Mulheres perdem espaço na Alep, enquanto Senado bate recorde de eleitas em 2026
Paraná terá nove deputadas estaduais e quatro federais a partir de 2027; no país, Câmara amplia bancada feminina para 109 parlamentares e Senado elege 12 mulheres, maior número desde a redemocratização
As urnas de 4 de outubro deixaram dois retratos distintos da participação feminina na política. No Paraná, a representação das mulheres recuou na Assembleia Legislativa e ficou estagnada na Câmara dos Deputados. No cenário nacional, porém, o movimento foi de crescimento: a Câmara Federal terá a maior bancada feminina de sua história e o Senado registrou recorde de mulheres eleitas em uma única eleição desde a redemocratização.
O contraste chama atenção porque as mulheres continuam sendo maioria entre os eleitores. Dos 158,7 milhões de brasileiros aptos a votar em 2026, 83,87 milhões são mulheres, o equivalente a 52,84% do eleitorado. O Paraná, quinto maior colégio eleitoral do país, tem 8,6 milhões de eleitores.
Apesar do peso nas urnas, a presença feminina continuará muito abaixo da metade dos cargos legislativos. Na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), serão nove mulheres entre 54 deputados — 16,7% da Casa. Na bancada paranaense da Câmara, serão quatro entre os 30 representantes, ou 13,3%. No Senado, por outro lado, 12 das 54 cadeiras renovadas neste domingo foram conquistadas por mulheres. É o maior número registrado em uma única eleição para a Casa desde a redemocratização.
Paraná passa de dez para nove deputadas estaduais
A eleição interrompeu uma trajetória recente de crescimento da presença feminina na Assembleia Legislativa. Em 2022, dez mulheres haviam sido eleitas para as 54 cadeiras, formando a maior bancada feminina da história da Casa. Em 2026, serão nove, uma redução de 10% no número absoluto de representantes e uma queda de 18,5% para 16,7% na participação feminina no plenário.
As deputadas eleitas são:
Jessicão (PL) - 131.673 votos
Maria Victoria (PP) - 73.993 votos
Mabel Canto (PP) - 70.180 votos
Delegada Tathiana Guzella (PL) - 65.046 votos
Flávia Francischini (PL) - 63.831 votos
Miss Preta (PT) - 45.566 votos
Yasmin Hachem (PT) - 43.343 votos
Fabiana Parro (Podemos) - 42.192 votos
Lu Bonatto (Podemos) - 39.738 votos
Jessicão foi a mulher mais votada para a Assembleia e terminou na segunda colocação geral entre todos os candidatos a deputado estadual. Das dez mulheres que integram a atual legislatura, apenas Flávia Francischini, Mabel Canto e Maria Victoria conquistaram diretamente um novo mandato na Alep.
Ana Júlia foi eleita deputada federal. Cloara Pinheiro, Cristina Silvestri e Luciana Rafagnin disputaram vagas na Câmara dos Deputados, mas não foram eleitas. Cantora Mara Lima, Márcia Huçulak e Marli Paulino tentaram permanecer na Assembleia, mas não conseguiram a reeleição. Em contrapartida, seis mulheres chegam à Casa: Jessicão, Delegada Tathiana Guzella, Miss Preta, Yasmin Hachem, Fabiana Parro e Lu Bonatto. Isso significa que dois terços da bancada feminina que tomará posse em 2027 será formada por parlamentares que não integram atualmente a Alep.
Avanço de 2022 é interrompido
O resultado de 2026 ganha peso quando observado em perspectiva histórica.
Mulheres eleitas para a Assembleia Legislativa do Paraná
2014: 3 deputadas (5,6% das 54 cadeiras);
2018: 4 deputadas (7,4% das 54 cadeiras);
2022: 10 deputadas (18,5% das 54 cadeiras);
2026: 9 deputadas (16,7% das 54 cadeiras);
Em 2018, apenas quatro das 54 cadeiras eram ocupadas por mulheres, ou 7,4% do Parlamento estadual. Estudo publicado pela própria Revista do Legislativo Paranaense já apontava, naquele momento, a distância entre a composição da Assembleia e o eleitorado, que era majoritariamente feminino. O grande salto aconteceu quatro anos depois: em 2022, dez mulheres foram eleitas, mais do que dobrando a representação feminina. A eleição de 2026 não desfaz esse avanço histórico — nove deputadas ainda representam mais que o dobro das quatro eleitas em 2018 —, mas é a primeira reversão desde aquele crescimento.
Primeira deputada foi eleita há quase 80 anos
A sub-representação feminina na Assembleia acompanha praticamente toda a história do Legislativo estadual. Rosy de Macedo Pinheiro Lima foi a primeira mulher eleita deputada estadual no Paraná, em 1947, pela União Democrática Nacional (UDN). Sua atuação teve ênfase nas áreas de educação e inclusão das mulheres na vida pública. Depois dela, a Assembleia passou décadas sem representação feminina e só voltou a ter uma deputada nos anos 1980. Atualmente, Rosy dá nome a uma premiação criada pela Alep para homenagear mulheres de destaque no estado.
Bancada feminina terá quatro partidos
As nove cadeiras conquistadas em 2026 estarão divididas entre quatro partidos. O PL terá três deputadas: Jessicão, Delegada Tathiana Guzella e Flávia Francischini. PP, PT e Podemos terão duas representantes cada. Pelo PP, estarão Maria Victoria e Mabel Canto; pelo PT, Miss Preta e Yasmin Hachem; e pelo Podemos, Fabiana Parro e Lu Bonatto.
A distribuição também mostra que aumento ou redução da representação numérica não pode ser confundido automaticamente com uma posição política comum. As parlamentares pertencem a diferentes campos ideológicos e podem divergir sobre temas econômicos, sociais, administrativos e de costumes. O efeito objetivo da eleição é institucional: haverá uma mulher a menos participando das votações, comissões, relatorias e demais espaços de poder da Assembleia.
Uma mulher a menos pode ter efeito também nas comissões
Desde 2022, a Alep possui formalmente uma Bancada Feminina, criada por alteração no Regimento Interno e atualmente liderada por Mabel Canto. Na atual legislatura, o grupo reúne dez deputadas e atua de forma conjunta em projetos relacionados, entre outros temas, à violência contra a mulher, saúde e participação feminina. A redução da bancada não significa, por si só, menor aprovação de políticas para mulheres. O comportamento parlamentar depende de partidos, posições individuais, composição das comissões e formação das maiorias. Mas a queda altera matematicamente a capacidade de representação feminina em espaços internos da Casa. Com nove parlamentares, mulheres ocuparão apenas uma de cada seis cadeiras da Assembleia. A composição das comissões permanentes, da Mesa Diretora, das presidências de colegiados e das relatorias a partir de fevereiro será um dos indicadores para medir se a perda de uma cadeira também se refletirá na distribuição interna de poder.
Paraná mantém quatro deputadas federais
Se na Assembleia houve retração, na representação paranaense na Câmara dos Deputados houve estabilidade. Quatro mulheres foram eleitas entre os 30 deputados federais do Paraná:
Ana Júlia (PT) - 184.691 votos;
Rosangela Moro (PL) - 146.417 votos;
Carol Dartora (PT) - 101.823 votos;
Leandre (PSD) - 90.185 votos;
Ana Júlia, atualmente deputada estadual, foi a mulher mais votada para a Câmara no Paraná e ficou entre os nomes de maior votação geral do estado. Com quatro mulheres em uma bancada de 30 integrantes, a representação feminina paranaense será de 13,3%. O número é o mesmo de 2022 e inferior ao registrado em 2018, quando cinco mulheres foram eleitas para representar o Paraná na Câmara. Assim, enquanto a Alep sofreu uma redução, a bancada federal feminina do Paraná permanece estagnada pela segunda eleição consecutiva.
Câmara terá 109 mulheres e estabelece novo recorde
O cenário nacional é diferente. A bancada feminina da Câmara dos Deputados passará das atuais 90 integrantes para 109 a partir de 1º de fevereiro de 2027. São 19 cadeiras adicionais, crescimento de 21,1%. Das 109 eleitas, 59 foram reeleitas. As mulheres passarão a ocupar aproximadamente 21,2% das 513 vagas da Câmara. Os homens continuarão com 404 cadeiras, correspondentes a aproximadamente 79%.
São Paulo elegeu 16 deputadas, Minas Gerais 11 e o Rio de Janeiro dez. Bahia, Pernambuco e Santa Catarina elegeram seis mulheres cada. Distrito Federal, Piauí e Roraima não elegeram deputadas federais neste pleito. Apesar do recorde, permanece uma diferença superior a 31 pontos percentuais entre o peso feminino no eleitorado brasileiro, de 52,84%, e sua futura presença na Câmara, de aproximadamente 21,2%.
Senado tem maior número de mulheres eleitas desde a redemocratização
O avanço proporcional mais significativo aconteceu no Senado. Das 54 vagas colocadas em disputa — dois terços da Casa —, 12 foram conquistadas por mulheres. Segundo o Senado Federal, é o maior número de senadoras eleitas em um único pleito desde a redemocratização.
Foram eleitas: Mara Rocha (Republicanos-AC); Marina JHC (PSDB-AL); Rayssa Furlan (Podemos-AP); Luizianne (Rede-CE); Michelle Bolsonaro (PL-DF); Bia Kicis (PL-DF); Gracinha Caiado (União-GO); Marília Campos (PT-MG); Marília Arraes (PDT-PE); Samanda de Lula (PT-RN); Teresa Surita (MDB-RR); Carol de Toni (PL-SC).
O recorde anterior havia ocorrido em 2002, com oito mulheres eleitas. Em 2018, último pleito em que também foram renovados dois terços da Casa, sete conquistaram mandatos. Com as parlamentares que têm mandato até 2031 e considerando suplentes atualmente em exercício, o Senado projeta uma bancada feminina de 18 integrantes em 2027, equivalente a 22,2% das 81 cadeiras. Atualmente, são 15.
Senado saiu de uma mulher em 1980 para projeção de 18 em 2027
A comparação histórica evidencia a dimensão do avanço. A primeira mulher a exercer mandato no Senado foi Eunice Michiles, que tomou posse como suplente em 1979. As primeiras eleitas diretamente foram Júnia Marise, por Minas Gerais, e Marluce Pinto, por Roraima, em 1990.
Evolução da bancada feminina no Senado
1980: 1 mulher em exercício;
1995: 5 mulheres em exercício;
2007: 10 mulheres em exercício;
2015: 14 mulheres em exercício;
2026: 16 mulheres em exercício*;
2027: 18 mulheres em exercício**;
* maior número simultâneo registrado em 2026
** projeção divulgada pelo Senado após o resultado eleitoral
Mesmo no cenário projetado para 2027, no entanto, menos de uma em cada quatro cadeiras do Senado será ocupada por uma mulher.
Distrito Federal terá três senadoras
O resultado de 2026 produziu, ainda, um fato inédito: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram eleitas para as duas vagas do Distrito Federal. Como Damares Alves possui mandato até 2031, as três cadeiras da unidade da Federação serão ocupadas simultaneamente por mulheres. Será a primeira bancada de uma unidade da Federação formada integralmente por mulheres no Senado. Também foi a primeira vez que duas candidatas mulheres foram eleitas simultaneamente para as duas vagas senatoriais de uma mesma unidade federativa.
Outro marco aconteceu no Amapá: Rayssa Furlan será a primeira mulher eleita diretamente para representar o estado no Senado. Com isso, o Piauí passa a ser a única unidade da Federação que nunca elegeu diretamente uma mulher para a Casa.
Paraná continuará sem mulher entre seus senadores titulares
O avanço nacional não se repetiu no Paraná. As duas cadeiras disputadas pelo estado foram conquistadas por Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo), que assumem em fevereiro de 2027 para mandatos de oito anos. Assim, nenhuma das três cadeiras paranaenses será ocupada por uma mulher entre os titulares no início da próxima legislatura. O estado já teve uma mulher eleita diretamente para o Senado: Gleisi Hoffmann, em 2010.
Maioria nas urnas, minoria nos parlamentos
A comparação entre eleitorado e representação é um dos principais dados deixados pelas eleições de 2026. No Brasil, mulheres representam 52,84% das pessoas aptas a votar. Mesmo após o crescimento deste ano, ocuparão, aproximadamente: 21,2% da Câmara dos Deputados e 22,2% do Senado (pela projeção para 2027).
No Paraná, a diferença é ainda maior: 16,7% das cadeiras da Assembleia Legislativa; 13,3% da bancada estadual na Câmara; nenhuma das três cadeiras de senador entre os titulares. Ou seja, o fato de as mulheres serem maioria entre os eleitores ainda não se converte em representação proporcional nos principais espaços legislativos.
O que pode mudar com os resultados de 4 de outubro
Os efeitos concretos da nova composição só começarão a ser medidos depois da posse, em fevereiro de 2027. O aumento no número de mulheres no Congresso pode ampliar numericamente a presença feminina em comissões permanentes, relatorias, liderança de bancadas e negociações legislativas. Isso não significa, porém, que as parlamentares formem um bloco político homogêneo. As 12 senadoras eleitas, por exemplo, pertencem a partidos que vão do PT e Rede ao PL, Republicanos e União Brasil. O mesmo ocorre entre as deputadas federais e estaduais. Assim, maior representação feminina significa essencialmente que mais mulheres estarão diretamente presentes nas decisões. Não permite antecipar como votarão em temas específicos.
No Paraná, o movimento inverso poderá ser acompanhado pela ocupação dos espaços internos da Assembleia. A próxima legislatura terá uma parlamentar mulher a menos, mas continuará com representação muito superior à registrada até 2018. A eleição de 2026, portanto, deixa um resultado duplo: nacionalmente, mulheres conquistaram espaço inédito no Congresso; no Paraná, o avanço obtido na eleição estadual de 2022 perdeu força.
Quase oito décadas depois da eleição de Rosy de Macedo Pinheiro Lima, primeira deputada estadual paranaense, as mulheres continuam maioria entre quem escolhe os representantes — mas permanecem como minoria entre aqueles que ocupam as cadeiras e tomam as decisões.
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