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Flávio se declara presidente eleito, mas próprio partido e aliados reconhecem vitória de Lula

Em pronunciamento divulgado dos Estados Unidos, senador contesta resultado das urnas sem apresentar provas; Valdemar Costa Neto, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e até o vice da chapa já reconheceram a derrota

Redação · · 7 min de leitura
Derrotado no segundo turno das eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro se declarou presidente eleito em carta divulgada por aliados nesta quarta-feira (28), após chegar aos Estados Unidos. A declaração foi retirada de uma versão posterior do documento.
Derrotado no segundo turno das eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro se declarou presidente eleito em carta divulgada por aliados nesta quarta-feira (28), após chegar aos Estados Unidos. A declaração foi retirada de uma versão posterior do documento. — Crédito: Ricardo Arduengo/AFP

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O senador Flávio Bolsonaro (PL) divulgou nesta quarta-feira (28) um pronunciamento no qual se apresenta como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). A declaração, feita após sua chegada aos Estados Unidos, contrasta com o posicionamento de integrantes de seu próprio partido e de lideranças que apoiaram sua candidatura, entre elas o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e Ronaldo Caiado (PSD).

O documento foi divulgado por intermédio do empresário Paulo Figueiredo e dirigido ao povo brasileiro e à comunidade internacional. Na manifestação, Flávio questiona a legitimidade do processo eleitoral, acusa a Justiça Eleitoral de fraude, sem apresentar provas, e anuncia que pretende comandar a oposição ao governo Lula a partir do exterior. O senador também promete apresentar uma estratégia de mobilização política nos próximos pronunciamentos.

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, afirma Flávio na abertura do documento. Ao longo do texto, ele procura justificar sua permanência fora do país, agradece ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao presidente da Argentina, Javier Milei, e faz referências a episódios históricos de exílio político.

A autoproclamação ocorre três dias depois do segundo turno e dois dias após o próprio PL reconhecer oficialmente o resultado anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A manifestação da direção partidária, assinada por Valdemar Costa Neto na segunda-feira (26), estabelece uma diferença entre o posicionamento institucional da legenda e o discurso adotado por seu candidato à Presidência.

Próprio PL reconheceu derrota

Na nota divulgada após a eleição, Valdemar afirmou expressamente que o partido reconhecia o resultado presidencial proclamado pelo TSE. A manifestação ocorreu enquanto aliados de Flávio discutiam os próximos passos da oposição e as consequências políticas da derrota eleitoral.

“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)”, declarou o dirigente. A posição tem peso porque Valdemar preside a legenda pela qual Flávio disputou a Presidência e que constitui uma das principais forças de sustentação política do bolsonarismo no Congresso Nacional.

Outro reconhecimento partiu de Alfredo Gaspar (PL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio. Em pronunciamento na terça-feira (27), Gaspar reconheceu a derrota e destacou a votação recebida pela candidatura. Assim, enquanto o cabeça de chapa reivindica para si a condição de presidente eleito, seu próprio companheiro de disputa já tratou o resultado como encerrado.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também reconheceu o resultado eleitoral. Em manifestação divulgada na terça-feira, ele criticou aspectos do processo político e a atuação do Judiciário, mas defendeu que a oposição passe a fiscalizar o governo Lula durante os próximos quatro anos.

A posição de Tarcísio é especialmente relevante por sua proximidade política com a família Bolsonaro e pelo papel desempenhado na articulação do campo conservador. Ao reconhecer o resultado, o governador se distancia da tese apresentada por Flávio de que a eleição teria produzido um vencedor diferente daquele proclamado pela Justiça Eleitoral.

Caiado e governadores também aceitaram resultado

O reconhecimento da vitória de Lula não ficou restrito à direção do PL. Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás e uma das lideranças do campo conservador, manifestou-se ainda no domingo (25), depois da apuração. Caiado afirmou que, como democratas, os participantes da disputa deveriam se curvar à decisão da maioria e ao resultado eleitoral.

Entre os governadores eleitos que apoiaram Flávio, também reconheceram a vitória de Lula JHC, em Alagoas; Daniel Vilela, em Goiás; Eduardo Riedel, em Mato Grosso do Sul; Mailza Assis, no Acre; Dr. Daniel, no Pará; e Otaviano Pivetta, em Mato Grosso. As manifestações indicam que parte dos aliados estaduais optou por aceitar o resultado e manter canais institucionais de relacionamento com o governo federal.

Dirigentes de partidos que participaram da aliança política em torno de Flávio também se pronunciaram. Antonio Rueda, do União Brasil, Marcos Pereira, do Republicanos, Renata Abreu, do Podemos, e Gilberto Kassab, do PSD, reconheceram a vitória de Lula. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e o senador eleito Arthur Lira (PP) também se manifestaram em reconhecimento ao resultado.

A posição não é unânime entre os aliados. O senador Sergio Moro (PL), eleito governador do Paraná, defendeu a saída de Flávio do Brasil e afirmou que o país não vive uma situação de normalidade institucional. Já o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), embora não tenha reconhecido expressamente a vitória de Lula, avaliou que as possibilidades de anulação da eleição eram praticamente inexistentes e orientou apoiadores a não promoverem manifestações nas ruas.

Carta acusa fraude e anuncia oposição do exterior

No pronunciamento desta quarta-feira, Flávio atribui sua derrota a uma suposta fraude relacionada à prorrogação do horário de votação no segundo turno. Ele questiona a decisão judicial que permitiu a extensão do período de votação e afirma que o crescimento da votação de Lula entre os dois turnos representaria uma impossibilidade matemática. O documento, entretanto, não apresenta provas de adulteração das urnas ou de manipulação da apuração.

O senador também acusa integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) de perseguição política e afirma que deixou o Brasil para preservar sua liberdade e a segurança da família. A viagem ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes determinar o recolhimento de seus passaportes, atendendo a um pedido da Polícia Federal, que apontou risco concreto de fuga em uma investigação envolvendo o parlamentar.

Flávio contesta a caracterização de sua saída como fuga e sustenta que poderá exercer a liderança política com maior liberdade nos Estados Unidos. Para justificar a decisão, cita personagens históricos que atuaram fora de seus países, entre eles Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí, além de lideranças da oposição venezuelana.

A carta também é dirigida aos parlamentares e governadores aliados, com menção específica ao senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político de sua campanha e apontado como candidato à presidência do Senado. Flávio afirma que pretende falar em nome de integrantes da oposição que, segundo ele, estariam impedidos de exercer plenamente suas atividades políticas no Brasil.

O novo discurso representa uma mudança em relação à manifestação divulgada pelo senador na segunda-feira (26). Na ocasião, depois de ouvir conselheiros políticos, Flávio havia anunciado que concentraria a atuação em uma oposição parlamentar ao governo Lula. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, dirigentes do PL e integrantes da campanha haviam recomendado que ele não endossasse acusações de fraude eleitoral, concentrando eventuais questionamentos judiciais em alegações de abuso de poder durante a campanha.

A carta desta quarta-feira retoma a contestação direta ao resultado e amplia o confronto com as instituições brasileiras. Ao mesmo tempo, expõe uma divergência entre o candidato derrotado e aliados que já reconheceram a vitória de Lula e passaram a discutir a atuação política para o próximo mandato presidencial.

Embora Flávio reivindique a condição de presidente eleito, a declaração não altera o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. Lula venceu o segundo turno com aproximadamente 64,3 milhões de votos, contra 59,8 milhões do candidato do PL. A Presidência da República será exercida pelo candidato vencedor, independentemente do reconhecimento pessoal do adversário.

Nos próximos dias, Flávio promete divulgar novos pronunciamentos e apresentar uma estratégia de mobilização da oposição. A iniciativa ocorrerá em um cenário no qual parte das lideranças que participaram de sua campanha já reconheceu o resultado das urnas, incluindo a direção nacional do próprio partido pelo qual disputou a Presidência.

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