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Prefeituras do Paraná já preveem mais de R$ 154 milhões em contratações de shows em 2026

Levantamento da Gazeta do Paraná nos dados abertos do TCE-PR revela dimensão dos gastos com atrações artísticas; valor ainda não inclui palco, som, iluminação, segurança e demais estruturas das festas

Por Gazeta do Paraná

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Prefeituras do Paraná já preveem mais de R$ 154 milhões em contratações de shows em 2026 Créditos: Divulgação


As prefeituras do Paraná já registraram mais de R$ 154 milhões em contratações de shows e apresentações artísticas em 2026. O número resulta de levantamento exclusivo da Gazeta do Paraná realizado a partir dos dados abertos do Mural de Licitações do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), em base atualizada em 22 de setembro de 2026.

A reportagem cruzou os registros de inexigibilidade de licitação relacionados diretamente à contratação de cantores, duplas, bandas e outras atrações artísticas. O levantamento permite reunir em um único retrato uma despesa que aparece pulverizada em centenas de processos abertos pelas administrações municipais.

E a conta é conservadora. Os mais de R$ 154 milhões não incluem, por exemplo, licitações específicas para palco, iluminação, sonorização, segurança, banheiros químicos, publicidade, montagem, desmontagem e outras estruturas utilizadas nas festas.

Na prática, portanto, o custo dos eventos públicos realizados pelos municípios paranaenses é superior ao montante identificado apenas nas contratações artísticas.

 

Artistas acumulam contratos milionários

Além do volume global, os dados mostram outro fenômeno: os mesmos artistas percorrem diferentes festas municipais ao longo do ano e acumulam contratos milionários com o poder público.

Entre os nomes que mais aparecem estão artistas ligados principalmente ao sertanejo, gênero que domina as grandes contratações identificadas no Mural.

Luan Pereira, por exemplo, possui seis contratações claramente individualizadas na base analisada. São R$ 315 mil em Ampére, R$ 320 mil em Guairaçá, R$ 370 mil em São João, R$ 200 mil em Jandaia do Sul, R$ 400 mil em São Jerônimo da Serra e R$ 370 mil em Carlópolis. Juntos, os contratos chegam a R$ 1,975 milhão.

Bruno & Marrone aparecem com dois cachês de R$ 780 mil, em Palmas e Andirá, totalizando R$ 1,56 milhão.

Maiara & Maraisa somam pelo menos R$ 1,328 milhão em contratos individualizados localizados no levantamento: R$ 674 mil em Apucarana e R$ 654 mil em Castro.

Já Guilherme & Benuto aparecem em Catanduvas, Pinhalão, Santa Terezinha de Itaipu e Ventania. Os quatro contratos somam R$ 1,395 milhão.

 

Leonardo ultrapassa R$ 2,5 milhões

Entre os cachês mais elevados está Leonardo. O cantor foi contratado por R$ 870 mil em Pitanga, R$ 850 mil em Almirante Tamandaré e R$ 780 mil em Sapopema. São R$ 2,5 milhões em três contratos individualizados.

Leonardo aparece ainda em uma contratação de Sengés que reúne seis atrações: Mateus & Kauan, Ícaro & Gilmar, Panda, Leonardo, Jiraya Uai e Natanzinho Lima. O pacote completo foi registrado por R$ 2,97 milhões.

A Gazeta não atribuiu esse valor a Leonardo nem aos demais artistas no ranking individual, porque o processo não informa, no objeto disponível na base, quanto dos R$ 2,97 milhões corresponde a cada atração.

O mesmo cuidado foi adotado em outros processos coletivos. A metodologia evita inflar artificialmente o montante atribuído a determinado artista.


Ana Castela soma R$ 2,45 milhões

Ana Castela aparece em três contratações individualizadas encontradas na base atualizada em 22 de setembro. São R$ 850 mil em Santa Terezinha de Itaipu, para a Fespop, R$ 800 mil em Palotina, para a Expo Palotina, e outros R$ 800 mil em Pitanga. O total chega a R$ 2,45 milhões.

A comparação entre cidades também evidencia diferenças nos cachês. Leonardo, por exemplo, varia de R$ 780 mil a R$ 870 mil nos três contratos individualizados encontrados.

Isso não significa, por si só, irregularidade. Data da apresentação, logística, deslocamento, duração do show e condições específicas da negociação podem influenciar o valor de cada contratação.

 

Ranking dos contratos

Considerando apenas os contratos em que foi possível atribuir com segurança o valor a uma atração específica, alguns dos maiores acumulados identificados pela Gazeta na base de 2026 são:

O ranking é parcial justamente porque a base contém contratações coletivas nas quais não é possível separar o cachê de cada artista. Nesses casos, a Gazeta preferiu não dividir arbitrariamente o valor nem atribuir a cada atração o preço integral do processo.


Fespop exemplifica tamanho da conta

Santa Terezinha de Itaipu mostra como diferentes cachês podem se acumular dentro de uma única festa.

Além dos R$ 850 mil destinados à contratação de Ana Castela, o Mural registra R$ 800 mil para Zezé Di Camargo & Luciano e outros R$ 800 mil para Nattan, todos para a Fespop. Só essas três apresentações chegam a R$ 2,45 milhões.

Em Pitanga, Leonardo e Ana Castela representam outros R$ 1,67 milhão. Em Santo Antônio da Platina, Alok aparece com R$ 955 mil e Zé Neto & Cristiano com R$ 795 mil, totalizando R$ 1,75 milhão em duas atrações.


E ainda falta montar a festa

O valor das atrações é apenas uma parte do custo. O próprio Mural de Licitações contém processos milionários para locação de equipamentos e estruturas de eventos. Palcos, sistemas de som e iluminação, camarins, geradores, arquibancadas, tendas, banheiros químicos, segurança e outros serviços podem ser contratados separadamente.

Esses valores não foram incorporados aos mais de R$ 154 milhões levantados pela Gazeta quando não era possível afirmar que correspondiam exclusivamente às apresentações artísticas.

A diferença é fundamental: um registro de preços para estruturas, por exemplo, pode atender diversos eventos ao longo do ano e seu valor máximo não necessariamente será integralmente executado.

 

TCE já apontou R$ 1,2 bilhão desde 2021

O volume encontrado pela Gazeta se insere em um movimento mais amplo já identificado pelo próprio Tribunal de Contas.

Em levantamento divulgado em agosto, o TCE-PR informou que os municípios paranaenses registraram aproximadamente R$ 1,2 bilhão em despesas com shows artísticos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026.

Naquele levantamento, que utiliza período e metodologia diferentes dos adotados nesta reportagem, Fernando & Sorocaba aparecem na liderança do acumulado, com R$ 18,1 milhões. Depois aparecem Guilherme & Benuto, com R$ 13 milhões; Ana Castela, com R$ 12,6 milhões; Maiara & Maraisa, com R$ 11,2 milhões; Luan Pereira, com R$ 11,1 milhões; Leonardo, com R$ 10,6 milhões; e Clayton & Romário, com R$ 10,4 milhões.

Os dois levantamentos não devem ser comparados diretamente. O estudo do Tribunal considera empenhos e abrange o período iniciado em 2021. A análise da Gazeta parte dos procedimentos registrados no Mural de Licitações referentes a 2026.

 

Conta de 2026 ainda pode aumentar

O retrato também está longe de representar necessariamente a conta definitiva do ano.

A base de dados abertos do TCE-PR utilizada pela Gazeta estava atualizada em 22 de setembro de 2026. Contratações que venham a ser registradas posteriormente, incluindo festas de aniversário de municípios e eventos de fim de ano, poderão elevar o montante.

Além disso, o valor registrado em um procedimento de contratação não significa necessariamente que todo aquele dinheiro já tenha sido efetivamente pago. Contratação, empenho, liquidação e pagamento correspondem a etapas distintas da despesa pública.

O levantamento permite, entretanto, dimensionar uma conta até então espalhada por centenas de processos: as contratações de shows já ultrapassam R$ 154 milhões no Paraná em 2026 — e esse valor sequer inclui tudo o que é necessário para montar a festa.

Metodologia
A Gazeta do Paraná realizou o levantamento a partir dos dados abertos do Mural de Licitações do Tribunal de Contas do Estado do Paraná, em base atualizada em 22 de setembro de 2026. O recorte considera procedimentos relacionados diretamente a apresentações e atrações artísticas e exclui registros cancelados e despesas gerais com estruturas quando não é possível vinculá-las exclusivamente aos shows. Nos acumulados por artista, processos com várias atrações e valor único não foram atribuídos individualmente. Os valores registrados nos procedimentos não significam necessariamente despesas já efetivamente pagas.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp