Sandro Alex responde sobre helicóptero, mas deixa perguntas sem resposta
Defesa apresenta declaração da Helisul afirmando que aeronave foi fretada pelo PSD e exige retificação da Gazeta do Paraná; documentos, porém, não revelam valor do voo, comprovante de pagamento nem detalhes da contratação. Empresa mantém contratos milionários com o Governo do Paraná e recebeu R$ 616 mil da campanha de Ratinho Junior em 2022
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação
A defesa do pré-candidato ao Governo do Paraná Sandro Alex apresentou uma resposta para uma das principais questões envolvendo o helicóptero utilizado no deslocamento que terminou com um pouso emergencial em Quitandinha, no último dia 2. Segundo declaração da Helisul Táxi Aéreo encaminhada à Gazeta do Paraná, a aeronave era privada, foi contratada pelo Diretório Estadual do PSD e não possuía vínculo jurídico, operacional ou financeiro com o Governo do Estado naquele voo.
O documento esclarece um ponto importante da história. Mas não todos.
Depois de a Gazeta revelar que uma representação apresentada ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) pedia esclarecimentos sobre a origem, a operação e o custeio da aeronave utilizada por Sandro Alex, a defesa do pré-candidato encaminhou uma notificação extrajudicial ao jornal. Além de contestar a reportagem, os advogados deram prazo de seis horas para a publicação de uma nota de retificação, sob pena de adoção de medidas judiciais.
Junto à notificação, foi apresentada uma declaração da Helisul. A empresa identifica a aeronave utilizada em 2 de agosto como um helicóptero AS350-B3, prefixo PR-YIT, e informa que o serviço foi contratado pelo Diretório Estadual do PSD do Paraná na modalidade de fretamento.
A Helisul também declara que a aeronave não foi arrendada, cedida, emprestada ou colocada à disposição do Governo do Paraná ou de qualquer órgão da administração pública estadual. Segundo a empresa, o voo não teve vínculo jurídico, operacional ou financeiro com o poder público estadual.
A própria defesa confirma ainda um fato que já fazia parte da apuração: Sandro Alex estava dentro da aeronave que realizou o pouso emergencial em Quitandinha.
A identificação do helicóptero, portanto, ganhou uma resposta. Outras perguntas, não.
Quanto custou o voo?
A mais simples delas pode ser respondida com um número: quanto o PSD pagou pelo fretamento do helicóptero utilizado por Sandro Alex?
O valor não aparece em nenhum dos documentos encaminhados à Gazeta do Paraná.
A própria Helisul afirma que sua declaração foi produzida com fundamento em documentos “contratuais, fiscais, financeiros e operacionais” mantidos em seus arquivos. Apesar disso, esses documentos não acompanharam a notificação entregue ao jornal.
Não foi apresentada à reportagem cópia da proposta comercial mencionada pela empresa. Também não foram encaminhados contrato de fretamento, nota fiscal, recibo ou comprovante bancário referente ao serviço.
A declaração permite saber quem a Helisul aponta como contratante. Não permite verificar, a partir dos documentos entregues à Gazeta, quanto foi cobrado nem como e quando o serviço foi efetivamente pago.
É justamente o custeio do deslocamento que estava entre as questões levadas ao Tribunal de Contas.
Quem pagou e quando?
Há uma diferença entre identificar o contratante de um serviço e demonstrar documentalmente o pagamento.
A Helisul afirma que o contratante foi o Diretório Estadual do PSD. A documentação financeira que permitiria acompanhar o caminho do dinheiro, entretanto, não foi apresentada.
Quem autorizou a contratação dentro do partido? Qual foi o valor acertado? Quando o serviço foi contratado? Houve pagamento antecipado ou posterior ao voo? Qual foi a forma de pagamento? Houve cotação com outras empresas?
Nenhuma dessas informações consta no conjunto de documentos encaminhado à Gazeta.
Também não foi apresentada a proposta comercial citada pela própria Helisul quando afirma que o voo decorreu “exclusivamente de aprovação de Proposta Comercial”.
Se o documento existe, sua apresentação permitiria esclarecer parte significativa das dúvidas que permanecem.
Quem solicitou o helicóptero?
A declaração da Helisul fornece ainda outra informação interessante.
Segundo a empresa, o afretador indicou as necessidades do transporte, inclusive passageiros, horário e itinerário pretendidos. As decisões técnicas e operacionais permaneceram sob responsabilidade da Helisul.
Mas a documentação enviada não informa quem, dentro do PSD, solicitou o helicóptero, quem autorizou a despesa ou qual era exatamente o itinerário originalmente contratado.
Também não foi encaminhada a relação de passageiros indicada pelo contratante à empresa.
São informações objetivas, documentáveis e diretamente relacionadas ao deslocamento.
O que acontece agora no TCE?
A apresentação da declaração da Helisul também não significa, até o momento, o encerramento da representação que deu origem à primeira reportagem.
A própria notificação da defesa de Sandro Alex reconhece expressamente a existência de uma “apuração em curso perante o Tribunal de Contas”.
Entre os documentos encaminhados à Gazeta não consta decisão informando arquivamento, improcedência ou encerramento do procedimento.
A declaração da Helisul representa, portanto, um novo elemento que poderá ser considerado na apuração. Não equivale, por si só, a uma decisão do Tribunal sobre o caso.
A reportagem publicada pela Gazeta em 4 de agosto também não havia afirmado como fato comprovado que Sandro Alex utilizara uma aeronave pública. A manchete informava que o TCE havia recebido uma denúncia apontando o “possível uso” de helicóptero público, enquanto o próprio corpo do texto registrava que os elementos disponíveis não comprovavam que a aeronave fosse do Estado ou que tivesse ocorrido irregularidade.
Agora existe uma resposta documental sobre a identidade do helicóptero. Segundo a Helisul, era o PR-YIT e o fretamento foi contratado pelo PSD.
A origem detalhada do pagamento e os documentos financeiros da contratação, porém, continuam sem ser apresentados à reportagem.
Defesa exige retificação
Na notificação extrajudicial, Sandro Alex não pede a retirada da reportagem. Seus advogados exigem que a Gazeta publique uma nota de retificação “com o mesmo destaque conferido à publicação original”.
A Gazeta do Paraná publica abaixo, na íntegra, o texto encaminhado pela defesa:
NOTA DE RETIFICAÇÃO
Em matéria publicada em 04 de agosto de 2026, esta redação noticiou que o pré-candidato Sandro Alex teria utilizado helicóptero público em agenda de campanha entre os municípios de Rio Negro e Quitandinha.
Após apresentação de documentação, esclarece-se que a aeronave utilizada (prefixo PR-YIT) foi locada junto à empresa Helisul Táxi Aéreo LTDA diretamente pelo PSD Paraná, não havendo qualquer vínculo com o Governo do Estado do Paraná, tampouco uso de recursos públicos ou de aeronave estatal. A informação é atestada por declaração da própria empresa locadora.
A Gazeta do Paraná retifica a informação e reafirma seu compromisso com a apuração precisa dos fatos.
O texto acima corresponde à nota apresentada pelos advogados na notificação extrajudicial.
A Gazeta incorpora à cobertura o esclarecimento apresentado pela Helisul sobre a identificação da aeronave e sua declaração de que o voo foi contratado pelo PSD. Mantém, entretanto, os questionamentos ainda não respondidos pela documentação entregue à reportagem.
Mera coincidência?
Há ainda um elemento que não aparece na manifestação apresentada pela defesa de Sandro Alex: a Helisul está longe de ser uma empresa sem histórico comercial com o Governo do Paraná e com o grupo político que hoje comanda o Estado.
A relação da empresa com o poder público estadual é antiga e antecede a própria administração Ratinho Junior. Quando assumiu o Palácio Iguaçu, em janeiro de 2019, Ratinho anunciou a devolução de um jato que permanecia à disposição do Governo. O próprio Estado informou, naquela ocasião, que o contrato com a Helisul havia durado mais de cinco anos e que o encerramento representaria economia de R$ 4,5 milhões anuais.
A relação comercial, entretanto, não terminou ali. Em abril deste ano, publicação oficial do Estado autorizou o quarto termo aditivo do Contrato nº 0986/2022, firmado entre a Casa Militar e a Helisul Táxi Aéreo. O documento prorrogou a vigência da contratação por mais 12 meses, de 27 de abril de 2026 a 27 de abril de 2027, e estabeleceu valor estimado de R$ 7,61 milhões para o período. Isso significa que, na data do voo de Sandro Alex, a empresa mantinha contrato vigente com a estrutura estadual.
A Helisul também possui participação relevante na operação aeromédica do Paraná. Dados divulgados pela própria Secretaria de Estado da Saúde mostram que, em 2024, o contrato com a empresa responsável pelos helicópteros das bases de Cascavel, Londrina, Maringá e Ponta Grossa, além do avião de Curitiba, havia alcançado R$ 63,4 milhões até outubro.
Em informação mais recente, a Sesa registrou que o contrato anual relacionado às quatro bases de helicópteros e ao avião de Curitiba prevê investimento de até R$ 85,5 milhões, conforme o volume de utilização dos serviços.
Mas a relação comercial da Helisul não se restringiu ao Governo do Paraná.
Dados oficiais da prestação de contas eleitoral de Carlos Roberto Massa Junior, obtidos pela Gazeta do Paraná no DivulgaCandContas, mostram que a campanha de reeleição de Ratinho Junior ao Governo do Estado declarou R$ 616 mil em despesas com a Helisul Táxi Aéreo em 2022.
Foram três registros concentrados em setembro daquele ano: R$ 197.866,67 em 13 de setembro; R$ 298.433,33 em 22 de setembro; e R$ 119.700 em 30 de setembro.
Somados, os pagamentos representam 4,39% dos R$ 14,04 milhões em despesas registrados na planilha da campanha analisada pela reportagem.
Quatro anos depois, a mesma Helisul aparece novamente prestando serviços ao PSD do Paraná. Desta vez, segundo declaração da própria companhia, como responsável pelo helicóptero utilizado por Sandro Alex no voo de 2 de agosto.
Nenhum desses fatos demonstra, isoladamente ou em conjunto, que o PR-YIT utilizado por Sandro Alex tenha sido custeado pelo Governo do Paraná. A própria Helisul afirma que não foi.
Mas o histórico acrescenta contexto a uma pergunta que continua sem resposta documental perante a reportagem.
A empresa mantém relações comerciais milionárias com o Estado, já recebeu R$ 616 mil da campanha de Ratinho Junior e agora afirma ter sido novamente contratada pelo PSD para transportar Sandro Alex.
Quanto o partido pagou desta vez?
A resposta cabe em uma nota fiscal, um contrato ou um comprovante de pagamento.
Até agora, nenhum deles foi apresentado à Gazeta do Paraná.
Créditos: Redação
