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Sem férias e com pagamento de R$ 380, trabalhadora da Produserv faz rifas para pagar as contas

Mensagens e extratos obtidos pela Gazeta do Paraná mostram o impacto da crise nos contratos da Produserv; trabalhadora relata que precisou pedir ajuda aos colegas enquanto aguardava valores que afirma não terem sido quitados

Por Gazeta do Paraná

Sem férias e com pagamento de R$ 380, trabalhadora da Produserv faz rifas para pagar as contas Créditos: Reprodução / Produserv

A crise nos contratos terceirizados da Produserv Serviços Ltda. com o Governo do Paraná, revelada pela Gazeta do Paraná, ganhou um novo e dramático capítulo. Depois de documentos apontarem atrasos salariais, férias não pagas, verbas rescisórias pendentes e descontos consignados sem o correspondente repasse aos bancos, mensagens obtidas pela reportagem mostram como o impasse já afeta diretamente a sobrevivência de trabalhadores vinculados à empresa.

Em uma conversa compartilhada em um grupo de WhatsApp, uma trabalhadora relata ter recebido apenas R$ 380 e afirma que o valor de suas férias não foi pago. Diante das contas acumuladas e da necessidade de continuar trabalhando, ela decidiu organizar duas rifas, uma de produtos de perfumaria e outra de uma cesta de chocolates, como forma de levantar recursos.

A Gazeta do Paraná preserva a identidade da trabalhadora e omite telefone, chave Pix, CPF e demais informações pessoais que aparecem nas mensagens e nos documentos encaminhados à reportagem.

“Venho aqui oferecer duas rifas, pois a Produserv não pagou o valor das minhas férias e meu pagamento foi de R$ 380”, escreveu a terceirizada. Na mesma mensagem, ela afirma estar realizando um tratamento de saúde, depender de transporte por aplicativo e enfrentar contas atrasadas. “Isso virou um pesadelo, pois sou pai e mãe, provedora da minha família”, relata.

A trabalhadora também diz não compreender como o valor referente às férias teria sido descontado sem que o pagamento correspondente fosse efetivamente realizado. Ao final da mensagem, pede ajuda aos colegas para vender as rifas.

 

Rifas para enfrentar o atraso

As imagens encaminhadas ao grupo mostram cartelas com nomes, os produtos oferecidos como prêmio e peças de divulgação das duas rifas. Cada participação era vendida por R$ 10.

Em uma delas, o prêmio anunciado era um conjunto de perfumaria. Na outra, uma cesta de chocolates. A divulgação era acompanhada por uma chave Pix, utilizada para o recebimento dos valores arrecadados.

As mensagens circularam entre outros trabalhadores, que passaram a compartilhar o pedido de ajuda. Em um dos registros, a terceirizada explica que os produtos sorteados eram de marcas conhecidas e reforça que a primeira rifa correspondia ao perfume e a segunda à cesta de chocolates.

O episódio evidencia uma situação que vai além da discussão administrativa entre empresa e Governo do Estado. Enquanto as partes divergem sobre pagamentos retidos, documentação contratual e comprovação de obrigações trabalhistas, empregados relatam estar recorrendo à solidariedade de colegas para cobrir despesas básicas.

Extrato mostra pagamentos fracionados

Além das mensagens, a trabalhadora apresentou extrato de uma conta utilizada para o recebimento de valores da Produserv.

O documento registra diferentes transferências feitas pela empresa entre maio e julho, em valores fracionados. Entre os créditos aparecem depósitos de R$ 1.931,06, R$ 1.509,79, R$ 300, R$ 204,50 e R$ 379,68.

Nas mensagens encaminhadas ao grupo, a terceirizada afirma que o crédito de R$ 379,68 correspondia ao pagamento de apenas R$ 380 mencionado por ela e que ainda aguardava a quitação integral dos valores.

O extrato, isoladamente, não permite estabelecer a natureza contábil de cada transferência. No entanto, ele reforça o relato de que os pagamentos foram realizados de maneira parcelada e em valores distintos, situação que passou a ser questionada pelos trabalhadores.

Em outra mensagem, a terceirizada escreveu que havia recebido apenas o salário referente a maio e publicou o extrato para demonstrar os depósitos realizados até aquele momento.

“Difícil a gente trabalhar e não receber o que temos direito”, afirmou.


Cobrança chega aos locais de trabalho

A insatisfação também passou a aparecer em cartazes afixados em locais de trabalho. Uma das imagens recebidas pela reportagem traz a frase “Trabalhadores terceirizados exigem o pagamento imediato” e questiona diretamente o governador Carlos Massa Ratinho Junior: “Ratinho, cadê os pagamentos?”.

O material também afirma que o atraso de salários compromete o serviço público e traz o apoio do SindSaúde Paraná.

A manifestação mostra que a crise deixou de ficar restrita às notificações extrajudiciais e às reuniões entre sindicato, empresa e administração estadual. A cobrança passou a ocupar os espaços onde os trabalhadores prestam os serviços contratados pelo Estado.

Crise já envolve diferentes direitos

Na reportagem publicada anteriormente, a Gazeta do Paraná mostrou que a crise alcança aproximadamente 130 contratos terceirizados mantidos pela Produserv com o Governo do Estado.

Os documentos analisados apontam reclamações relacionadas a salários, férias, vale-alimentação, verbas rescisórias, FGTS e parcelas de empréstimos consignados descontadas dos trabalhadores, mas que não teriam sido integralmente repassadas às instituições financeiras.

Em alguns dos casos formalizados por sindicatos, trabalhadores afirmam que tiveram o nome incluído em cadastros de inadimplência mesmo após os valores das parcelas aparecerem descontados em seus contracheques.

Também foram registradas notificações envolvendo empregados que iniciaram ou concluíram férias sem receber antecipadamente a remuneração devida. Há ainda relatos de períodos concessivos vencidos e de ausência de pagamento em dobro após o descumprimento do prazo previsto na legislação.

 

Empresa e Estado divergem

A Produserv atribui a crise à retenção de pagamentos por parte da administração estadual. O Governo do Paraná, por sua vez, sustenta que parte dos recursos permanece retida devido à necessidade de comprovação do cumprimento de obrigações contratuais e trabalhistas.

O impasse já foi discutido em reunião mediada pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, com participação de representantes da empresa, do Estado e das entidades sindicais.

Os sindicatos estabeleceram prazo para a regularização das pendências e informaram que poderão ajuizar uma ação cautelar coletiva caso os pagamentos e demais direitos não sejam quitados.

Enquanto a discussão administrativa prossegue, os relatos obtidos pela Gazeta do Paraná revelam o custo humano da crise. Para alguns trabalhadores, o atraso já não representa apenas uma pendência em folha ou uma divergência contratual: significa depender de rifas, doações e ajuda dos colegas para manter as contas em dia e continuar prestando serviços ao próprio Estado.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp