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Lula terá 5 desafios para tentar virar eleição contra Flávio Bolsonaro

Presidente terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro e terá de recuperar terreno em São Paulo e Minas Gerais, mobilizar eleitores ausentes, conquistar votos de derrotados e manter a força no Nordeste

Gabriel Porta · · 7 min de leitura
Lula terá de recuperar votos e mudar estratégia para virar contra Flávio
Lula terá de recuperar votos e mudar estratégia para virar contra Flávio — Crédito: Divulgação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá, no segundo turno da eleição presidencial, uma das disputas mais difíceis de sua trajetória eleitoral. O petista terminou o primeiro turno com cerca de 45% dos votos válidos, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) ficou com aproximadamente 47%, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos.

Para analistas ouvidos pela Gazeta, o resultado coloca Flávio em uma posição mais confortável para a segunda rodada, marcada para 25 de outubro. Desde a redemocratização, em 1988, nenhum candidato que terminou atrás no primeiro turno conseguiu virar uma eleição presidencial no segundo.

Lula também teve um desempenho inferior ao registrado em 2022. Foram cerca de 3,4 milhões de votos a menos que no primeiro turno daquela eleição. Flávio, por outro lado, recebeu aproximadamente 5 milhões de votos a mais que Jair Bolsonaro havia obtido na primeira rodada de 2022.

Nesse cenário, analistas apontam pelo menos cinco desafios para Lula tentar reverter a vantagem.

1. Reduzir a abstenção

O primeiro desafio será ampliar o comparecimento às urnas. No primeiro turno, cerca de 21% dos eleitores não votaram. Isso representa aproximadamente 33,4 milhões de pessoas, quase dez vezes a diferença registrada entre Flávio e Lula.

O índice foi o maior de uma eleição desde 1998. Historicamente, a abstenção tende a ser maior entre eleitores de menor renda e escolaridade, grupos nos quais Lula costuma apresentar desempenho melhor.

Segundo analistas consultados pela Gazeta, pode ser mais simples convencer quem não votou a comparecer às urnas do que fazer um eleitor mudar de candidato.

A estratégia, porém, exigiria que Lula conseguisse mobilizar esse público no segundo turno, seja com uma nova mensagem de campanha, seja com propostas capazes de estimular a participação.

O próprio presidente citou a abstenção após o resultado do primeiro turno e fez um apelo para que os eleitores compareçam à votação de 25 de outubro.

Além dos que não foram votar, cerca de 6 milhões de eleitores escolheram o voto branco ou nulo no primeiro turno, o equivalente a 4,8%.

Voto no exterior também pode fazer diferença

Outro dado chama a atenção. Entre os brasileiros que vivem no exterior, apenas 38% dos eleitores aptos compareceram às urnas.

Cerca de 900 mil brasileiros que vivem fora do país estavam habilitados a votar, número superior ao eleitorado de alguns estados. Nesse grupo, Lula venceu Flávio por uma diferença de quatro pontos percentuais.

Para analistas, portanto, um aumento da participação dos brasileiros no exterior também poderia contribuir para reduzir a vantagem do candidato do PL.

2. Melhorar o desempenho em São Paulo

O segundo desafio é São Paulo, maior colégio eleitoral do país.

No primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro teve vantagem de sete pontos percentuais sobre Lula no Estado. Agora, a diferença entre Flávio e o petista chegou a 14 pontos.

Lula venceu na capital paulista por cinco pontos de vantagem e também ficou à frente em municípios da região metropolitana, como Diadema e São Bernardo do Campo.

O cenário foi diferente no interior, onde Flávio conseguiu uma vantagem mais ampla. A região é historicamente mais conservadora e concentra grande número de eleitores.

Flávio ainda conta com o apoio político do governador Tarcísio de Freitas, reeleito no primeiro turno. Os dois senadores eleitos em São Paulo, Guilherme Derrite e André de Castro, também são aliados do candidato do PL.

3. Recuperar terreno em Minas Gerais

Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, é outro Estado considerado estratégico.

Historicamente, o resultado mineiro é tratado como um termômetro das eleições presidenciais. No primeiro turno deste ano, Flávio abriu cinco pontos de vantagem sobre Lula. Em 2022, o cenário havia sido inverso, com Lula cinco pontos à frente de Jair Bolsonaro.

A votação também revelou uma divisão regional dentro de Minas Gerais. O norte do Estado apresentou um comportamento eleitoral mais próximo do Nordeste, com maior votação para Lula. Já o sul e o oeste tiveram perfil mais semelhante ao interior de São Paulo e ao Centro-Oeste.

Na disputa pelo governo de Minas, o senador Cleitinho (Republicanos) venceu no primeiro turno e declarou apoio a Flávio.

Para Lula, recuperar parte da vantagem perdida no Estado será importante para reduzir a diferença nacional.

4. Conquistar votos de outros candidatos

Outro desafio será disputar os eleitores que escolheram candidatos diferentes de Lula e Flávio no primeiro turno.

Analistas avaliam que parte dos votos recebidos por Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema pode migrar para Flávio, já que os três candidatos possuem posições mais próximas do candidato do PL em temas políticos e econômicos.

Juntos, eles receberam pouco menos de 5% dos votos válidos. Se a maior parte desses votos migrar para Flávio, a vantagem do senador pode aumentar.

Por isso, Lula terá de tentar atrair pelo menos uma parcela desse eleitorado.

Goiás entra no centro da disputa

Goiás será um dos Estados importantes nessa negociação. O Estado é a base política de Ronaldo Caiado, que recebeu cerca de 12% dos votos dos eleitores goianos e quase meio milhão de votos no primeiro turno.

Em Goiás, Flávio terminou com 22 pontos percentuais de vantagem sobre Lula.

Na eleição para governador, Daniel Vilela (MDB) foi reeleito no primeiro turno. A expectativa apresentada pelos analistas é de que ele possa declarar apoio a Flávio na segunda rodada.

Outro grupo de votos que estará em disputa é o de Augusto Cury. O candidato se apresentou como uma alternativa à polarização entre esquerda e direita e declarou que não apoiará Lula nem Flávio no segundo turno.

Para os analistas, o eleitorado de Cury pode ser mais disputado por Lula do que os votos de candidatos identificados com a direita.

5. Manter a força no Nordeste

O quinto desafio é o Nordeste, principal região eleitoral de Lula, mas onde o presidente também teve uma votação inferior à registrada em 2022.

A maior perda ocorreu na Bahia, maior colégio eleitoral nordestino.

Analistas acreditam que Lula deveria concentrar esforços na região para recuperar eleitores que foram impactados por políticas sociais do governo.

O PT conseguiu manter força em Estados importantes. Na Bahia (Jeronimo Rodrigues), no Piauí (Rafael Fonteles) e no Ceará (Elmano de Freitas), candidatos do partido foram reeleitos para os governos estaduais no primeiro turno.

Em Pernambuco, porém, o cenário foi diferente. João Campos (PSB), candidato apoiado por Lula, perdeu a disputa para a governadora Raquel Lyra (PSD), que não declarou apoio a nenhum dos candidatos à Presidência.

Lula também terá de mudar a estratégia

Além dos desafios regionais e da busca por novos votos, analistas apontam que Lula precisará modificar a estratégia de comunicação da campanha.

A avaliação é que o presidente terá de ampliar o alcance de sua mensagem para além do eleitorado que já apoia o PT.

Na avaliação apresentada por analistas, a campanha do primeiro turno teria se concentrado principalmente no legado dos governos anteriores de Lula e em conquistas históricas associadas ao presidente.

Para o segundo turno, a tarefa seria alcançar eleitores que ainda não estão convencidos e apresentar uma mensagem capaz de ampliar a mobilização.

Disputa entra nas três semanas decisivas

Lula terá até 25 de outubro para tentar reduzir uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos.

A estratégia passa por aumentar a participação dos eleitores que não votaram no primeiro turno, recuperar terreno em São Paulo e Minas Gerais, manter a vantagem no Nordeste e conquistar parte dos votos destinados aos candidatos que ficaram fora do segundo turno.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro tentará consolidar a vantagem obtida na primeira rodada e ampliar o apoio entre os eleitores dos candidatos derrotados.

O segundo turno, portanto, começa com uma vantagem numérica para o candidato do PL e com Lula diante da necessidade de combinar mobilização, transferência de votos e mudança de estratégia de campanha para tentar virar a disputa.

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