovam, isoladamente, irregularidades.

Como conferir os resultados das eleições?

Os boletins de urna permitem verificar os votos registrados em cada seção eleitoral. Os documentos são emitidos após o encerramento da votação e podem ser comparados com os resultados publicados pela Justiça Eleitoral. O TSE também disponibiliza informações detalhadas sobre o processo de totalização, arquivos de votação e dados para fiscalização pública. O sistema permite conferir os resultados por município e seção, enquanto os dados populacionais podem ser consultados no portal Cidades e Estados, do IBGE.

Conclusão da checagem

As três alegações analisadas são falsas como provas de fraude eleitoral. O suposto relatório não demonstra que Flávio Bolsonaro venceu a eleição às 17h; a identificação de eleitores sem biometria é prevista nas regras eleitorais e não comprova irregularidades; e a lista de municípios apresenta dados incorretos, incluindo localidades inexistentes. Os números oficiais mostram que os votos registrados depois das 17h não seriam suficientes para alterar a vitória de Lula. Também não há comprovação, nos documentos analisados, de que milhões de votos tenham sido inseridos irregularmente no sistema eleitoral.

A nova onda de desinformação combina interpretações equivocadas de dados públicos, documentos sem procedência técnica demonstrada e boatos antigos apresentados como se fossem descobertas recentes.

A Gazeta do Paraná também localizou uma cópia do “Relatório Pericial Independente — Eleições 2026”, disponibilizada em um site de terceiros. É importante distinguir os arquivos: a primeira versão conhecida, divulgada em 28 de outubro, tinha quatro páginas e foi posteriormente retirada da publicação original. Já o arquivo localizado pela reportagem contém oito páginas e reúne reproduções do relatório e materiais adicionais relacionados à sua divulgação. Portanto, o PDF disponível não deve ser confundido com o documento original de quatro páginas, cuja versão integral não foi autenticada. A autoria e a validade técnica das alegações também não foram comprovadas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) classificou o relatório como apócrifo e desmentiu suas conclusões. 

 

Fontes utilizadas na checagem:

 

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