Créditos: Geraldo Bubniak/AEN
Ratinho joga culpa de reajuste para Brasília enquanto Copel acumula queda na qualidade do serviço
Governador atribui aumento na conta de luz à Aneel, mas omitindo que sua gestão privatizou a estatal em 2023
Há decisões que o tempo trata de colocar à prova. Na política, discursos costumam envelhecer rápido quando encontram a realidade. O governador Ratinho Júnior (PSD) afirmou que o aumento na conta de luz não é responsabilidade do Governo do Paraná. Segundo ele, o reajuste é definido pelo governo federal, por meio da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e ocorre em todo o país.
"Nem a Copel, nem o Governo do Estado têm responsabilidade de aumentar energia. Quem aumenta é Brasília. Temos que respeitar porque não é um aumento só para o Paraná. O quilowatt-hora no Paraná continua entre os mais baixos do Brasil", declarou o governador.
Ratinho também atribuiu parte dos reajustes ao acionamento de usinas termelétricas, que elevam o custo da geração de energia, e afirmou que o Estado estuda medidas para discutir a tarifa de água por meio da Agepar.
Mas o governador parece esquecer que o consumidor não mede o desempenho de uma concessionária pelos discursos, mas pelo que acontece dentro de casa, na propriedade rural ou na empresa. Se a conta aumenta, a luz cai ou a produção para por falta de energia, o debate deixa de ser técnico e passa a ser cotidiano.
A afirmação, porém, conta apenas parte da história. Embora o reajuste da tarifa seja realmente definido pela Aneel, foi a própria gestão Ratinho Júnior que decidiu abrir mão do controle da Copel ao privatizar a companhia em 2023.
Ou seja, se o aumento da tarifa é decidido em Brasília, a decisão de vender a principal empresa de energia do Paraná foi tomada no Palácio Iguaçu.
Na época, o governo defendeu que a privatização era necessária para modernizar a empresa, ampliar investimentos e preparar a Copel para acompanhar o crescimento econômico do Estado. A operação movimentou R$ 5,2 bilhões, dos quais R$ 3,16 bilhões ficaram com o Governo do Paraná. Em troca, o Estado reduziu sua participação acionária de 31,1% para 15,65% e deixou de controlar a companhia.
"A Copel precisava ter uma modernização para que pudesse nos dar garantia de que, nesse crescimento que o Paraná vem tendo, teria energia suficiente para abastecer todos os investimentos que estão sendo gerados no nosso Estado", afirmou Ratinho durante a conclusão da operação.
Quase três anos depois, porém, os indicadores oficiais da Aneel mostram um cenário que contrasta com o discurso apresentado pelo governo.
Depois de quatro anos consecutivos de queda, a Copel encerrou 2024 como uma das três piores distribuidoras de energia elétrica do Brasil entre as concessionárias de grande porte. No ranking de Desempenho Global de Continuidade (DGC), utilizado pela Aneel para medir a qualidade dos serviços prestados, a empresa ficou na 29ª colocação entre 31 distribuidoras, superando apenas a CEE, do Rio Grande do Sul, e a Equatorial Goiás.
A deterioração dos indicadores ocorre de forma contínua. Em 2021, a Copel ocupava a 10ª posição no ranking nacional. Em 2022, caiu para a 22ª colocação. Em 2023, ano da privatização, passou para o 25º lugar. Já em 2024 despencou para a 29ª posição.
O índice leva em consideração dois fatores que afetam diretamente os consumidores: o tempo que cada unidade permanece sem energia (DEC) e a frequência das interrupções no fornecimento (FEC). Quanto piores esses indicadores, pior é a avaliação da distribuidora.
Os números chamam atenção porque seguem na direção oposta do restante do país. Enquanto a Aneel registrou melhora na qualidade média da distribuição de energia em 2024, com redução no tempo médio sem fornecimento e queda na frequência das interrupções, a Copel perdeu posições no ranking nacional.
Na prática, isso significa que, embora o reajuste tarifário seja definido pela Aneel e tenha alcance nacional, a qualidade do serviço prestado aos consumidores paranaenses se tornou um dos principais pontos de questionamento após a privatização.
As reclamações não se restringem às áreas urbanas. No campo, produtores rurais relatam prejuízos provocados por interrupções frequentes no fornecimento de energia, afetando diretamente o agronegócio paranaense, um dos principais setores produtivos do Estado. A falta de eletricidade compromete o funcionamento de aviários, granjas de suínos, sistemas de irrigação, ordenhas mecanizadas, tanques de resfriamento de leite e estruturas de armazenamento de alimentos.
Casos recentes ilustram o impacto direto dessas falhas. Já teve produtor perdendo 60 toneladas de tilápia em Cascavel, além de 707 frangos morreram em apenas 10 minutos em Sulina, no Sudoeste, devido à falta de energia. Cerca de 28 mil pedidos de indenização foram encaminhados à Copel por prejuízos causados por quedas de energia, mas pouco mais de 7 mil foram atendidos.
Representantes do agronegócio apontam que oscilações e interrupções no fornecimento elevam custos de produção, aumentam perdas e colocam em risco atividades que dependem de energia contínua, ampliando a preocupação com a qualidade do serviço.
Enquanto o governo tenta transferir para Brasília toda a responsabilidade pelo aumento da conta de luz, os consumidores paranaenses continuam convivendo com um serviço que perdeu qualidade nos últimos anos. No fim das contas, pouco importa para o cidadão quem assina o reajuste ou quem administra a concessionária. Quem paga a conta e sofre com as quedas de energia continua sendo o povo paranaense.
