GCAST

Setembro Verde reforça importância da doação de órgãos e do diálogo entre famílias

HUOP reforça a campanha com a realização da Corrida pela Vida no dia 27 de setembro

Por Repórter Gazeta do Paraná

🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA
Setembro Verde reforça importância da doação de órgãos e do diálogo entre famílias Créditos: PMFI

Uma decisão tomada por uma família pode mudar a vida de outras pessoas. É nesse sentido que o Setembro Verde busca ampliar a discussão sobre a doação de órgãos e tecidos, combatendo informações equivocadas e reforçando a importância de conversar sobre o assunto antes que uma decisão precise ser tomada.

No Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP), o trabalho relacionado à doação é realizado pela Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). A instituição não realiza transplantes de órgãos, mas atua na identificação de possíveis doadores, acompanhamento dos protocolos, acolhimento das famílias e viabilização da captação.

Para Gelena Castillo, coordenadora do CIHDOTT, a informação ainda é uma das principais ferramentas para aumentar a conscientização sobre o tema. “Quem deseja ser doador deve conversar com sua família. Em um momento de dor e despedida, saber qual era a vontade daquele familiar pode trazer mais segurança para a decisão”, afirma.

A autorização familiar é fundamental para que a doação seja efetivada. Em 2024, a recusa familiar ocorreu em 46% das entrevistas realizadas em nível nacional, segundo os dados apresentados pela entrevistada.

O desconhecimento sobre o processo também contribui para a permanência de diferentes mitos. Um deles é a confusão entre morte encefálica e coma. Enquanto no coma ainda pode existir atividade cerebral e possibilidade de evolução clínica, a morte encefálica representa a morte da pessoa e é diagnosticada por meio de critérios e protocolos específicos.

Outras dúvidas frequentes estão relacionadas à escolha de quem receberá os órgãos e à retirada durante a captação. A distribuição não é definida pela família, mas pelo Sistema Nacional de Transplantes, a partir de critérios técnicos, como compatibilidade, gravidade e tempo de espera. A captação, por sua vez, é realizada por equipes especializadas e não impede a realização dos rituais de despedida.

No HUOP, a CIHDOTT atua desde 2004. O processo inclui a busca ativa de possíveis doadores, a identificação de pacientes com suspeita de morte encefálica, o acompanhamento dos protocolos, a manutenção clínica do potencial doador e o acolhimento e a entrevista com os familiares. Após a autorização, o hospital articula a captação com a Central Estadual de Transplantes.

Números

Em 2024, o HUOP notificou 70 casos de morte encefálica e realizou 30 captações, totalizando 99 órgãos e tecidos captados. A taxa de autorização familiar chegou a 83%. Em 2025, foram registradas 77 mortes encefálicas, realizadas 57 entrevistas familiares e efetivadas 36 doações, com autorização familiar de aproximadamente 77%. Já em 2026, os dados parciais apontam 42 mortes encefálicas, 35 entrevistas familiares e 26 doações.

Por trás desses números estão histórias como a de Karen Kruger, de 40 anos. Antes do transplante, ela já convivia havia cerca de três anos com uma doença renal. Após o agravamento do quadro, precisou ser internada e iniciar uma hemodiálise de emergência.

A mudança afetou diretamente o cotidiano marcado pelo trabalho e por diferentes atividades. Com dois empregos, passou a dedicar duas vezes por semana cerca de quatro horas ao tratamento. “Eu era uma pessoa bem ativa, tinha dois trabalhos, e ter que parar quatro horas, duas vezes na semana, para fazer hemodiálise foi bem difícil”, conta.

A rotina, que antes era dividida entre trabalho e compromissos diários, passou a ser medida também pelo tempo gasto em uma clínica. Karen precisava parar duas vezes por semana. Eram horas dedicadas a um tratamento que se tornou essencial e que começou a reestruturar a vida que levava até aquele momento. Acostumada com a agitação, começou a lidar com um tratamento que determinava seus dias.

A hemodiálise consumia várias horas da semana, ao passo que a espera por uma melhora se tornava uma constante no dia a dia. Karen ficou um ano na fila de espera por um transplante. A possibilidade veio por meio de uma doação em vida de sua mãe, que foi compatível e se tornou doadora.

O período após a cirurgia também exigiu mudanças. Nos primeiros meses, houve restrições na alimentação, uso de máscara, redução do contato com outras pessoas e cuidados para evitar exposições. Com a recuperação, a rotina começou a retornar. “Hoje estou voltando ao normal, trabalhando, fazendo atividade física e cuidando dos meus filhos. Não me sinto mais cansada como me sentia antes”, afirma.

Para ela, o transplante representou uma mudança que vai além da recuperação física. “Significa vida nova. Uma nova chance de fazer mais pela minha família e pelo próximo. Não se importar com os problemas pequenos e agradecer mais”.

A experiência também mudou sua percepção sobre a doação. Mesmo tendo recebido um rim de uma doadora viva, Karen reforça a importância de as famílias conversarem sobre a possibilidade de doar órgãos após a morte de um familiar. “Entendo que é difícil para uma família, mas é uma forma de transformar uma perda em esperança e recomeço para outras famílias. É uma pessoa que pode voltar a enxergar, outra que pode não precisar mais fazer hemodiálise. A vida precisa continuar”, diz.

No Paraná, até novembro de 2025, foram realizados 1.715 transplantes, incluindo 410 de rim, 264 de fígado e 29 de coração, além de transplantes combinados e aproximadamente mil transplantes de córnea.

Embora o HUOP não seja um centro transplantador, a instituição integra a rede responsável por tornar esses procedimentos possíveis. Entre a identificação de um potencial doador e a chegada de um órgão a um paciente que aguarda na fila, existe uma estrutura que depende de equipes, protocolos e, principalmente, da autorização das famílias.

É justamente nesse ponto que o Setembro Verde concentra sua principal mensagem, ao reforçar que a decisão sobre a doação não precisa começar dentro de um hospital, mas antes, em uma conversa entre familiares, na manifestação de um desejo e na coragem de falar sobre um assunto que, muitas vezes, é evitado. Em um momento de perda, saber qual era a vontade de quem partiu pode oferecer à família mais segurança diante de uma decisão difícil; para quem espera por um órgão, essa escolha pode representar a possibilidade de retomar uma rotina interrompida pela doença, voltar ao trabalho, aos encontros, à convivência e aos planos que ficaram. A doação não elimina a dor de uma despedida, mas pode fazer com que outras histórias encontrem a chance de continuar.

Corrida pela Vida

O Dia 27 de setembro é oficialmente a data escolhida para fomentar a conscientização sobre a Doação de órgãos, e em 2026 é também o dia escolhido pelo HUOP para a realização da Corrida pela Vida.
As inscrições seguem abertas pelo site: www.rodrigocirilo.com.br.

Foto: Divulgação 

Acesse nosso canal no WhatsApp