🗳️ Eleições 2026: confira o resultado final da apuração Acompanhar →
Result
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo
Público › Política

Flávio Bolsonaro utiliza brasão antigo com Brasil escrito com Z em pronunciamento

Símbolo com a inscrição “Estados Unidos do Brazil” aparece na carta em que senador se declara presidente eleito; grafia histórica coincide com a utilizada atualmente em inglês, enquanto Flávio permanece nos Estados Unidos

Redação · · 7 min de leitura
Brasão de Armas dos Estados Unidos do Brazil, de 1889, com a grafia original do nome do país, utilizando a letra Z.
Brasão de Armas dos Estados Unidos do Brazil, de 1889, com a grafia original do nome do país, utilizando a letra Z. — Crédito: Arthur Sauer

🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA

O senador Flávio Bolsonaro (PL) utilizou uma versão histórica do brasão nacional, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, no pronunciamento em que se autodeclarou o verdadeiro presidente eleito do país, divulgado nesta quarta-feira (28), após sua chegada aos Estados Unidos. O símbolo, adotado na Proclamação da República, em 1889, traz uma denominação que deixou de ser oficial há quase seis décadas e apresenta a palavra Brasil escrita com Z, grafia que atualmente corresponde à utilizada na língua inglesa.

A escolha chama a atenção pelo contexto político da manifestação, na qual o senador contesta o resultado das eleições presidenciais, agradece ao presidente norte-americano Donald Trump e anuncia que pretende liderar a oposição brasileira a partir do exterior. Na versão original do documento, o brasão aparece com a inscrição histórica no lugar de “República Federativa do Brasil”, denominação oficial do país.

Poucos minutos depois da divulgação, uma segunda versão da carta foi encaminhada com o brasão atualizado, conforme revelou a coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles. Não houve explicação pública identificada sobre o motivo da utilização inicial do símbolo histórico.

A alteração aparece justamente no documento em que Flávio reivindica para si a Presidência da República, apesar da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, realizado no domingo (25). A carta, divulgada pelo empresário e aliado Paulo Figueiredo, também apresenta acusações de fraude eleitoral, sem provas, e críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Um brasão de 1889

A história do símbolo utilizado por Flávio remonta ao nascimento da República brasileira. As Armas Nacionais foram instituídas pelo Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889, apenas quatro dias depois da deposição de Dom Pedro II e do fim da monarquia. O desenho é atribuído ao engenheiro Artur Zauer, a partir de concepção artística de Luís Gruder.

O brasão reúne elementos que representam a identidade nacional e a formação política do país. No centro, um escudo azul apresenta o Cruzeiro do Sul, cercado por estrelas que representam as unidades da Federação. A composição inclui uma estrela maior, uma espada e ramos de café e fumo, produtos de grande importância econômica na época da Proclamação da República.

Na faixa azul situada na parte inferior, a inscrição original identificava o país como “Estados Unidos do Brazil”, acompanhada da data de 15 de novembro de 1889. A denominação refletia a organização federativa adotada após a queda da monarquia, quando as antigas províncias imperiais foram transformadas em estados dotados de autonomia política.

A expressão também revelava a influência do modelo republicano norte-americano sobre os formuladores da nova ordem brasileira. A Constituição de 1891 consolidou a denominação República dos Estados Unidos do Brasil e estabeleceu uma estrutura federativa inspirada, em parte, na experiência dos Estados Unidos da América.

A aproximação, entretanto, não significava que o Brasil estivesse subordinado aos Estados Unidos ou que integrasse alguma espécie de união política com o país norte-americano. A palavra “unidos” fazia referência à associação dos estados brasileiros em uma federação, conceito que também está presente na denominação atual.

Quando o Brasil mudou de nome

A expressão Estados Unidos do Brasil permaneceu na identificação oficial do país durante boa parte do século XX, atravessando diferentes regimes políticos, incluindo a Primeira República, a Era Vargas e o período democrático iniciado em 1946.

A mudança ocorreu com a Constituição de 1967, promulgada durante a ditadura militar, que adotou a denominação República Federativa do Brasil. No ano seguinte, a legislação determinou a adaptação dos símbolos nacionais, substituindo a antiga inscrição do brasão pelo nome atual.

A Lei nº 5.443, de 28 de maio de 1968, estabeleceu expressamente a substituição da legenda “Estados Unidos do Brasil” por “República Federativa do Brasil”. Posteriormente, a Lei nº 5.700, de 1971, regulamentou a forma e a apresentação dos símbolos nacionais, incluindo as Armas Nacionais.

A Constituição de 1988 manteve a denominação República Federativa do Brasil, associando-a à união indissolúvel dos estados, municípios e Distrito Federal e ao princípio do Estado Democrático de Direito.

Portanto, o brasão apresentado inicialmente na carta de Flávio não corresponde a uma criação inédita ou a um símbolo estrangeiro. Trata-se de uma versão histórica de um emblema brasileiro, mas que não corresponde ao modelo oficial atualmente previsto na legislação.

Brasil com Z e a referência aos Estados Unidos

Outro detalhe chama a atenção no brasão utilizado pelo senador: a palavra “Brazil”, escrita com Z. Embora essa fosse uma grafia empregada no português brasileiro no século XIX, atualmente ela corresponde à forma como o nome do país é escrito em inglês. A coincidência ganha relevância porque Flávio divulgou o pronunciamento após deixar o Brasil e seguir para os Estados Unidos, onde pretende comandar a oposição ao governo Lula.

Assim, o documento reúne duas referências que remetem ao país norte-americano: a antiga denominação “Estados Unidos do Brazil”, historicamente influenciada pelo modelo federativo dos Estados Unidos, e a grafia “Brazil”, utilizada atualmente na língua inglesa.

O uso da inscrição antiga ganha uma dimensão adicional pelo conteúdo do próprio pronunciamento. Logo nos primeiros parágrafos, o senador agradece ao presidente Donald Trump, ao presidente argentino Javier Milei e ao povo norte-americano pelo acolhimento recebido.

Flávio descreve os Estados Unidos como um país de liberdades e afirma que pretende exercer de lá a liderança da oposição ao governo brasileiro. Também solicita atenção da comunidade internacional para suas acusações contra as instituições nacionais e compara sua saída do país à trajetória de personagens históricos que atuaram politicamente no exílio.

A relação histórica entre as duas denominações é real. Os republicanos brasileiros do final do século XIX buscaram referências no federalismo norte-americano, e a adoção do nome Estados Unidos do Brasil integrou esse processo de reorganização institucional.

Entretanto, não há elementos que permitam afirmar que Flávio tenha escolhido deliberadamente o brasão para homenagear os Estados Unidos, sinalizar alinhamento político com Trump ou defender uma mudança no nome oficial do Brasil. A hipótese de uma mensagem simbólica precisa ser diferenciada de uma intenção comprovada, especialmente porque o documento foi posteriormente corrigido.

Erro ou mensagem política?

A substituição do brasão abre duas possibilidades de interpretação. A primeira é a utilização equivocada de uma imagem histórica durante a elaboração da carta, hipótese compatível com o envio de uma versão corrigida poucos minutos depois da publicação original.

A segunda é a possibilidade de uma escolha simbólica, associada à tentativa de construir uma narrativa política alternativa ao resultado das urnas. Nesse caso, a recuperação de um emblema da Primeira República poderia ser interpretada como referência a outro período da história institucional brasileira.

Nenhuma dessas interpretações, contudo, foi confirmada pelos responsáveis pela elaboração do pronunciamento. Também não há indicação de que o senador tenha proposto formalmente restaurar a antiga denominação nacional.

O episódio ocorre em um momento de divergência entre Flávio e integrantes de seu próprio campo político. Enquanto o senador se apresenta como presidente eleito e contesta a legitimidade da votação, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e outras lideranças que apoiaram sua candidatura já reconheceram a vitória de Lula.

A própria direção do PL, segundo informações publicadas pela Jovem Pan, não tinha conhecimento prévio da carta e afirmou não ter participado de sua divulgação.

A utilização de um brasão histórico, seguida de sua correção, acrescenta um elemento à controvérsia em torno do pronunciamento. Embora não altere a validade do resultado eleitoral nem represente uma mudança institucional, o episódio chama a atenção para o emprego de símbolos oficiais em uma manifestação na qual o candidato derrotado reivindica uma autoridade presidencial que não lhe foi conferida pela apuração das urnas.

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.