Família de Sandro Alex reúne rádios, publicidade oficial, processos e dívida de IPTU que foi parar na Justiça Eleitoral
Documentos levantados pela Gazeta mostram integrantes dos Oliveira ligados a diferentes emissoras, registros de publicidade institucional, ações judiciais e imóveis cujo passivo tributário entrou na campanha de 2024 e provocou uma batalha nos tribunais
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Antes de Sandro Alex chegar ao primeiro escalão do Governo do Paraná e lançar sua candidatura ao Palácio Iguaçu, a família Oliveira já havia construído em Ponta Grossa uma história em que rádio, negócios e política caminham lado a lado. Uma varredura da Gazeta do Paraná acrescenta outras peças a esse percurso: emissoras relacionadas a integrantes da família aparecem em registros de publicidade oficial, empresas e familiares figuram em processos judiciais e uma dívida de IPTU vinculada ao imóvel onde funciona a Rádio Mundi acabou no centro de uma batalha eleitoral.
A investigação documental encontrou Rádio Mundi, Rádio Central do Paraná e Rádio Lagoa Dourada em diferentes capítulos dessa história. Os registros atravessam décadas e envolvem principalmente Nilson Paulino de Oliveira, pai de Sandro Alex e Marcelo Rangel, mas alcançam também outros integrantes da família.
O ponto de encontro entre essas histórias é a comunicação. Foi no rádio que os irmãos ganharam projeção antes de consolidarem suas carreiras eleitorais. Depois, Marcelo chegou à Assembleia Legislativa e governou Ponta Grossa por dois mandatos, enquanto Sandro alcançou a Câmara dos Deputados, passou pelo primeiro escalão do Governo Ratinho Junior e agora disputa o comando do Paraná.
A ascensão política dos irmãos não encerrou a história empresarial da família no setor. Os documentos mostram que emissoras continuaram aparecendo em registros societários, processos judiciais e publicidade institucional. Em 2024, a Mundi voltaria ao centro da disputa política quando Elizabeth Schmidt foi pessoalmente à frente da rádio para expor débitos tributários relacionados ao imóvel.
A Mundi e os Oliveira
A Rádio Mundi é a face mais conhecida dessa história. Foi no ambiente da comunicação que Sandro e Marcelo ganharam exposição pública antes da consolidação de suas carreiras políticas, mas os documentos encontrados pela Gazeta mostram que a relação dos Oliveira com a empresa ultrapassa a passagem dos irmãos pelos microfones.
Uma pesquisa em registros judiciais encontrou processos nos quais a Rádio Mundi Paraná Ltda. aparece ao lado de diferentes integrantes da família. Em ação ajuizada pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, em 2021, por exemplo, aparecem no polo passivo Giovanna Paola Cruz de Oliveira, irmã de Sandro e Marcelo, Maria Luiza da Conceição Cruz de Oliveira e a própria Rádio Mundi.
Em outro processo envolvendo direitos autorais, distribuído em 2012, a Rádio Mundi aparece representada por Nilson Paulino de Oliveira, juntamente com Maria Luiza. Já em execução de título extrajudicial distribuída em 2016, novamente aparecem Nilson, Maria Luiza e a emissora. Marcelo Rangel Cruz de Oliveira também surge ao lado da Mundi em registro de cumprimento de sentença localizado durante a apuração.
Os processos possuem objetos e desfechos diferentes, portanto a presença de alguém em uma ação não significa necessariamente condenação ou reconhecimento de irregularidade. O que o conjunto permite estabelecer documentalmente é a extensão da relação familiar com a empresa ao longo dos anos.
Não era só a Mundi
Quando a pesquisa é ampliada, a história dos Oliveira no rádio deixa de caber em uma única frequência. Outra empresa que aparece na documentação é a Rádio Central do Paraná Ltda.
A relação de Nilson com a Central tem raízes antigas. Documentos relacionados à empresa registram aquisição de quotas sociais em hasta pública em 2005, no contexto de processo de insolvência civil. A situação posteriormente provocou discussões administrativas e tributárias relacionadas ao reconhecimento dos administradores da empresa.
Em registros empresariais mais recentes, Nilson aparece como sócio-administrador da Rádio Central. Em determinados processos localizados durante a apuração, Central e Mundi também aparecem no mesmo universo de disputas judiciais.
A terceira ponta desse mapa é a Rádio Lagoa Dourada Ltda.. Documentos judiciais antigos já relacionavam Nilson à operação comercial da emissora, enquanto registros empresariais posteriores mostram outros integrantes da família em sua estrutura societária e administrativa.
Como as composições societárias mudam com o tempo, a Gazeta considera a situação correspondente a cada período e não atribui automaticamente aos atuais integrantes relações empresariais pertencentes ao passado. O que a sequência documental mostra é que a presença dos Oliveira na radiodifusão de Ponta Grossa foi mais ampla do que apenas a Rádio Mundi.
Dos microfones para as urnas
É nesse ponto que a história empresarial se encontra com a política. Sandro Alex e Marcelo Rangel chegaram às urnas depois de já terem construído exposição pública na comunicação, transformando posteriormente essa projeção em carreiras eleitorais de longa duração.
Marcelo tornou-se deputado estadual e depois comandou Ponta Grossa por dois mandatos. Sandro chegou à Câmara dos Deputados, ocupou a Secretaria de Infraestrutura e Logística do Paraná durante o governo Ratinho Junior e, em 2026, disputa o Governo do Estado.
Não há irregularidade em comunicadores ingressarem na política, assim como a participação de familiares em empresas de radiodifusão é uma atividade privada lícita. A cronologia, porém, ajuda a compreender a construção do grupo político: o rádio veio antes das urnas e permaneceu presente na história da família depois que os irmãos chegaram ao poder.
Publicidade oficial também aparece no mapa
A relação das emissoras com o poder público não ficou restrita à cobertura política. A varredura da Gazeta encontrou empresas de comunicação relacionadas à família Oliveira em registros de publicidade institucional de órgãos e empresas públicas em diferentes períodos.
A presença de uma rádio em campanhas financiadas pelo poder público não significa, por si só, favorecimento. A distribuição de publicidade institucional entre veículos de comunicação é prática regular e uma eventual conclusão sobre tratamento privilegiado exigiria comparar planos de mídia, audiência, abrangência, valores, critérios técnicos e pagamentos feitos aos demais veículos.
Ainda assim, os registros acrescentam uma nova camada à história empresarial. Enquanto integrantes da família avançavam na política, emissoras relacionadas aos Oliveira também figuravam entre veículos utilizados para campanhas institucionais financiadas com recursos públicos.
Por isso, a Gazeta trata os pagamentos como aquilo que os documentos permitem afirmar: publicidade oficial destinada a empresas de comunicação relacionadas à família, sem atribuir irregularidade sem elementos que a comprovem.
A rádio voltou para o centro da eleição
Em 2024, essa história ganhou um capítulo que reuniu rádio, família, política e tributos em uma mesma disputa. Durante a campanha pela Prefeitura de Ponta Grossa, Elizabeth Schmidt foi pessoalmente à frente da Rádio Mundi e gravou um vídeo falando sobre débitos tributários relacionados ao imóvel onde funciona a emissora.
A reação do grupo adversário não ficou restrita à campanha. Marcelo Rangel levou a discussão à Justiça Eleitoral, sustentando posteriormente que Elizabeth teria utilizado a condição de prefeita para obter informações fiscais que não estariam disponíveis ao cidadão comum.
A controvérsia integrou a Ação de Investigação Judicial Eleitoral nº 0600522-40.2024.6.16.0015, distribuída em dezembro daquele ano. Entre as acusações apresentadas estava justamente o uso da informação sobre uma dívida fiscal de aproximadamente R$ 18 mil referente ao IPTU do imóvel da Rádio Mundi.
Entre as acusações apresentadas estava justamente o uso da informação sobre uma dívida fiscal de aproximadamente R$ 18 mil referente ao IPTU do imóvel da Rádio Mundi.
A tentativa de demonstrar que Elizabeth havia utilizado informação privilegiada, entretanto, acabou levando para dentro do processo documentos que mostravam como os dados podiam ser encontrados.
Consulta pública desmontou tese sobre sigilo
A defesa sustentou que as informações utilizadas por Elizabeth estavam disponíveis publicamente e apresentou documentos para demonstrar o caminho de consulta. A própria decisão judicial registra que a legislação tributária municipal determinava a publicidade da relação de contribuintes inscritos em dívida ativa.
O processo também registrou que a discussão sobre os débitos não havia surgido durante aquela campanha. A defesa apresentou referências a reportagens anteriores e outros documentos para demonstrar que a situação tributária já havia sido tratada publicamente.
O Ministério Público Eleitoral também analisou o caminho utilizado para chegar às informações. Entre os documentos apresentados estava uma gravação de tela demonstrando a possibilidade de consulta pelo portal oficial da Prefeitura de Ponta Grossa a partir dos dados de Nilson Paulino de Oliveira, pai de Sandro Alex e Marcelo Rangel.
A tese de que a prefeita havia utilizado informação fiscal obtida de maneira privilegiada não prevaleceu naquela AIJE. Em fevereiro de 2025, a ação foi julgada improcedente, sem reconhecimento do abuso de poder político alegado pelos autores.
Dívida não desapareceu da história
A decisão judicial resolveu a discussão eleitoral daquele processo, mas não encerrou a história tributária que havia levado Elizabeth à porta da Rádio Mundi.
Os autos preservaram documentos e informações que permitem identificar os cadastros envolvidos e reconstruir parte da situação existente em 2024. Entre eles está o cadastro imobiliário 37351, relacionado a Nilson Paulino de Oliveira e ao endereço utilizado pela emissora.
É justamente a existência dessa documentação histórica que permite agora comparar o que aparecia no sistema durante a eleição com o que consta nos registros públicos dois anos depois.
A Gazeta do Paraná refez a consulta em setembro de 2026 e encontrou novamente os cadastros vinculados a Nilson. A situação atual, porém, não reproduz simplesmente os mesmos valores que protagonizaram a eleição passada.
A reportagem decidiu separar essa apuração porque a ausência de determinado débito numa consulta atual não significa automaticamente que ele tenha sido pago. Uma dívida tributária pode ser parcelada, ter sua exigibilidade suspensa, ser baixada, cancelada ou sofrer outras alterações administrativas e judiciais.
A pergunta, portanto, mudou. Se os aproximadamente R$ 18 mil existiam quando a controvérsia chegou à Justiça Eleitoral, o que aconteceu com eles depois?
Rádio, negócios e política atravessam décadas
Vista isoladamente, cada empresa conta apenas uma parte dessa história. Quando os documentos são colocados lado a lado, o mapa ganha outra dimensão. Não existe apenas a Mundi: aparecem também Central e Lagoa Dourada. E não surge apenas Sandro Alex: os registros alcançam Nilson, Marcelo, Giovanna, Maria Luiza e outros integrantes da família em diferentes períodos.
Também não existe apenas política. Há sociedades empresariais, processos judiciais, publicidade institucional e imóveis ligados a uma dívida tributária que acabou transformada em tema de campanha e levada à Justiça Eleitoral.
Nenhum desses elementos, isoladamente, demonstra uma irregularidade geral da família, assim como atos, processos ou obrigações de um integrante não podem ser automaticamente atribuídos aos demais. O que os documentos revelam é uma trajetória na qual radiodifusão, negócios e política permanecem próximas durante décadas da história dos Oliveira em Ponta Grossa.
E isso ganha uma dimensão diferente em 2026. Sandro Alex deixou de disputar apenas espaço político nos Campos Gerais e agora pede aos eleitores de todo o Paraná a oportunidade de comandar o Estado.
Conhecer de onde veio essa trajetória significa também olhar para a estrutura empresarial e familiar que a antecedeu. No caso dos Oliveira, antes do Palácio Iguaçu havia Ponta Grossa. E, antes das urnas, havia o rádio.
Esta é a segunda reportagem da série especial “Os Oliveira”. No próximo capítulo, a Gazeta do Paraná abre os documentos tributários preservados pela disputa eleitoral, compara os registros de 2024 com as consultas feitas em 2026 e investiga o que aconteceu com a dívida de IPTU que levou Elizabeth Schmidt à porta da Rádio Mundi.
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