Democratas cobram explicações de Trump por fuga de Flávio e acusam governo de oferecer refúgio ao senador
Parlamentares americanos questionam concessão de vistos à família Bolsonaro e exigem esclarecimentos sobre possível participação da Casa Branca na saída do brasileiro; Trump defende entrada nos Estados Unidos
🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA
A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, começou a provocar reações no Congresso americano. Parlamentares do Partido Democrata cobram explicações do governo Donald Trump sobre a concessão de vistos ao senador e seus familiares e questionam se autoridades americanas participaram da operação que permitiu sua saída do Brasil, apesar das restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O deputado democrata Joaquin Castro, representante do Texas na Câmara dos Estados Unidos, afirmou que a derrota em uma eleição não constitui justificativa para a concessão de asilo político. Em manifestação pública, acusou o governo Trump de oferecer proteção a Flávio e exigiu esclarecimentos sobre o eventual envolvimento da administração americana na viagem.
"O governo Trump deve explicações ao Congresso sobre seu papel em ajudar Bolsonaro a fugir do Brasil", declarou Castro. A manifestação coloca em discussão não apenas a autorização de entrada do brasileiro, mas também a possibilidade de colaboração de autoridades americanas antes de sua chegada ao país.
A cobrança ocorre depois que Flávio deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina, na noite de terça-feira (27), e embarcou em uma aeronave particular que passou pelo Equador antes de seguir para os Estados Unidos. A viagem aconteceu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a entrega dos passaportes do senador e estabeleceu restrições à sua saída do território brasileiro.
Flávio não entregou os documentos dentro do prazo determinado pela Justiça. A família chegou a Miami nesta quarta-feira (28), em meio a questionamentos sobre as condições da viagem e a atuação dos governos argentino e americano.
Democratas questionam Marco Rubio
A reação também alcançou os integrantes democratas do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes. O grupo criticou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, pela concessão de vistos a Flávio Bolsonaro e seus familiares, contrastando o tratamento dispensado ao brasileiro com a política migratória adotada pela administração Trump.
Os parlamentares questionaram a disposição do governo de receber um aliado político estrangeiro enquanto mantém restrições à entrada de pessoas que fogem de conflitos armados e crises humanitárias, especialmente em países como Sudão e Haiti. Na avaliação dos democratas, a concessão dos vistos evidencia uma diferença de tratamento baseada em afinidades políticas.
Em manifestação pública, integrantes do comitê acusaram Rubio de estender o "tapete vermelho" à família Bolsonaro. A crítica amplia a dimensão política do episódio, ao relacionar a chegada do senador brasileiro às decisões do Departamento de Estado e à condução da política externa americana.
O Departamento de Estado confirmou a emissão dos vistos, mas a autorização de entrada não significa, por si só, que Flávio tenha recebido asilo político. O reconhecimento dessa condição depende de um procedimento específico, distinto da concessão de visto.
Até o momento, não há confirmação de abertura de uma investigação formal no Congresso americano sobre a operação. As manifestações democratas, entretanto, incluem pedidos públicos de explicações e questionamentos direcionados a integrantes do governo federal.
Trump defende entrada de Flávio
Do lado republicano, a principal manifestação partiu do próprio presidente Donald Trump. Questionado por jornalistas nesta quarta-feira sobre a possibilidade de conceder asilo político a Flávio Bolsonaro, o americano respondeu que aprovaria o pedido e elogiou a família do senador.
"Bem, eu aprovaria. Acho que são pessoas legais", declarou Trump, durante conversa com repórteres na Base Conjunta de Andrews, nos Estados Unidos.
O presidente americano também voltou a questionar o resultado da eleição brasileira, embora não tenha apresentado provas de irregularidades. "A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível", afirmou. Trump disse conhecer Lula, Flávio e Jair Bolsonaro, mas sustentou que não tomou partido na disputa eleitoral.
A declaração representa um apoio público à permanência do senador brasileiro nos Estados Unidos. Entretanto, não esclarece se a Casa Branca participou previamente da organização de sua saída do Brasil. Até agora, não foram identificadas manifestações específicas de deputados ou senadores republicanos assumindo publicamente a defesa da operação.
Suspeitas de participação americana
As dúvidas sobre o envolvimento do governo Trump ganharam força após reportagem da Folha de S.Paulo apontar que o secretário de Estado Marco Rubio teria desempenhado um papel ativo na operação. A informação foi atribuída a uma pessoa ligada à administração americana e a outra próxima de Flávio Bolsonaro.
A mesma reportagem registrou divergências dentro do governo americano sobre o apoio ao senador brasileiro. Outra fonte da administração indicou que não havia consenso sobre a assistência prestada à família Bolsonaro.
A concessão dos vistos, por sua vez, foi confirmada por autoridades americanas. Segundo a Reuters, Flávio e seus familiares desembarcaram em Miami nesta quarta-feira, depois de passarem pela Argentina e pelo Equador. O senador chegou aos Estados Unidos acompanhado da esposa e das duas filhas.
O episódio ocorre em meio às investigações conduzidas pelo STF contra Flávio Bolsonaro, incluindo apurações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e suas relações com pessoas investigadas em outros procedimentos criminais. O senador nega irregularidades.
Relações com o Brasil já eram alvo de críticas
A reação democrata ocorre em um contexto de questionamentos anteriores à política do governo Trump em relação ao Brasil. Em 7 de outubro, os deputados Gregory Meeks e Sydney Kamlager-Dove lideraram um grupo de 12 congressistas que cobrou explicações do Departamento de Estado sobre a revogação do visto diplomático da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Na ocasião, os parlamentares criticaram medidas que consideraram tentativas de interferência na eleição brasileira, incluindo encontros de autoridades americanas com integrantes do bolsonarismo, sanções contra Alexandre de Moraes e declarações que colocavam em dúvida a integridade do processo eleitoral.
O grupo advertiu que o agravamento das tensões diplomáticas poderia prejudicar os interesses americanos e as relações com a maior economia da América do Sul.
A chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos acrescenta um novo episódio a esse histórico. Para os democratas, o governo Trump precisa esclarecer se sua atuação se limitou à autorização migratória ou se houve participação de autoridades americanas na saída do senador brasileiro.
Até o momento, a concessão dos vistos e a chegada de Flávio aos Estados Unidos estão confirmadas. As suspeitas de auxílio governamental à fuga, entretanto, permanecem sem conclusão oficial, enquanto parlamentares democratas pressionam a administração Trump a prestar esclarecimentos ao Congresso.
Matérias relacionadas
Deputada argentina denuncia fuga de Flávio Bolsonaro à Justiça e amplia pressão sobre governo Milei
Das ruas às redes, mobilização brasileira inspira reação internacional à extrema direita
França aprova lei que pode cobrar até € 10 mil de envolvidos em vandalismo
Pelo menos 30 pessoas morrem na Espanha após colisão entre dois trens
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.