Dia das Crianças: os perigos que ameaçam a infância e os desafios para proteger quem mais precisa
Acidentes domésticos, queimaduras, violência na internet e riscos à saúde expõem a vulnerabilidade de crianças e adolescentes; dados colocam o Paraná entre os estados com mais internações por queimaduras e reforçam a importância da prevenção
O Dia das Crianças costuma ser marcado por presentes, brincadeiras e reuniões familiares. Mas, por trás das comemorações deste 12 de outubro, os números revelam uma realidade que exige atenção durante todo o ano: milhares de crianças brasileiras continuam expostas a acidentes, violências e situações que comprometem sua saúde, segurança e desenvolvimento.
No Paraná, dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) mostram que o estado registrou 969 internações de crianças e adolescentes por queimaduras e outros acidentes térmicos graves em 2025, o segundo maior número absoluto do país naquele ano. Em 2024, haviam sido 886 hospitalizações, o maior total entre os estados brasileiros. Os registros representam um aumento de aproximadamente 9,4% de um ano para o outro. Como os números consideram apenas pacientes que precisaram de internação pelo Sistema Único de Saúde (SUS), não abrangem todos os acidentes atendidos em unidades de saúde ou tratados em casa. O cenário levanta uma questão que ultrapassa as comemorações: até que ponto os ambientes onde as crianças vivem, estudam e brincam estão realmente preparados para protegê-las?
Paraná registrou 85 mortes infantis em acidentes domésticos em um ano
Um levantamento da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa), referente a 2024, identificou 85 mortes relacionadas a acidentes domésticos entre menores de 14 anos. Entre as principais causas estavam: 32 mortes por broncoaspiração, 24 por engasgo, seis por afogamento em piscinas e cinco por quedas de móveis, edifícios ou outras estruturas. Os dados evidenciam que situações aparentemente comuns, como a alimentação, o banho ou a permanência em ambientes sem proteção adequada, podem representar riscos graves, especialmente para bebês e crianças pequenas. No balanço parcial divulgado pela secretaria em 2025, foram contabilizadas outras 37 mortes de janeiro a setembro daquele ano. Os períodos são diferentes e, portanto, não permitem concluir isoladamente que houve redução dos acidentes. A Sesa ressalta que a prevenção depende de medidas simples, como manter medicamentos e produtos químicos fora do alcance infantil, instalar redes de proteção, evitar objetos pequenos que possam provocar engasgos e supervisionar permanentemente crianças próximas à água.
Queimaduras: Paraná aparece entre os estados com mais internações
De acordo com dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Pediatria, foram 886 internações pelo SUS em 2024 e, em 2025, 969. O problema não se limita ao Paraná. Em todo o Brasil, foram registradas aproximadamente 13,8 mil internações de crianças e adolescentes por queimaduras e acidentes térmicos graves entre 2024 e 2025, uma média próxima de 20 hospitalizações por dia. Segundo a SBP, crianças menores de cinco anos concentraram 53,8% dessas internações. Entre os principais riscos estão líquidos quentes, panelas, fogo, objetos aquecidos e eletricidade.
A entidade destaca que o ambiente doméstico merece atenção especial. Cozinhas, lavanderias e locais com produtos inflamáveis exigem barreiras de proteção e supervisão constante. Os números absolutos mais elevados do Paraná, contudo, não significam necessariamente que o estado apresente a maior taxa de acidentes do Brasil. Uma comparação proporcional exigiria considerar a população infantil de cada unidade da federação.
Afogamentos: perigo também está dentro de casa
Piscinas, rios e praias costumam concentrar as preocupações dos adultos, mas o risco de afogamento também está presente em banheiras, baldes e recipientes com pequenas quantidades de água. De acordo com levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria, mais de 2,5 mil crianças e adolescentes morreram por afogamento no Brasil entre 2021 e 2022, uma média aproximada de três mortes por dia. No Paraná, foram registrados 131 óbitos no período analisado, número que colocou o estado empatado com o Amazonas na quinta posição nacional em números absolutos.
O Ministério da Saúde também aponta que, em 2023, o afogamento foi a segunda principal causa de morte por causas externas entre crianças brasileiras de zero a nove anos. Especialistas recomendam supervisão direta e permanente, barreiras físicas ao redor das piscinas e atenção especial aos menores de cinco anos. Boias infláveis e brinquedos flutuantes não substituem equipamentos de segurança adequados nem a presença de um adulto.
Violência digital: uma em cada cinco crianças e adolescentes pesquisados foi vítima
Os perigos à infância não estão restritos ao ambiente físico. Com o acesso cada vez mais frequente à internet, a proteção de crianças e adolescentes também depende da segurança nas plataformas digitais. Um estudo divulgado em março de 2026 pelo UNICEF Innocenti, em parceria com a ECPAT International e a Interpol, revelou que 19% das crianças e adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos sofreram alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia no período de um ano. A proporção equivale a aproximadamente 3 milhões de meninas e meninos nessa faixa etária, segundo a estimativa apresentada pelos pesquisadores.
O levantamento inclui situações em que ferramentas digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos online, são utilizadas para facilitar práticas abusivas. O resultado reforça a necessidade de diálogo entre responsáveis e crianças sobre privacidade, exposição de imagens, contato com desconhecidos e formas de denunciar situações suspeitas. A proteção digital, porém, não pode ser atribuída exclusivamente às famílias. Plataformas tecnológicas, escolas, autoridades e órgãos de proteção também têm responsabilidades na prevenção e no enfrentamento da violência.
Vacinação avança, mas proteção depende de acompanhamento contínuo
Entre os indicadores positivos relacionados à saúde infantil, o Brasil apresentou melhora importante na vacinação. Dados divulgados em julho de 2026 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo UNICEF mostram que o país reduziu de aproximadamente 360 mil, em 2023, para 50 mil, em 2025, o número estimado de crianças que não haviam recebido a primeira dose da vacina com componente contra difteria, tétano e coqueluche, aplicada no Brasil por meio da pentavalente. A redução, próxima de 90%, representa um avanço na recuperação da cobertura vacinal. Entretanto, receber a primeira dose não significa completar o esquema de imunização. O acompanhamento pela rede de atenção primária e a atualização da caderneta de vacinação continuam essenciais para prevenir doenças e reduzir o risco de complicações.
Saúde mental, alimentação e brincadeiras também fazem parte da proteção
A saúde das crianças não pode ser medida apenas pela ausência de doenças ou acidentes. O desenvolvimento saudável também depende de vínculos afetivos, alimentação adequada, sono, convivência social, atividade física e oportunidades para brincar. Em uma infância cada vez mais conectada, o equilíbrio entre atividades digitais e experiências presenciais merece atenção. Brincadeiras ao ar livre, leitura, esportes e convivência com outras crianças contribuem para o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional.
Também é importante que pais, responsáveis e educadores estejam atentos a mudanças persistentes de comportamento, isolamento, dificuldades de sono, sofrimento emocional e sinais de violência. Essas manifestações não significam, necessariamente, a existência de um transtorno psicológico, mas podem indicar a necessidade de acolhimento e avaliação profissional. A prevenção passa ainda pelo acesso regular aos serviços de saúde, acompanhamento do crescimento e desenvolvimento e identificação precoce de dificuldades de aprendizagem ou situações de vulnerabilidade.
Proteger a infância exige mais do que cuidados individuais
Embora muitas ocorrências possam ser prevenidas dentro de casa, a proteção infantil não deve ser tratada apenas como uma obrigação dos pais. A existência de creches seguras, escolas preparadas, espaços públicos acessíveis, atendimento pediátrico, políticas de alimentação e mecanismos de enfrentamento à violência também influencia diretamente o bem-estar das crianças. Os dados apresentados nesta reportagem abrangem diferentes períodos, faixas etárias e tipos de ocorrência. Por isso, não podem ser somados para estabelecer um total único de vítimas ou uma classificação geral dos riscos à infância. Ainda assim, revelam um ponto em comum: parte importante das ameaças à saúde e à segurança infantil pode ser reduzida com prevenção, informação, acompanhamento e políticas públicas.
Neste Dia das Crianças, o desafio vai além de proporcionar momentos de diversão. Garantir uma infância segura, saudável e protegida exige ações que permaneçam depois que a data passar.
Cuidados essenciais e canais de proteção
Dentro de casa: mantenha medicamentos, produtos de limpeza e objetos cortantes fora do alcance; proteja janelas e escadas; evite panelas e líquidos quentes próximos às crianças.
Na água e no lazer: nunca deixe crianças sozinhas em piscinas, banheiras ou perto de reservatórios. Use equipamentos de segurança adequados e supervisão constante.
Na internet: oriente sobre privacidade, acompanhe o uso de plataformas de acordo com a idade e mantenha um canal aberto para relatos de situações desconfortáveis.
Em caso de emergência ou denúncia: SAMU: 192. Bombeiros: 193. Disque Direitos Humanos: 100. Suspeita de intoxicação no Paraná: 0800 041 0148 (CIATox/PR, atendimento 24 horas).
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