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O que se sabe sobre a polêmica envolvendo o avião que levou Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos

Jato pertence a empresa argentina citada em investigação de corrupção e ligada indiretamente a empresário condenado nos EUA; relatos divergem sobre quem contratou a aeronave e qual foi a participação do governo Milei

Gazeta do Paraná · · 9 min de leitura
Flávio Bolsonaro desembarca de avião particular nos Estados Unidos após deixar o Brasil
Flávio Bolsonaro desembarca de avião particular nos Estados Unidos após deixar o Brasil — Crédito: Joe Raedle/Getty Images

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O avião particular utilizado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para deixar a Argentina rumo aos Estados Unidos, após a derrota nas eleições presidenciais brasileiras, tornou-se alvo de questionamentos sobre sua propriedade, as relações empresariais de seus operadores e as circunstâncias da contratação. A aeronave pertence à Baires Fly S.A., companhia argentina citada em uma investigação de supostas irregularidades financeiras envolvendo contratos públicos. Um empresário associado às atividades comerciais da empresa também manteve negócios com Federico Machado, condenado por crimes financeiros nos Estados Unidos.

A existência dessas relações, entretanto, não comprova que a aeronave tenha sido utilizada em atividades criminosas, tampouco que Flávio Bolsonaro tenha qualquer vínculo pessoal ou comercial com os investigados. O principal ponto ainda sem esclarecimento é quem contratou e financiou o fretamento que permitiu a viagem do senador e de sua família.

A aeronave é um Gulfstream G400, de matrícula argentina LV-JQW. Segundo os registros de rastreamento de voos consultados pela Gazeta do Paraná, o jato deixou o Aeroparque Jorge Newbery, em Buenos Aires, às 22h14 de segunda-feira (26), chegando a Puerto Iguazú às 23h45. Permaneceu no aeroporto da cidade fronteiriça até a madrugada de quarta-feira (28), quando decolou em direção a Guayaquil, no Equador, antes de seguir para os Estados Unidos.

O jornal argentino La Nación obteve a declaração geral do voo, documento emitido pela Baires Fly com registros da Alfândega e da autoridade migratória. Nele constam quatro passageiros: Flávio Bolsonaro, sua esposa, Fernanda, e as duas filhas do casal. A tripulação era formada por três argentinos. O documento registra Guayaquil como destino declarado da etapa de saída da Argentina.

Há uma diferença entre os horários apresentados nas fontes. A Direção Nacional de Migrações argentina informou que a família entrou no país às 22h50 de terça-feira (27) e embarcou às 23h30. Já o histórico do Flightradar24 indica decolagem às 00h21 de quarta-feira (28). As informações não são necessariamente incompatíveis, pois o horário de embarque não corresponde obrigatoriamente ao de decolagem.

Quem é o proprietário?

A Baires Fly S.A. é uma empresa argentina de aviação executiva, fundada em 1996, que atua no fretamento de aeronaves particulares. Seu presidente é o empresário Luis Grande, apontado pela imprensa argentina como responsável formal pela companhia.

A empresa já prestou serviços a integrantes do governo de Javier Milei. Em novembro de 2023, após vencer a eleição presidencial argentina, Milei utilizou um Gulfstream V de matrícula LV-KAX, operado pela Baires Fly, para viajar aos Estados Unidos. Entre os passageiros estavam sua irmã, Karina Milei, e Luis Caputo, atual ministro da Economia.

O histórico demonstra uma relação comercial anterior entre a companhia e o círculo político do presidente argentino. Não significa, contudo, que o governo tenha sido responsável por contratar o avião utilizado por Flávio Bolsonaro.

A CNN Brasil procurou a Baires Fly para esclarecer quem contratou e pagou pelo fretamento do LV-JQW. Até a publicação da reportagem consultada, a empresa não havia respondido.

Empresa aparece em investigação

A Baires Fly também é mencionada em investigações argentinas sobre supostas irregularidades na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), órgão responsável por políticas públicas destinadas a pessoas com deficiência.

O caso envolve suspeitas de superfaturamento de contratos, pagamentos indevidos e lavagem de dinheiro. Entre os investigados está Sergio Daniel Mastropietro, empresário do setor aeronáutico apontado em reportagens argentinas como possível administrador informal da Baires Fly.

Segundo a imprensa argentina, operações financeiras envolvendo a companhia passaram a ser examinadas pelas autoridades por suas relações com empresas fornecedoras da ANDIS. A investigação procura determinar a origem e a finalidade dos pagamentos, além de eventual participação de empresários e agentes públicos nas irregularidades.

A condição de empresa mencionada em uma investigação não equivale à comprovação de participação em crimes. Também não há, nos documentos examinados até agora, indicação de que o voo realizado por Flávio Bolsonaro tenha relação com as operações financeiras investigadas na ANDIS.

O escândalo ganhou repercussão política na Argentina por envolver suspeitas que alcançam pessoas próximas ao governo Milei. A apuração judicial permanece em andamento.

De onde vem a ligação com o narcotráfico?

A associação da aeronave com o narcotráfico, reproduzida em algumas publicações, exige uma distinção importante.

O nome citado é o do empresário argentino Federico Andrés Machado, conhecido como Fred Machado, que atuou no mercado internacional de aeronaves e respondeu a acusações criminais nos Estados Unidos.

Machado foi investigado em um processo que incluía suspeitas relacionadas ao tráfico internacional de drogas e a operações financeiras ilegais. Conforme as informações publicadas sobre o desfecho do caso, ele foi considerado culpado por crimes financeiros, incluindo conspiração para lavagem de dinheiro e fraude, enquanto a acusação de narcotráfico foi retirada no contexto de um acordo judicial.

A ligação com a Baires Fly ocorre por intermédio de Sergio Mastropietro, que manteve uma sociedade empresarial com Machado. Trata-se, portanto, de uma conexão comercial indireta entre um empresário associado à companhia aérea e uma pessoa envolvida em processos criminais nos Estados Unidos.

Até o momento, não foram apresentados documentos que indiquem que Machado seja proprietário do LV-JQW, que tenha participado do fretamento ou que a aeronave utilizada por Flávio tenha sido empregada no transporte de drogas. Também não foram identificados registros públicos que comprovem uma relação direta entre o senador brasileiro e Machado.

Por isso, a expressão “avião de narcotraficante”, utilizada em algumas abordagens sobre o episódio, não descreve com precisão a cadeia de propriedade e as relações empresariais conhecidas.

Quem contratou o avião?

É justamente nesse ponto que aparecem as principais divergências entre as reportagens publicadas nesta quarta-feira.

O La Nación, em reportagem assinada pelo jornalista Diego Cabot, afirma que a operação teria começado na noite de segunda-feira, quando alguém telefonou à Baires Fly de um número próximo ao entorno de Santiago Caputo, assessor político de Javier Milei.

Segundo a reconstrução do jornal, o interlocutor teria informado que um intermediário norte-americano entraria em contato para contratar uma viagem destinada a transportar uma família brasileira de Puerto Iguazú até a Flórida. O contato comercial teria ocorrido posteriormente.

O periódico não identificou quem fez a ligação, quem era o intermediário americano nem qual pessoa ou empresa assumiu os custos da viagem.

Já o Infobae, em reportagem sobre a participação das autoridades argentinas, afirma que a própria família Bolsonaro contratou um voo privado e que existia um plano de contingência para uma eventual derrota eleitoral. A publicação também sustenta que integrantes do governo Milei acompanharam a organização logística da saída.

As duas versões não são necessariamente excludentes: a família poderia ter solicitado a viagem por meio de terceiros. Entretanto, nenhuma das reportagens apresenta o contrato de fretamento ou o comprovante de pagamento que permitiria estabelecer quem foi o contratante formal e quem financiou a operação.

A ausência desses documentos impede concluir se o serviço foi contratado diretamente por Flávio, por integrantes de seu entorno político, por um intermediário americano ou por outra pessoa.

Qual foi a participação do governo argentino?

A presença de Santiago Caputo em Puerto Iguazú também passou a ser investigada pela imprensa argentina. Segundo o La Nación, o assessor de Milei esteve na província de Misiones na noite em que Flávio deixou o país.

O Infobae foi além e afirmou, com base em sua apuração, que o governo argentino coordenou e colaborou com a operação que possibilitou a saída do senador brasileiro. A reportagem relata participação de diferentes órgãos responsáveis por procedimentos migratórios, aeroportuários e de segurança.

Essa versão deve ser distinguida da confirmação oficial apresentada pela Direção Nacional de Migrações. O órgão informou que Flávio e seus familiares entraram na Argentina com documentos considerados válidos e que não havia impedimento legal registrado para seu ingresso no território argentino.

A declaração das autoridades migratórias confirma a regularidade documental da entrada segundo os controles argentinos, mas não resolve a discussão sobre os efeitos da decisão judicial brasileira que restringia a saída de Flávio do país.

Também não esclarece se houve tratamento excepcional, interferência política ou facilitação administrativa no processamento do voo. Esses pontos dependem de documentação e de esclarecimentos adicionais das autoridades envolvidas.

Por que a aeronave permaneceu em Puerto Iguazú?

O tempo de permanência do jato no aeroporto argentino é outro aspecto que apresenta explicações diferentes.

O La Nación relatou dificuldades para obter as autorizações necessárias à continuação da viagem e apontou a necessidade de uma sinalização das autoridades americanas. O jornal também reproduziu informações de que a Baires Fly não teria conseguido inicialmente autorização da Administração Nacional de Aviação Civil argentina (ANAC) para decolar.

O Infobae, por sua vez, informou que o voo havia sido inicialmente programado para a madrugada de terça-feira, mas que os planos foram modificados. Segundo o veículo, houve discussões sobre a logística da operação e a permanência prolongada da aeronave no aeroporto.

Os registros de rastreamento permitem confirmar que o avião chegou na noite de segunda-feira e só deixou Puerto Iguazú na madrugada de quarta. Não permitem, isoladamente, estabelecer por que permaneceu no local durante esse período.

Para esclarecer a questão, seria necessário obter os pedidos de autorização, eventuais alterações dos planos de voo e os registros administrativos da ANAC argentina.

O que ainda precisa ser esclarecido?

A identificação da empresa apontada como proprietária da aeronave e a reconstrução de seu deslocamento resolvem parte das dúvidas sobre a viagem. Permanece pendente a confirmação documental independente da titularidade registral, além das questões relacionadas à contratação e às responsabilidades pela operação.

Não há comprovação pública de que Flávio Bolsonaro tenha utilizado anteriormente o LV-JQW ou mantido relações pessoais ou comerciais com Luis Grande, Sergio Mastropietro ou Federico Machado. Também não foi apresentado documento que identifique o intermediário norte-americano mencionado pelo La Nación.

A confirmação de quem pagou pelo fretamento, quando o serviço foi contratado e quem solicitou o deslocamento da aeronave para Puerto Iguazú depende do acesso aos documentos comerciais e aeroportuários.

O que se sabe, até agora, é que Flávio e sua família viajaram em um avião associado a uma companhia argentina que já prestou serviços a integrantes do governo Milei e aparece em uma investigação financeira. Também há uma conexão empresarial indireta entre um intermediário associado à companhia e um empresário condenado nos Estados Unidos.

Esses elementos justificam o interesse público sobre a operação, mas não demonstram participação de Flávio nos casos investigados. A principal informação ainda desconhecida é quem efetivamente colocou o avião à disposição do senador e assumiu os custos de sua viagem aos Estados Unidos.

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