🗳️ Eleições 2026: confira o resultado final da apuração Acompanhar →
Gcast
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo

Da derrota à fuga: os passos de Flávio Bolsonaro e as dúvidas sobre quando o plano começou

Entre a vitória de Lula e a chegada aos Estados Unidos, senador visitou o pai, reuniu aliados e negou que deixaria o país; avião já aguardava na fronteira enquanto versões contraditórias circulavam sobre seu paradeiro

Gazeta do Paraná · · 14 min de leitura
Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro — Crédito: REUTERS/MATEUS BONOMI/ARQUIVO

🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA

Quando Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Miami, na manhã desta quarta-feira (28), haviam se passado menos de três dias desde a confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial. Nesse intervalo, o senador participou de reuniões com aliados, visitou o pai, recebeu uma intimação da Polícia Federal e divulgou um vídeo afirmando que nunca havia pensado em deixar o Brasil. Na noite seguinte, atravessou a fronteira com a Argentina e embarcou em um jato particular rumo aos Estados Unidos, descumprindo uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).

A reconstrução dos compromissos de Flávio, a partir de registros de deslocamento, informações oficiais e reportagens publicadas no Brasil e na Argentina, permite identificar momentos importantes da operação. O principal deles ocorreu na noite de segunda-feira (26), quando um avião argentino deixou Buenos Aires em direção a Puerto Iguazú, na fronteira com o Paraná, poucas horas depois de o senador negar publicamente qualquer intenção de sair do país.

Mas uma pergunta permanece sem resposta: quando Flávio decidiu fugir? Os acontecimentos conhecidos permitem levantar hipóteses sobre o planejamento, inclusive a possibilidade de uma mudança de rota depois que um piloto teria se recusado a transportá-lo. Ainda não há, entretanto, documentação pública suficiente para determinar quem organizou a viagem e em que momento o plano começou a ser executado.

Domingo: a derrota e a decisão do STF

Na tarde de domingo (25), Flávio chegou à residência de Vicente Santini, um dos coordenadores de sua campanha, no Lago Sul, em Brasília, para acompanhar a apuração do segundo turno. Estava acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, e de aliados como Tarcísio de Freitas, Ricardo Nunes, Nikolas Ferreira e Pablo Marçal.

A reunião havia sido organizada em clima de expectativa eleitoral, com um churrasco para os convidados. Conforme a reconstrução publicada pela Folha de S.Paulo, o ambiente mudou quando a projeção de vitória de Lula foi anunciada. A música foi interrompida, houve uma oração e parte dos presentes deixou a residência.

Por volta das 22h40, Flávio fez um pronunciamento no qual questionou o resultado das urnas e anunciou que buscaria medidas judiciais contra a eleição. A manifestação ocorreu depois da confirmação da derrota, em um momento em que integrantes da campanha ainda discutiam como reagir politicamente ao resultado.

Na mesma noite, o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes do senador, incluindo o documento italiano, e proibiu sua saída do território brasileiro. A decisão foi tomada no âmbito de investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre suspeitas de irregularidades financeiras. Flávio nega envolvimento nos crimes investigados.

A ordem judicial passou a ser um elemento central dos acontecimentos seguintes. Não se sabe se a possibilidade de deixar o Brasil já havia sido discutida antes da votação ou se surgiu depois da derrota e da decisão do STF.

Segunda-feira: visita ao pai e reunião com aliados

Na manhã de segunda-feira (26), Flávio deixou sua residência e seguiu para o condomínio onde Jair Bolsonaro cumpria prisão domiciliar, no Jardim Botânico, em Brasília. A visita ocorreu por volta das 11h, e não há informações públicas sobre o conteúdo da conversa entre pai e filho.

Na saída, segundo relato do próprio senador, agentes da Polícia Federal o intimaram a cumprir a determinação de Moraes. O prazo para a entrega dos passaportes terminaria às 11h de terça-feira.

Depois do encontro com o pai, Flávio participou de uma reunião com integrantes da campanha no escritório do advogado Otto Medeiros, no Lago Sul. Estiveram presentes aliados como Tarcísio de Freitas, Rogério Marinho, Guilherme Derrite e Vicente Santini, além de integrantes da equipe jurídica.

Segundo a Folha de S.Paulo, o grupo discutiu a reação à derrota e aconselhou o senador a abandonar a proposta de pedir a anulação do resultado eleitoral. A orientação era concentrar eventuais questionamentos em uma ação na Justiça Eleitoral.

A CNN Brasil também apurou que Flávio foi aconselhado a permanecer no país. Integrantes de seu entorno político avaliavam que uma eventual prisão logo após a eleição teria repercussão negativa para o governo Lula. O relato indica que a possibilidade de saída do Brasil já era discutida entre interlocutores do senador, embora não esclareça se algum deles conhecia um plano de viagem.

O vídeo e a visita de Wassef

Por volta das 16h40 de segunda-feira, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que cumpriria a ordem judicial. Na gravação, declarou que nunca havia pensado em deixar o Brasil, em resposta às notícias sobre a determinação de entrega dos passaportes.

A manifestação ocorreu quando ainda não havia informação pública confirmada sobre o fretamento de uma aeronave. Horas depois, entretanto, o avião que seria utilizado pelo senador e sua família já estava a caminho da fronteira argentina.

Pouco depois da publicação, às 17h20, o advogado Frederick Wassef chegou à residência de Flávio, onde permaneceu por aproximadamente 40 minutos. Questionado pela Folha, Wassef confirmou a visita, mas afirmou ter tratado de assuntos jurídicos e negou participação no planejamento da viagem.

O advogado declarou posteriormente que havia sido surpreendido pela saída do senador do país. O conteúdo da conversa permanece protegido pelo sigilo profissional, e não foram apresentados elementos que comprovem a participação de Wassef na organização da fuga.

A sequência chama atenção pela proximidade dos horários, mas não permite concluir que a visita tenha relação com o deslocamento internacional.

O comboio que deixou a residência

Por volta das 20h de segunda-feira, quatro veículos deixaram o condomínio onde Flávio mora, em Brasília. Segundo a Folha de S.Paulo, Fernanda Bolsonaro estava em um deles, acompanhada de uma pessoa que poderia ser uma das filhas do casal. A reportagem não conseguiu confirmar se o senador também estava no comboio.

O registro ganhou importância depois que as autoridades argentinas informaram que Flávio e sua família só entraram no país às 22h50 de terça-feira. Entre a saída dos veículos e a travessia da fronteira, transcorreram 26 horas e 50 minutos.

O intervalo é compatível com uma viagem rodoviária entre Brasília e Foz do Iguaçu, percurso de aproximadamente 1.600 quilômetros que pode exigir mais de 20 horas de deslocamento, dependendo das condições da estrada e das paradas realizadas.

Caso o comboio tenha marcado o início da viagem, a família poderia ter passado praticamente toda a terça-feira na estrada, enquanto aliados e jornalistas tentavam descobrir o paradeiro de Flávio. A hipótese, porém, não está comprovada. Não há registro público demonstrando que aqueles quatro veículos seguiram até o Paraná ou que o senador estivesse em algum deles.

Também é possível que a família tenha deixado a residência para outro endereço, realizado parte do percurso em veículo diferente ou utilizado uma combinação de transporte terrestre e aéreo. A movimentação no condomínio, isoladamente, não permite reconstituir o itinerário.

Um piloto teria recusado o voo

Uma informação divulgada nesta quarta-feira pela imprensa argentina acrescentou outra possibilidade à investigação sobre a rota escolhida.

Em entrevista à rádio Cadena 3, a jornalista Micaela Ferraz, do CVI Canal 5 de Puerto Iguazú, relatou que Flávio teria planejado realizar um primeiro deslocamento em avião particular, partindo de Brasília. Segundo informações extraoficiais obtidas por ela com jornalistas brasileiros, o piloto escalado para o transporte teria se recusado a realizar o voo.

A recusa, conforme essa versão, teria obrigado os responsáveis pela operação a reorganizar o trajeto e adotar uma alternativa terrestre até a fronteira argentina. A jornalista descreveu a mudança como um plano B, executado antes do embarque no avião que aguardava em Puerto Iguazú.

A informação ainda não foi confirmada por registros aeroportuários ou por manifestação do suposto piloto. Também não foram identificados a aeronave inicialmente prevista, o responsável pela contratação ou o horário em que a recusa teria ocorrido.

Se confirmada, a versão poderá ajudar a explicar por que a família realizou a travessia pela fronteira terrestre. Também poderá estabelecer em que momento a operação foi alterada, uma informação decisiva para determinar quando os preparativos começaram.

Outro avião entrou na investigação

Uma segunda pista, divulgada pelo jornalista Humberto Trezzi, da GaúchaZH, envolve um jato que deixou Brasília na madrugada de terça-feira.

Segundo a reportagem, a Polícia Federal investiga se Flávio utilizou um Cessna 560XL Citation Excel, de matrícula PR-AAA, que decolou da capital federal às 5h05 de terça-feira e pousou em San Fernando, nas proximidades de Buenos Aires, às 8h40.

A aeronave estaria abrigada anteriormente em um hangar ligado ao advogado Willer Tomaz, investigado em um dos procedimentos que também envolvem Flávio. A coincidência levou os investigadores a examinar a possibilidade de o senador ter utilizado esse avião em parte do deslocamento.

A hipótese, entretanto, apresenta uma dificuldade importante: o registro oficial argentino situa a entrada de Flávio no país pela fronteira terrestre de Puerto Iguazú, somente às 22h50 de terça-feira. Não há confirmação de que ele estivesse no Cessna nem de que tenha realizado uma viagem entre Brasília e Buenos Aires antes de retornar à região da fronteira.

A existência do voo e sua possível relação com pessoas investigadas constituem pistas para a Polícia Federal, não prova de que o senador tenha embarcado naquela aeronave.

O jato já aguardava na fronteira

Enquanto a movimentação terrestre e a eventual utilização de outros aviões ainda são investigadas, o deslocamento da aeronave que efetivamente levou Flávio aos Estados Unidos pode ser acompanhado por registros de rastreamento.

O Gulfstream G400 de matrícula argentina LV-JQW, associado à empresa Baires Fly S.A., deixou Buenos Aires às 22h14 de segunda-feira e chegou a Puerto Iguazú por volta das 23h45. Permaneceu no aeroporto durante toda a terça-feira, até decolar na madrugada de quarta-feira.

O voo de Buenos Aires para a fronteira começou aproximadamente cinco horas e meia depois da publicação do vídeo em que Flávio afirmava que não pretendia deixar o Brasil. Naquele momento, a família ainda não havia ingressado oficialmente na Argentina.

O jornal argentino La Nación relatou que a contratação do fretamento teria envolvido um contato de alguém próximo ao entorno de Santiago Caputo, assessor político do presidente Javier Milei, seguido pela atuação de um intermediário norte-americano. A reportagem não identificou quem realizou o pagamento nem apresentou o contrato da viagem.

O posicionamento antecipado do jato demonstra que havia uma operação aérea organizada antes da travessia da fronteira. Não permite, por si só, determinar quando Flávio tomou a decisão de utilizá-lo ou se o fretamento foi contratado antes ou depois da derrota eleitoral.

Terça-feira: informações falsas e paradeiro desconhecido

Na madrugada de terça-feira (27), o site argentino Infobae publicou a informação de que Flávio estaria preparando uma saída do Brasil pela fronteira com a Argentina. A notícia desencadeou uma série de consultas às autoridades migratórias e aos aliados do senador.

Às 7h44, Rogério Marinho negou ao Metrópoles que Flávio tivesse deixado o país. Horas depois, às 11h, terminou o prazo para a entrega dos passaportes à Polícia Federal, sem que a determinação fosse cumprida. A corporação cancelou os passaportes comum e diplomático do senador.

Ao longo da tarde, começaram a circular versões de que Flávio já havia chegado aos Estados Unidos. Fontes ligadas à família e ao governo de Donald Trump afirmaram à imprensa que o senador estava em território americano, enquanto outras informações apontavam que ele ainda se encontrava no Brasil.

A CNN Brasil reconheceu posteriormente que divulgou informações repassadas por interlocutores que foram desmentidas pelos registros oficiais argentinos. Segundo a emissora, às 17h39, fontes ligadas ao governo americano afirmavam que Flávio já havia desembarcado nos Estados Unidos. Pouco antes das 22h, aliados chegaram a informar que ele teria se encontrado com o irmão Eduardo Bolsonaro na Flórida.

Na realidade, o senador ainda não havia atravessado a fronteira brasileira. A entrada na Argentina ocorreria somente às 22h50.

A circulação de versões incorretas durante o período em que a Polícia Federal tentava localizar Flávio levantou suspeitas de uma possível estratégia de desinformação. A CNN apontou essa possibilidade em sua cobertura, mas não há comprovação pública de quem teria coordenado a divulgação dos relatos ou de que todos os interlocutores soubessem que as informações eram falsas.

A van, a escolta e o embarque

Às 22h50 de terça-feira, Flávio, Fernanda e as duas filhas atravessaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú. O horário foi confirmado pela Direção Nacional de Migrações da Argentina, que informou que os quatro apresentaram documentação válida para entrar no país.

Pouco depois, uma van cinza, com placas brasileiras e identificação da empresa Iguaçu Dallas Travel, de Foz do Iguaçu, foi filmada no aeroporto argentino. Imagens exibidas pelos canais Todo Noticias e C5N mostram o veículo circulando sob escolta de uma viatura da Polícia de Segurança Aeroportuária.

A van entrou em uma área de acesso restrito e foi acompanhada por jornalistas, que tentaram identificar seus ocupantes. Na saída, o motorista foi abordado pela imprensa, mas não esclareceu se havia transportado a família Bolsonaro. As imagens mostram a movimentação do veículo, embora não permitam identificar com segurança todos os passageiros.

A coincidência de horários chama atenção. Segundo a imigração argentina, Flávio e seus familiares embarcaram no avião às 23h30. A movimentação da van ocorreu no mesmo período, pouco antes da decolagem do jato.

O UOL informou, com base em fontes argentinas, que a família realizou o percurso entre Brasília e Foz do Iguaçu por terra. Essa versão é compatível com o intervalo entre a saída do comboio na noite de segunda-feira e a travessia da fronteira na terça, mas não esclarece se Flávio permaneceu durante todo o trajeto nos mesmos veículos.

A presença de Santiago Caputo, estrategista político de Javier Milei, também foi relatada pela imprensa argentina. O UOL informou que ele teria recebido a família no aeroporto. A extensão de sua participação na organização da viagem ainda depende de esclarecimentos.

Quarta-feira: chegada aos Estados Unidos

Às 00h21 de quarta-feira (28), o Gulfstream G400 deixou Puerto Iguazú com destino a Guayaquil, no Equador. Depois de uma escala, a aeronave seguiu para Miami, onde Flávio desembarcou com a família na manhã do mesmo dia.

O pouso ocorreu aproximadamente 42 horas depois do vídeo em que o senador afirmara que nunca havia pensado em deixar o Brasil. Entre a derrota eleitoral e a chegada aos Estados Unidos, Flávio passou de candidato derrotado a alvo de uma ordem judicial descumprida, enquanto seus aliados apresentavam informações divergentes sobre seu paradeiro.

A confirmação oficial da passagem pela Argentina também esclareceu parte das dúvidas que haviam surgido durante a terça-feira. O senador permaneceu em território brasileiro por quase todo o dia, mesmo quando interlocutores afirmavam que ele já estava nos Estados Unidos.

Quando o plano começou?

A reconstrução dos acontecimentos permite estabelecer alguns marcos, mas não uma resposta definitiva sobre o início do planejamento.

Na noite de domingo, Flávio já estava proibido judicialmente de deixar o Brasil. Na segunda-feira, discutiu a situação com aliados, recebeu orientações para permanecer no país e afirmou publicamente que entregaria os passaportes. Poucas horas depois, o avião que seria utilizado na viagem partiu de Buenos Aires para Puerto Iguazú.

Também na segunda-feira, um comboio deixou sua residência com Fernanda Bolsonaro entre os ocupantes. O intervalo de quase 27 horas até a travessia da fronteira é compatível com uma viagem rodoviária, embora não comprove que aquele tenha sido o percurso efetivamente realizado.

As informações sobre a suposta recusa de um piloto em Brasília e a investigação de outro jato que decolou da capital na madrugada de terça-feira acrescentam possibilidades à reconstrução. Por enquanto, nenhuma delas demonstra que Flávio tenha embarcado em outra aeronave antes de chegar à fronteira argentina.

O deslocamento antecipado do Gulfstream para Puerto Iguazú é o indício material mais claro de que havia uma operação aérea organizada ainda na segunda-feira. Para estabelecer quando o plano começou, será necessário identificar a data da contratação, quem solicitou o posicionamento do avião e quando foram iniciados os contatos para viabilizar a entrada da família nos Estados Unidos.

A cronologia também deixa uma pergunta sobre a saída de Brasília: Flávio e seus familiares passaram quase 27 horas viajando por estrada ou fizeram paradas e mudanças de transporte durante o percurso? A resposta poderá ajudar a determinar se a rota terrestre foi planejada desde o início ou adotada depois de uma tentativa frustrada de saída por avião.

Por enquanto, o que os registros demonstram é que, enquanto a imprensa e os próprios aliados apresentavam versões conflitantes sobre seu paradeiro, Flávio Bolsonaro ainda estava no Brasil e havia um jato particular aguardando na fronteira argentina para transportá-lo aos Estados Unidos.

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.