Presidente do Supremo da Bolívia foge após ordem de prisão por narcotráfico e pode estar no Brasil
Romer Saucedo é investigado por suspeita de tráfico de drogas e organização criminosa; autoridades bolivianas preparam pedido de alerta internacional à Interpol
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O presidente do Tribunal Supremo de Justiça da Bolívia, Romer Saucedo, de 38 anos, deixou o país após ser alvo de uma ordem de prisão por suspeita de envolvimento com o narcotráfico e organização criminosa. O magistrado anunciou que está no exílio com a família e acusou o governo do presidente Rodrigo Paz de perseguição política. As autoridades bolivianas investigam a possibilidade de que ele tenha atravessado a fronteira terrestre e ingressado no Brasil, embora seu paradeiro ainda seja desconhecido.
A ordem de prisão foi expedida em 3 de novembro por uma comissão de promotores da Fiscalía Especializada em delitos de narcotráfico, em La Paz. O documento aponta indícios de participação do magistrado em crimes relacionados ao tráfico de substâncias controladas e à atuação de organização criminosa. A medida foi confirmada pelo procurador-geral interino, José Armando Urioste, que anunciou providências para solicitar à Interpol uma notificação vermelha destinada à localização internacional de Saucedo.
Investigação sob sigilo
A ordem de prisão foi assinada pelos promotores Daniel Portales Barja e Edwin Alfonso Sarmiento Valdivia, responsáveis pela investigação. Segundo o documento divulgado pela imprensa boliviana, existem elementos que justificariam a detenção do magistrado, incluindo riscos de fuga, ocultação de provas e interferência no depoimento de testemunhas.
O procedimento menciona o artigo 48 da Lei 1008, legislação boliviana sobre substâncias controladas, que prevê penas de dez a 25 anos de prisão para determinadas condutas relacionadas ao tráfico. Também cita o artigo 132 bis do Código Penal, referente à organização criminosa.
Os detalhes das acusações permanecem sob sigilo devido à participação de testemunhas protegidas. Até o momento, o Ministério Público não divulgou quais seriam as ações concretas atribuídas a Saucedo nem apresentou publicamente as provas que sustentam a suspeita de envolvimento com o narcotráfico.
A ordem foi expedida um dia antes de o magistrado anunciar, pelas redes sociais, que havia deixado a Bolívia com a esposa e os filhos. Ele afirmou que sua liberdade e sua vida estavam ameaçadas e acusou integrantes do governo de tentar produzir provas falsas para comprometer sua reputação.
Suspeita de fuga para o Brasil
Um dos pontos investigados pelas autoridades é a rota utilizada pelo presidente do tribunal para deixar a Bolívia. De acordo com informações divulgadas pelo Ministério Público, os registros migratórios indicam que Saucedo retornou ao país em 3 de novembro, após uma viagem internacional, mas não apresentam uma saída posterior pelos canais oficiais.
A ausência de registro levou os investigadores a considerar a hipótese de uma travessia terrestre. O Brasil aparece entre os possíveis destinos, mas não existe confirmação oficial de que o magistrado esteja em território brasileiro.
A eventual emissão de uma notificação vermelha pela Interpol permitirá que autoridades policiais de outros países sejam alertadas sobre a ordem de prisão. O mecanismo, entretanto, não equivale automaticamente a um mandado internacional executável em qualquer território. A localização e uma eventual detenção dependem das legislações e dos procedimentos aplicáveis em cada país.
Rede de proteção ao tráfico
O caso de Saucedo ocorre em meio a uma investigação mais ampla sobre suspeitas de proteção institucional a organizações ligadas ao narcotráfico na Bolívia. Nos últimos meses, integrantes do sistema judicial e policial passaram a ser investigados por possíveis relações com grupos criminosos.
Entre os casos está o do ex-procurador-geral Roger Mariaca, preso após ser acusado de participar de uma estrutura que teria facilitado atividades de organizações ligadas ao tráfico internacional de drogas. A investigação ganhou repercussão depois que os Estados Unidos revogaram vistos de autoridades e empresários suspeitos de envolvimento em esquemas de corrupção e proteção ao narcotráfico.
O governo boliviano relaciona a saída de Saucedo ao avanço dessas investigações. O vice-ministro do Regime Interior e Polícia, Peter Maldonado, afirmou que pessoas supostamente envolvidas com o esquema estariam deixando o país para evitar a responsabilização judicial.
A existência de uma ligação direta entre Saucedo e a organização investigada, entretanto, ainda depende da apuração conduzida pelo Ministério Público. As acusações contra o magistrado não representam condenação definitiva.
Crise no Judiciário
A fuga provocou uma crise institucional no Tribunal Supremo de Justiça, principal instância da Justiça ordinária boliviana. Diante da ausência do presidente, os magistrados designaram Rosmery Ruiz para assumir temporariamente o comando do órgão.
O tribunal concedeu prazo de seis dias para que Saucedo retorne às suas funções em Sucre, sede do Judiciário. Caso não compareça, poderá ser iniciado um procedimento para reconhecer o abandono do cargo e definir sua substituição.
Saucedo chegou ao Tribunal Supremo após vencer as eleições judiciais de 2024, nas quais os magistrados bolivianos são escolhidos por voto popular. Eleito para um mandato de seis anos, assumiu a presidência da instituição em janeiro de 2025. Antes da atual crise, havia anunciado que deixaria a presidência em janeiro de 2027, mas permaneceria como magistrado.
Mesmo depois de anunciar o exílio, Saucedo afirmou que não pretende renunciar ao mandato judicial. O posicionamento amplia o impasse institucional, uma vez que sua permanência fora do país impede o exercício regular das atribuições enquanto a investigação criminal avança.
Repercussão internacional
A crise ocorre durante o governo de Rodrigo Paz, que busca ampliar a cooperação internacional no combate ao crime organizado e fortalecer as relações com os Estados Unidos. A investigação sobre possíveis vínculos entre autoridades judiciais e organizações criminosas representa um desafio para as instituições bolivianas.
O episódio também poderá exigir cooperação com países vizinhos caso seja confirmada a saída irregular do magistrado. Brasil e Bolívia compartilham uma extensa fronteira terrestre, marcada por rotas comerciais e circulação de pessoas, além de áreas historicamente utilizadas por organizações envolvidas no tráfico internacional de drogas.
Por enquanto, não há confirmação de que Saucedo tenha ingressado no Brasil nem informações oficiais sobre seu destino. A Fiscalía boliviana mantém a ordem de prisão em vigor e busca ampliar os mecanismos internacionais de localização do magistrado, enquanto o Tribunal Supremo enfrenta a possibilidade de afastamento definitivo de seu presidente.
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