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Das ruas às redes, mobilização brasileira inspira reação internacional à extrema direita

Vitória de Lula leva estratégia de André Janones à França, Espanha e Argentina, enquanto protestos populares e movimentos juvenis ganham força em diferentes países

Gazeta do Paraná · · 12 min de leitura
Manifestação de apoio à reeleição de Lula em Brasília, na véspera do segundo turno. Estratégias de mobilização utilizadas na campanha brasileira passaram a inspirar movimentos políticos em outros países.
Manifestação de apoio à reeleição de Lula em Brasília, na véspera do segundo turno. Estratégias de mobilização utilizadas na campanha brasileira passaram a inspirar movimentos políticos em outros países. — Crédito: RAFA NEDDERMEYER/AGÊNCIA BRASIL

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A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) começou a produzir efeitos para além das fronteiras brasileiras. Na França, Espanha e Argentina, movimentos progressistas passaram a reproduzir estratégias de mobilização utilizadas na campanha presidencial, especialmente o modelo do “Exército do Lula”, canal de WhatsApp organizado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). A experiência também despertou interesse nos Estados Unidos e no México, em um cenário internacional marcado por manifestações populares, mobilização juvenil e disputas sobre direitos políticos e sociais.

A estratégia brasileira, que ganhou o nome de “janonismo”, transformou seguidores em participantes ativos da campanha por meio de tarefas de compartilhamento, divulgação de conteúdos e convocação de novos integrantes. O modelo ganhou projeção internacional depois que Lula reverteu a derrota sofrida no primeiro turno e venceu a eleição de domingo (25), resultado acompanhado por movimentos políticos que buscam ampliar sua capacidade de mobilização diante do crescimento da extrema direita.

A repercussão ocorre em um momento de intensa movimentação política em diferentes regiões do mundo. Enquanto grupos franceses, argentinos e espanhóis incorporam mecanismos utilizados na campanha brasileira, estudantes, trabalhadores e organizações civis protagonizam manifestações na Europa, na Ásia e na América Latina. As mobilizações refletem disputas locais, mas compõem um cenário internacional no qual a organização popular voltou a ocupar espaço nas ruas e nas plataformas digitais.

O modelo brasileiro

O “Exército do Lula” ultrapassou 10 milhões de seguidores no WhatsApp durante a reta final da eleição presidencial. Coordenado por Janones, o canal distribuía tarefas aos participantes, que recebiam orientações para compartilhar vídeos, divulgar mensagens, impulsionar publicações e convidar outras pessoas a participar da campanha.

O funcionamento permitia que cada apoiador atuasse como multiplicador dos conteúdos, utilizando seus próprios contatos e grupos de mensagens. A estratégia ampliou a circulação das publicações para além dos perfis oficiais dos partidos e envolveu pessoas que não participavam diretamente das estruturas tradicionais de militância.

O crescimento do canal também ocorreu em meio a disputas judiciais. A campanha de Flávio Bolsonaro questionou publicações e pediu sua suspensão ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Após decisões conflitantes, o funcionamento foi restabelecido mediante registro do canal na Justiça Eleitoral.

A mobilização digital foi acompanhada por manifestações presenciais, atos culturais e atividades organizadas por estudantes, movimentos sociais e artistas. Imagens das manifestações circularam intensamente nas redes, conectando a participação nas ruas à comunicação eleitoral.

A experiência chamou a atenção de movimentos progressistas estrangeiros pela capacidade de reunir milhões de seguidores em torno de tarefas comuns. O método passou a ser discutido como uma ferramenta de organização política que pode ser adaptada a diferentes disputas eleitorais.

França cria Soldados Insubmissos

Na França, apoiadores da França Insubmissa (LFI), movimento liderado por Jean-Luc Mélenchon, criaram o “Les Soldats Insoumis”, ou “Soldados Insubmissos”, inspirado diretamente no “Exército do Lula”.

A iniciativa surgiu após a eleição brasileira e reproduz mecanismos de mobilização utilizados por Janones, como o compartilhamento coordenado de publicações, a divulgação de hashtags e o convite a novos participantes. Segundo reportagem da Rádio França Internacional (RFI), o grupo já reunia mais de 15 mil integrantes no WhatsApp na terça-feira (27), além de manter presença no Telegram e em outras plataformas.

O interesse pela experiência brasileira também chegou aos dirigentes da França Insubmissa. O deputado Antoine Léaument publicou, em 27 de outubro, uma análise sobre os ensinamentos do “janonismo” e sua aplicação à estratégia política do movimento.

A organização digital integra a preparação para as eleições presidenciais francesas de 2027, quando o campo progressista buscará ampliar sua participação em uma disputa marcada pela presença de forças conservadoras e de extrema direita.

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A equipe de Mélenchon também mantém um canal oficial de WhatsApp, identificado como “L’équipe de Mélenchon officielle”. Em captura realizada nesta quarta-feira (28), o canal apresentava 96.342 seguidores e orientava os participantes a ativar as notificações para receber “missões” de campanha.

O canal integra a estrutura de comunicação da candidatura presidencial de Mélenchon e utiliza mecanismos de convocação semelhantes aos adotados durante a campanha brasileira.

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Espanha incorpora estratégia

Na Espanha, a repercussão da vitória brasileira chegou ao entorno político do primeiro-ministro Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Segundo a Folha de S.Paulo, Sánchez manifestou interesse no modelo de Janones e o convidou a colaborar com iniciativas políticas espanholas.

Entre os apoiadores do governo, o canal de WhatsApp “La Fuerza de la Gente” passou a ganhar visibilidade pela utilização de mecanismos de mobilização semelhantes aos empregados no Brasil. O grupo compartilha vídeos, mensagens políticas e orientações para ampliar a circulação dos conteúdos.

Em captura realizada nesta quarta-feira (28), o canal apresentava aproximadamente 36 mil seguidores. Uma publicação convocava os participantes a compartilhar o endereço com três amigos, associando a divulgação à disputa contra o Partido Popular (PP), principal força conservadora de oposição ao governo espanhol.

A mensagem utiliza uma fórmula direta de convocação: “Compartilhe com três amigos ou teremos quatro anos de governo do PP”. A estratégia transforma os próprios participantes em divulgadores do canal, ampliando seu alcance por meio das redes pessoais.

A circulação de símbolos da campanha brasileira também foi registrada na Espanha. A ex-prefeita de Barcelona Ada Colau reproduziu o gesto do “L”, associado à candidatura de Lula, durante uma manifestação política em Madri.

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Argentina cria exército

Na Argentina, a inspiração brasileira aparece diretamente no nome e na descrição de uma nova iniciativa. Criado em 26 de outubro, um dia depois da vitória de Lula, o canal “Ejército del Peronismo” informa que foi inspirado no “Exército do Lula”.

O grupo convoca apoiadores a defender suas ideias, multiplicar mensagens e organizar a mobilização política para as eleições presidenciais argentinas de 2027. A descrição também orienta os seguidores a ativar as notificações para receber “missões”, reproduzindo uma das principais características do modelo brasileiro.

Em captura realizada nesta quarta-feira (28), o canal reunia 49.269 seguidores. A iniciativa ganhou espaço entre apoiadores do peronismo em um momento de reorganização das forças políticas que fazem oposição ao presidente Javier Milei.

O governo argentino mantém uma relação próxima com Donald Trump e integra o campo da direita libertária internacional. A mobilização digital surge como uma das ferramentas utilizadas por setores do peronismo para ampliar sua comunicação e preparar a disputa presidencial de 2027.

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Interesse chega às Américas

Nos Estados Unidos, a experiência brasileira passou a ser discutida por criadores de conteúdo e ativistas interessados em novas formas de mobilização política. A repercussão ocorre às vésperas das eleições legislativas de novembro, que definirão a composição da Câmara dos Representantes e parte do Senado.

A criadora de conteúdo político Sylvia S., responsável pelo perfil @tono.latino, publicou um vídeo sobre a campanha brasileira, destacando o alcance do “Exército do Lula” e abordando iniciativas de organização por aplicativos de mensagens nos Estados Unidos.

O debate também chegou à imprensa americana, que passou a examinar as lições da vitória de Lula para a atuação dos democratas. A mobilização de eleitores, a comunicação direta e a capacidade de envolver apoiadores fora das estruturas partidárias aparecem entre os pontos observados.

No México, a presidente Claudia Sheinbaum também celebrou a vitória brasileira utilizando o gesto do “L”. Segundo a Folha de S.Paulo, a dirigente convidou Janones para uma visita de trabalho, ampliando a circulação internacional da estratégia associada à campanha de Lula.

Ruas em movimento

A reprodução internacional do modelo brasileiro ocorre em um cenário de mobilizações populares que atravessam diferentes regiões do mundo. Na Europa, manifestações recentes reuniram estudantes, trabalhadores e organizações civis em torno de reivindicações relacionadas ao custo de vida, à educação, à moradia e à atuação dos governos.

Na França, protestos contra a falta de recursos na educação e o aumento do custo de vida mobilizaram centenas de milhares de pessoas em outubro. As manifestações envolveram estudantes, professores e trabalhadores, ampliando a pressão sobre as autoridades em um período de preparação para a disputa presidencial de 2027.

Na Itália, atos populares questionaram políticas econômicas e condições de vida, enquanto Portugal registrou mobilizações relacionadas à crise habitacional. Na Bélgica, reivindicações sociais também levaram manifestantes às ruas. Na Espanha, a dificuldade de acesso à moradia e a defesa de direitos sociais continuam entre as pautas de mobilização.

Na Albânia, manifestações contra o governo envolveram estudantes e grupos de oposição, com registros de confrontos e denúncias de violência policial. Os protestos estão relacionados a questões ambientais, denúncias de corrupção e disputas políticas internas.

O conjunto dessas manifestações revela um período de intensa participação popular, no qual a juventude ocupa espaço crescente na organização de protestos e na circulação de informações pelas plataformas digitais.

Índia enfrenta repressão

Na Índia, manifestações lideradas por jovens também ganharam destaque em outubro. Organizações estudantis e grupos de oposição protestaram contra mudanças nas listas eleitorais e exigiram a saída do chefe da Comissão Eleitoral, em meio a denúncias de exclusão de milhões de nomes dos registros de eleitores.

Os atos foram convocados pelo movimento juvenil Cockroach Janta Party, com apoio de organizações estudantis. Em Nova Délhi, as autoridades impuseram restrições a reuniões públicas, enquanto manifestantes denunciaram detenções arbitrárias, uso excessivo da força e interrupções de acesso à internet.

Em comunicado divulgado em 19 de outubro, a Anistia Internacional e outras organizações de direitos humanos condenaram a repressão aos protestos e exigiram a libertação das pessoas detidas por exercer o direito de manifestação pacífica.

As mobilizações ocorrem durante o governo do primeiro-ministro Narendra Modi, do Bharatiya Janata Party (BJP), partido nacionalista hindu que ocupa posição central na política indiana desde 2014.

A contestação juvenil ampliou o debate sobre participação política, direitos democráticos e atuação das instituições eleitorais em um dos países mais populosos do mundo.

Venezuela exige eleições

Na América Latina, a Venezuela também registrou uma retomada das manifestações populares. Em 22 de outubro, milhares de pessoas participaram de protestos em Caracas e outras cidades para exigir eleições livres, a definição de um calendário eleitoral e a libertação de presos políticos.

Segundo a agência Reuters, foi a primeira manifestação nacional da oposição em quase dois anos. Os atos foram organizados pelo movimento Vente Venezuela, ligado à líder opositora María Corina Machado, que defende a realização de eleições presidenciais até julho de 2027.

A mobilização ocorreu em meio à transição política iniciada após a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, em janeiro. Desde então, a presidente interina Delcy Rodríguez mantém negociações com setores da oposição sobre reformas institucionais e mudanças no sistema eleitoral.

O governo venezuelano e os Estados Unidos afirmaram que haverá novas eleições, mas ainda não anunciaram uma data. A indefinição levou manifestantes às ruas, em meio a cobranças por garantias eleitorais e pela libertação de pessoas detidas por motivos políticos.

A organização Foro Penal informou que mais de 320 pessoas continuavam presas por razões políticas, apesar das libertações realizadas ao longo do ano. O governo contesta a classificação dessas detenções.

A retomada das manifestações acrescenta a Venezuela ao cenário latino-americano de disputas sobre participação política, funcionamento das instituições e direitos democráticos.

Juventude amplia protestos

A participação estudantil também se tornou um elemento central das mobilizações na Sérvia. Os protestos começaram depois do desabamento de uma cobertura na estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, episódio que provocou 16 mortes.

As manifestações, inicialmente organizadas por estudantes, ganharam apoio de professores, trabalhadores e outros setores da sociedade. Assembleias, marchas e atividades em diferentes cidades ampliaram as cobranças por responsabilização das autoridades e mudanças no funcionamento das instituições públicas.

O movimento sérvio tornou-se uma referência de organização estudantil, com capacidade de reunir participantes de diferentes gerações e setores sociais. As plataformas digitais contribuíram para a circulação de informações e para a convocação de manifestações presenciais.

Experiências semelhantes de participação juvenil aparecem em outros países, com estudantes envolvidos na organização de protestos, na produção de conteúdos e na articulação entre movimentos sociais. A presença dos jovens nas ruas e nas redes tornou-se uma característica importante das mobilizações políticas recentes.

Disputa pela mobilização

O interesse internacional pelo “janonismo” se desenvolve em um momento no qual a comunicação digital ocupa posição central nas disputas políticas. Nos últimos anos, movimentos conservadores e de extrema direita construíram redes de divulgação de conteúdos e mobilização de apoiadores por aplicativos de mensagens, plataformas de vídeos e perfis de influenciadores.

A campanha brasileira passou a ser observada como uma experiência de organização digital do campo progressista. A distribuição de tarefas, o compartilhamento descentralizado e a participação direta dos seguidores oferecem mecanismos para ampliar a circulação de mensagens e manter apoiadores mobilizados.

O crescimento dos canais estrangeiros demonstra a rapidez com que a estratégia começou a ser adaptada. Na França, o “Les Soldats Insoumis” surgiu com referência direta ao modelo brasileiro, enquanto a equipe de Mélenchon fortaleceu sua estrutura oficial de comunicação. Na Argentina, o “Ejército del Peronismo” assumiu expressamente a inspiração no canal de Janones. Na Espanha, apoiadores de Pedro Sánchez utilizam mecanismos semelhantes para ampliar sua presença digital.

O interesse também alcançou dirigentes e comunicadores de outros países, com manifestações públicas no México e discussões nos Estados Unidos. A circulação do gesto do “L” e a reprodução de estratégias de compartilhamento mostram que a repercussão brasileira envolve tanto símbolos políticos quanto métodos de organização.

Ao mesmo tempo, as manifestações na Europa, na Índia, na Venezuela e na Sérvia mostram diferentes formas de participação popular em um cenário de disputas eleitorais, reivindicações sociais e cobranças por direitos democráticos.

A experiência brasileira passou a integrar esse ambiente internacional de reorganização política. Sua reprodução em outros países ainda está em estágio inicial, mas a rapidez com que grupos estrangeiros adotaram o modelo indica que a mobilização construída durante a campanha de Lula continuará presente nas discussões sobre comunicação eleitoral e participação popular.

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