Créditos: Roberto Dziura Jr/AEN
MP coloca sob sigilo investigação sobre contratos da Celepar com empresa ligada a ex-sócio de Gabriel Massa
Procedimento do Ministério Público do Paraná investiga possíveis irregularidades em licitações, contratos da Celepar com a Linea Tecnologia e o programa Mural Digital
O Ministério Público do Paraná (MP-PR) colocou sob sigilo o procedimento preparatório que investiga possíveis irregularidades em contratos firmados entre a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar) e a Linea Tecnologia em Comunicação Ltda., empresa do empresário Rodolfo de Souza Aires, ex-sócio de Gabriel Massa, irmão do governador Ratinho Junior (PSD), na TLA Brasil Tecnologia em Monitores Ltda.
A existência do procedimento foi revelada pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, e confirmada pela reportagem da Gazeta do Paraná por meio de consulta aos registros do Ministério Público.
Os sistemas do MP mostram que a promotora Cláudia Rodrigues Martins Madalozzo, da 5ª Promotoria de Justiça de Proteção ao Patrimônio Público de Curitiba, instaurou o procedimento preparatório em 19 de junho de 2026 para apurar possíveis irregularidades envolvendo as contratações da estatal.
Ao consultar o andamento processual, a reportagem verificou que o procedimento atualmente aparece com a anotação de "sigilo decretado". Procurado, o Ministério Público não informou o motivo da restrição de acesso às informações da investigação.
Os registros também mostram que o caso havia tramitado inicialmente como notícia de fato, encerrada em 20 de fevereiro de 2026 justamente para permitir o avanço para a fase de procedimento preparatório.
Investigação apura contratos e modelo de contratação
Segundo as informações disponíveis, a investigação busca esclarecer possíveis irregularidades em licitações da Celepar e analisar a economicidade dos contratos firmados com a Linea Tecnologia.
Uma das denúncias encaminhadas ao Ministério Público aponta diferenças significativas entre valores pagos por equipamentos semelhantes em diferentes órgãos estaduais.
De acordo com a representação, enquanto a Secretaria da Segurança Pública adquiriu telas interativas de 75 polegadas por R$ 10.371 cada, em caráter definitivo, contratos ligados ao programa Mural Digital da Celepar preveem pagamentos mensais próximos de R$ 18 mil por equipamentos da mesma tecnologia.
A denúncia também questiona possíveis restrições à competitividade nos editais utilizados pela estatal.
Além desse procedimento, o Ministério Público já havia instaurado outra investigação para apurar supostas irregularidades no pregão eletrônico vencido pela Linea Tecnologia dentro do programa Mural Digital, que prevê contratos estimados em R$ 146 milhões.
Celepar diz que licitações seguiram a lei
Em manifestações anteriores, a Celepar afirmou que a contratação da Linea ocorreu por meio de pregão eletrônico pelo critério de menor preço, com participação de cinco empresas, e que todo o processo observou a legislação aplicável.
A companhia também informou que os pagamentos são realizados apenas pelos produtos efetivamente contratados e sustentou que suas regras internas de compliance impedem a contratação de empresas que possuam vínculo formal com autoridades estaduais, servidores públicos ou parentes até o terceiro grau.
Sociedade empresarial passou a chamar atenção
A investigação ocorre após ganhar repercussão a sociedade empresarial firmada entre Gabriel Massa e Rodolfo de Souza Aires.
Conforme registros da Receita Federal, ambos passaram a integrar o quadro societário da TLA Brasil Tecnologia em Monitores Ltda. em abril de 2023.
Embora Gabriel Massa nunca tenha figurado como sócio da Linea Tecnologia, empresa contratada pela Celepar, a coincidência entre a formação da sociedade na TLA Brasil e o crescimento expressivo dos contratos públicos da Linea passou a ser alvo de questionamentos da oposição na Assembleia Legislativa do Paraná.
Contratos cresceram a partir de 2023
A Linea começou a fornecer serviços para a Celepar em 2022, quando venceu o Pregão Eletrônico nº 1176/2022, no valor de aproximadamente R$ 8,05 milhões, para gerenciamento de canais eletrônicos, instalação e manutenção de equipamentos e produção de conteúdo.
Naquele processo já houve contestação apresentada por uma empresa concorrente, que questionava critérios técnicos do edital. A impugnação, entretanto, não foi conhecida pela Celepar por ter sido protocolada fora do prazo.
O cenário mudou em 2023. Após a constituição da sociedade entre Gabriel Massa e Rodolfo Aires, a Linea venceu novo pregão da estatal, desta vez no valor de R$ 36,1 milhões.
Nesse certame também houve impugnação apresentada por concorrentes, igualmente rejeitada por questões de prazo. Apesar disso, a própria Celepar promoveu alterações no edital, ampliando os critérios aceitos para comprovação de capacidade técnica.
Contratações seguiram crescendo
Em 2024, a empresa voltou a vencer nova licitação da Celepar, desta vez no valor de R$ 26,4 milhões, novamente para serviços ligados à comunicação digital, equipamentos tecnológicos e sistemas de atendimento.
Assim como nos processos anteriores, concorrentes apresentaram questionamentos formais ao edital, mas as impugnações não foram conhecidas por razões processuais.
O maior contrato veio em 2025. A Licitação Eletrônica nº 0058/2025 resultou em um registro de preços de R$ 79,2 milhões em favor da Linea Tecnologia.
Segundo os documentos do processo, apenas duas empresas participaram da disputa, circunstância que também passou a ser citada por parlamentares da oposição ao defenderem maior apuração sobre a competitividade das licitações.
Com a instauração do procedimento preparatório e a decretação de sigilo, caberá agora ao Ministério Público aprofundar as investigações para verificar se houve ou não irregularidades nas contratações realizadas pela Celepar. Até o momento, não há conclusão do MP sobre a existência de ilegalidades ou responsabilização de pessoas envolvidas.
Investigação mira programa Mural Digital
Segundo as informações já divulgadas, a investigação concentra-se em contratos relacionados ao programa Mural Digital da Celepar, especialmente na análise da economicidade do modelo de contratação e em possíveis restrições à concorrência.
Entre os pontos levantados está uma comparação de valores envolvendo telas interativas utilizadas pelo Estado. A representação sustenta que a Secretaria da Segurança Pública adquiriu equipamentos semelhantes por cerca de R$ 10,3 mil cada, enquanto contratos ligados ao Mural Digital preveem pagamentos mensais próximos de R$ 18 mil por soluções da mesma tecnologia.
Também são questionadas exigências previstas nos editais que poderiam limitar a competitividade das licitações.
Documentos mostram sequência de quatro licitações
A análise realizada pela Gazeta do Paraná indica que os contratos investigados fazem parte de uma sequência de licitações vencidas pela mesma empresa entre 2022 e 2025, todas com objetos bastante semelhantes.
O histórico começa com o Pregão Eletrônico nº 1176/2022, no valor aproximado de R$ 8,05 milhões, destinado ao gerenciamento de canais eletrônicos, fornecimento de equipamentos e criação de conteúdo digital.
Naquele momento, o edital possuía características mais genéricas e ainda não apresentava o detalhamento observado nos processos posteriores.
Em abril de 2023, Rodolfo de Souza Aires passou a integrar o quadro societário da TLA Brasil Tecnologia em Monitores Ltda. ao lado de Gabriel Massa, conforme registros da Receita Federal.
Poucos meses depois, a Linea venceu o Pregão Eletrônico nº 1189/2023, cujo valor saltou para aproximadamente R$ 36,1 milhões.
Esse edital já previa estrutura mais ampla para gerenciamento remoto de comunicação visual, incluindo equipamentos destinados à transmissão diária de informações, softwares específicos e lousas digitais, consolidando o modelo posteriormente utilizado pelo programa Mural Digital.
Modelo foi ampliado em 2024
A contratação continuou em 2024, por meio da Licitação Eletrônica nº 112/2024, no valor de aproximadamente R$ 26,4 milhões.
Além do gerenciamento de canais eletrônicos e produção de conteúdo, o edital passou a incluir monitores profissionais, video walls, totens de atendimento, sistemas de gerenciamento de filas e outros equipamentos que integram a arquitetura tecnológica utilizada pelo Mural Digital.
Os documentos indicam uma continuidade administrativa do modelo iniciado no ano anterior, mantendo praticamente o mesmo escopo técnico.
Licitação de 2025 reúne toda a estrutura do Mural Digital
A maior contratação ocorreu em 2025.
A Licitação Eletrônica nº 0058/2025, com registro de preços de aproximadamente R$ 79,2 milhões, apresenta de forma expressa os equipamentos utilizados na solução Mural Digital da Celepar.
Os anexos do edital preveem o fornecimento de lousas interativas de 65, 75 e 86 polegadas, além de software para gerenciamento remoto, instalação, manutenção preventiva e corretiva, suporte técnico e criação de conteúdo digital.
O objeto também contempla gerenciamento de canal eletrônico e transmissão diária de informações, reunindo praticamente todos os componentes da solução comercial disponibilizada pela estatal.
Embora os equipamentos sejam compatíveis com o programa Mural Digital, os editais são registros de preços da Celepar destinados ao atendimento de diferentes órgãos públicos estaduais.
Até o momento, os documentos analisados pela reportagem não permitem afirmar que todos os equipamentos registrados nessas atas tenham sido destinados especificamente à Secretaria da Segurança Pública. Para essa confirmação seriam necessários contratos decorrentes das atas, ordens de fornecimento, notas fiscais, empenhos ou termos de adesão dos órgãos beneficiados.
Crescimento dos contratos chama atenção
A sequência das contratações evidencia um crescimento significativo dos valores registrados pela mesma empresa:
2022: R$ 8,05 milhões;
2023: R$ 36,1 milhões;
2024: R$ 26,4 milhões;
2025: R$ 79,2 milhões.
Somadas, as quatro licitações representam mais de R$ 149 milhões em registros de preços e contratos relacionados ao mesmo modelo de contratação.
Concorrentes contestaram editais
Outro aspecto identificado nos documentos é que empresas concorrentes apresentaram impugnações em diferentes licitações.
Em 2022 e 2023 houve questionamentos formais aos editais envolvendo critérios técnicos e exigências para comprovação de capacidade operacional.
As impugnações não chegaram a ser conhecidas pela Celepar por terem sido protocoladas fora do prazo previsto.
Mesmo assim, no certame de 2023, a estatal promoveu alterações de ofício no edital, ampliando os tipos de atestados aceitos para comprovação da experiência técnica das empresas participantes.
Em 2024 também houve novos questionamentos de concorrentes relacionados às exigências do edital.
Esses registros ganham relevância porque um dos objetos da investigação conduzida pelo Ministério Público é justamente verificar eventual restrição à competitividade nas licitações.
Sociedade empresarial amplia questionamentos
A cronologia dos fatos também passou a ser alvo de questionamentos políticos.
Documentos da Receita Federal mostram que Gabriel Massa tornou-se sócio de Rodolfo de Souza Aires na TLA Brasil em abril de 2023.
Embora Gabriel Massa não integre o quadro societário da Linea Tecnologia, a sociedade empresarial entre ambos foi firmada justamente no período em que a empresa passou a vencer contratos significativamente maiores junto à Celepar.
A reportagem ressalta que esse fato, por si só, não comprova qualquer irregularidade, mas passou a integrar os questionamentos apresentados por parlamentares da oposição e agora se soma ao contexto da investigação conduzida pelo Ministério Público.
Celepar afirma que processo foi regular
Em nota divulgada anteriormente, a Celepar afirmou que todas as contratações ocorreram por meio de pregão eletrônico, utilizando o critério de menor preço e observando a legislação vigente.
A estatal também informou que realiza pagamentos apenas pelos produtos efetivamente contratados e destacou possuir regras de compliance que impedem a contratação de empresas que mantenham vínculo formal com autoridades estaduais, servidores públicos ou parentes até o terceiro grau.
A reportagem, por sua vez, identificou documentalmente que Gabriel Massa não é sócio da Linea Tecnologia, mas sim de Rodolfo de Souza Aires em outra empresa, a TLA Brasil Tecnologia em Monitores Ltda.
Com o procedimento preparatório sob sigilo, caberá agora ao Ministério Público aprofundar a apuração para verificar se houve ou não irregularidades nas licitações e contratos da Celepar. Até o momento, não há denúncia apresentada nem conclusão do MP sobre eventual prática de ilegalidades.
