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Brasil vê na aliança com a China oportunidade para fortalecer soberania digital em inteligência artificial

Especialistas avaliam que participação em nova organização internacional pode ampliar autonomia tecnológica do país, desde que haja investimentos em infraestrutura e pesquisa

Por Gazeta do Paraná

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Brasil vê na aliança com a China oportunidade para fortalecer soberania digital em inteligência artificial Créditos: Ricardo Stuckert/PR

O Brasil passa a integrar um novo esforço internacional voltado ao desenvolvimento da inteligência artificial (IA). O país está entre as 29 nações que assinaram o documento de criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), iniciativa liderada pela China e anunciada em julho, com sede em Xangai. O objetivo é promover uma governança global da IA baseada em modelos de código aberto, permitindo que governos, universidades e empresas desenvolvam soluções tecnológicas de forma mais acessível.

A participação brasileira é vista por especialistas como uma oportunidade para fortalecer a soberania digital do país, reduzindo a dependência das grandes empresas de tecnologia e ampliando a capacidade nacional de pesquisa e inovação.

Para o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu da Silveira, o Brasil reúne condições favoráveis para ocupar uma posição estratégica no cenário internacional. Segundo ele, o país possui universidades e centros de pesquisa capazes de desenvolver tecnologia própria, mas precisa investir em infraestrutura computacional e armazenamento de dados.

O pesquisador argumenta que, sem uma estrutura nacional robusta, parte significativa dos recursos destinados à pesquisa continuará sendo direcionada ao pagamento de serviços de computação em nuvem oferecidos por empresas estrangeiras. Na avaliação dele, a cooperação internacional somente produzirá resultados duradouros se vier acompanhada do fortalecimento da capacidade tecnológica brasileira.

Outro especialista ouvido pela Agência Brasil, Ettore Arpini, fundador da organização Plures, destaca que o Brasil tem condições de atuar como um elo entre iniciativas lideradas pela China e pelos países ocidentais. Para ele, a inteligência artificial deve ser encarada não apenas como um tema tecnológico, mas como um fator estratégico para o desenvolvimento econômico, a competitividade e a inserção internacional do país.

A criação da Waico ocorre em um momento de disputa crescente entre China e Estados Unidos pela liderança global na inteligência artificial. Enquanto a iniciativa chinesa defende modelos abertos e uma governança internacional mais ampla, os Estados Unidos apostam na estratégia conhecida como Pax Silica, voltada ao fortalecimento de cadeias de suprimentos de semicondutores, minerais críticos e infraestrutura tecnológica entre países considerados aliados.

O governo brasileiro tem defendido uma posição de equilíbrio, afirmando que pretende dialogar com diferentes iniciativas internacionais sem ficar dependente de um único modelo tecnológico. Em fóruns multilaterais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido que a inteligência artificial seja desenvolvida sob uma governança global que envolva todos os países, evitando a concentração da tecnologia nas mãos de poucas empresas ou nações.

Durante o lançamento da Waico, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também reforçou a necessidade de uma governança internacional para a inteligência artificial. Segundo ele, a tecnologia representa uma das maiores oportunidades do século XXI, mas também pode gerar riscos significativos caso seu desenvolvimento permaneça concentrado em poucos atores globais.

Nesse cenário, especialistas avaliam que o principal desafio do Brasil será transformar sua participação em iniciativas internacionais em investimentos concretos em infraestrutura, pesquisa e formação de profissionais, garantindo maior autonomia tecnológica nos próximos anos.

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