O que é fato e o que precisa de contexto nas declarações dos candidatos ao Governo do Paraná
Gazeta do Paraná verifica afirmações feitas na campanha e confronta dados, números e informações com fontes oficiais e documentos públicos
Por Ana Zimermann
Créditos: divulgações campanhas
Na reta final da campanha ao Governo do Paraná, números sobre impostos, educação, concessões rodoviárias, segurança pública e serviços essenciais passaram a ocupar espaço cada vez maior nas propagandas, entrevistas e redes sociais dos candidatos. A Gazeta do Paraná selecionou algumas das declarações recentes com maior potencial de verificação documental e interesse público. Foram priorizadas afirmações que apresentam números, rankings, comparações ou fatos que podem ser confrontados com informações oficiais. Promessas de governo, opiniões políticas e projeções sobre o futuro não foram classificadas. As conclusões abaixo se referem exclusivamente às afirmações analisadas, e não representam uma avaliação geral dos candidatos.
Sandro Alex: redução do IPVA beneficiou 4,1 milhões de veículos?
Em material divulgado pela campanha em 18 de setembro, Sandro Alex (PSD) afirmou que a redução da alíquota do IPVA de 3,5% para 1,9% tornou o imposto paranaense o menor do Brasil para veículos de passeio. O texto acrescenta que a medida “beneficiou uma frota de 4,1 milhões de veículos de cerca de 3,4 milhões de proprietários”.
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
A primeira parte da declaração encontra respaldo nos dados oficiais. A alíquota geral caiu de 3,5% para 1,9% em 2026, redução de aproximadamente 45%. O Detran-PR informou, quando a mudança foi sancionada, que o percentual colocaria o Paraná com a menor alíquota estadual de IPVA do país para os veículos abrangidos pela mudança. A divergência aparece no número de beneficiados. Dados da Secretaria de Estado da Fazenda informam que o Paraná possui pouco mais de 4 milhões de veículos/proprietários sujeitos à tributação, mas aproximadamente 3,4 milhões de veículos foram efetivamente alcançados pela nova alíquota de 1,9%. Assim, os 4,1 milhões mencionados pela campanha se aproximam do universo total tributado, e não do número de veículos beneficiados especificamente pela redução.
Sandro Alex: Paraná tem “a melhor educação da América Latina”?
Em material de campanha divulgado em setembro, Sandro Alex afirmou que o Paraná é atualmente reconhecido como tendo “a melhor educação da América Latina”.
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVA
A afirmação possui fundamento quando o parâmetro utilizado é especificamente o Pisa 2025. Na avaliação internacional, estudantes paranaenses obtiveram 461,6 pontos em Ciências, 458 em Leitura, 423,1 em Matemática e 467,4 em Resolução Computacional de Problemas. Nessas quatro áreas, as médias do Paraná ficaram numericamente acima das registradas pelos países latino-americanos participantes. Há, entretanto, uma diferença importante entre dizer que o Paraná teve desempenho superior no Pisa e afirmar genericamente que possui “a melhor educação da América Latina”.
O Pisa, coordenado pela OCDE, não é um ranking de todo o sistema educacional de uma região. A avaliação mede conhecimentos e habilidades de estudantes de aproximadamente 15 anos em áreas específicas. No Brasil, a aplicação de 2025 envolveu mais de 30 mil estudantes de uma amostra de escolas; internacionalmente, participaram 91 países e economias. O exame, portanto, não mede sozinho aspectos como educação infantil, infraestrutura escolar, formação docente, acesso ao ensino superior ou todos os demais componentes de um sistema educacional.
Conclusão: é correto afirmar que o Paraná superou os países latino-americanos participantes nas áreas comparáveis do Pisa 2025. Transformar esse resultado em “melhor educação da América Latina”, sem mencionar o Pisa e seu recorte, amplia o alcance do indicador.
Requião Filho: depois da privatização da Copel, “a luz ficou mais cara e o serviço piorou”?
Durante agenda em Palmas, em 21 de setembro, Requião Filho (PDT) declarou: “Venderam a nossa Copel, a luz ficou mais cara, o serviço piorou”.
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
Há elementos distintos na frase. A tarifa de energia efetivamente sofreu aumentos. Em abril, durante o processo de Revisão Tarifária Periódica de 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica calculava efeito médio de 19,20% para os consumidores da Copel. A própria ANEEL apontou como principais fatores para a alta os custos de transmissão, encargos setoriais e a retirada de componentes financeiros do processo tarifário anterior. Isso significa que a existência de aumento tarifário não comprova, por si só, que a privatização foi sua causa.
A segunda parte da afirmação — de que o serviço “piorou” — também exige cautela. No ranking de continuidade da ANEEL, que considera indicadores como duração e frequência das interrupções, a Copel ocupava a 22ª colocação entre as distribuidoras de grande porte em 2022, com DGC de 0,82. Em 2023, ficou em 25º, com 0,86, e em 2025 aparece na 27ª posição, com DGC de 0,84. A posição relativa piorou porque o ranking também depende do desempenho das demais distribuidoras. O indicador da Copel, porém, ficou em 0,84 em 2025, próximo dos 0,82 registrados em 2022. Portanto, os dados disponíveis não permitem resumir a evolução do serviço como uma deterioração linear e tampouco demonstram que eventuais mudanças tenham sido provocadas exclusivamente pela alteração no controle da companhia.
Conclusão: a energia ficou mais cara, mas os fatores tarifários apontados pela ANEEL não permitem atribuir automaticamente a alta à privatização. Já a afirmação genérica de que o serviço “piorou” não é demonstrada de maneira conclusiva pelos indicadores de continuidade.
Tayná Miessa: Paraná tem apenas 20 Delegacias da Mulher e é o 3º do país em feminicídios?
Durante entrevista exibida pela RPC, Tayná Miessa (UP) afirmou que o Paraná tem “apenas 20” delegacias especializadas para atender mulheres nos 399 municípios e declarou que o Estado seria o “3º com maior índice de feminicídio”.
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
A primeira informação está próxima do número atual, mas não corresponde ao cadastro vigente da Polícia Civil. A relação apresenta 21 Delegacias da Mulher, instaladas em cidades como Curitiba, Cascavel, Foz do Iguaçu, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Toledo e outras regiões do Estado. A segunda afirmação é mais problemática porque não informa qual ano nem qual indicador está sendo utilizado. Rankings de feminicídio podem mudar conforme se considere número absoluto de ocorrências, taxa por população feminina ou outro denominador.
Nos dados consolidados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública referentes a 2025, o Paraná registrou 87 feminicídios, contra 109 em 2024. A taxa divulgada foi de 0,73 por 100 mil habitantes, descrita nos dados estaduais baseados no Sinesp como uma das menores do país. Há metodologias que calculam a taxa apenas sobre a população feminina. O próprio monitoramento do Plano Plurianual do Paraná registra, por esse método, 1,43 caso por 100 mil mulheres em 2025. Isso reforça a necessidade de sempre indicar qual população e período são considerados. Dados parciais de 2026 mostram aumento das ocorrências no Paraná em comparação com o mesmo período anterior, mas isso não é suficiente, isoladamente, para sustentar a classificação do Estado como terceiro colocado nacional sem a identificação da base e da metodologia usadas.
Conclusão: o Paraná possui atualmente 21, e não 20, Delegacias da Mulher na relação oficial consultada. Já a afirmação de que o Estado ocupa o terceiro lugar nacional em feminicídios precisa de período e metodologia para ser comprovada e não encontra respaldo nos dados consolidados de 2025 utilizados nesta checagem.
Sergio Moro: El Salvador tem “a menor taxa de crimes da América Latina”?
Durante agenda de campanha em Apucarana, em 19 de setembro, material divulgado sobre as propostas de Sergio Moro (PL) afirmou que o candidato pretende construir um presídio estadual de segurança máxima denominado “Presídio El Salvador”, em referência ao país que teria atualmente “a menor taxa de crimes da América Latina”. O conteúdo também foi reproduzido a partir de material da assessoria da campanha.
CLASSIFICAÇÃO: SEM COMPROVAÇÃO COMO FORMULADA
El Salvador registrou uma forte redução nos homicídios ao longo dos últimos anos, fenômeno associado pelo governo de Nayib Bukele à política de repressão às gangues. A queda da violência homicida é documentada por diferentes fontes e é também o indicador que Moro costuma mencionar ao citar o país. O problema está na expressão “menor taxa de crimes”. Não há um único indicador internacional padronizado chamado “taxa de crimes” capaz de reunir homicídios, furtos, roubos, estupros, extorsões e outras infrações em uma classificação simples entre todos os países latino-americanos.
Bases internacionais normalmente fazem comparações por tipo de delito — sendo a taxa de homicídios intencionais uma das mais utilizadas por apresentar maior comparabilidade entre países. Portanto, uma eventual primeira colocação de El Salvador em determinado indicador de homicídios não significa automaticamente que o país possua a menor taxa de todos os crimes. Além disso, comparações internacionais consolidadas costumam ter defasagem temporal e precisam considerar diferenças nos sistemas de registro criminal.
Conclusão: a redução dos homicídios em El Salvador é documentada, mas a frase de que o país possui “a menor taxa de crimes da América Latina” é ampla demais e não vem acompanhada de indicador, período ou base de dados que permita comprová-la.
Adriano Funileiro: Dieese calcula salário mínimo de aproximadamente R$ 7,5 mil?
Em entrevista à RPC divulgada em 18 de setembro, Adriano Funileiro (PCO) disse: “A gente defende um salário-mínimo, por exemplo, de no mínimo R$ 7,5 mil, que é o salário defendido pelo Dieese”.
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVA
O valor apresentado pelo candidato é muito próximo do cálculo mais recente do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos disponível antes da declaração. Para agosto de 2026, o Dieese calculou que o chamado “salário mínimo necessário” deveria ser de R$ 7.565,86 para sustentar uma família de quatro pessoas, considerando despesas previstas constitucionalmente, como alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. Em julho, o cálculo havia sido de R$ 7.687,01.
A ressalva está na forma de apresentação. O Dieese produz mensalmente uma estimativa técnica do salário mínimo necessário, com base no custo da cesta básica e nas necessidades de uma família de quatro pessoas. Isso não é exatamente o mesmo que dizer que existe uma proposta formal da entidade para fixar o salário mínimo nacional em exatamente R$ 7,5 mil.
Conclusão: o valor citado é compatível com a estimativa do Dieese — R$ 7.565,86 em agosto —, mas deve ser descrito como o “salário mínimo necessário” calculado pela instituição, e não simplesmente como um piso formalmente proposto pelo órgão.
O que mostram as checagens
As declarações analisadas apresentam um padrão recorrente nesta reta final de campanha: muitas partem de números ou acontecimentos reais, mas algumas ampliam o alcance dos dados, misturam universo total com número de beneficiados, transformam indicadores específicos em rankings gerais ou estabelecem relações de causa e efeito que os documentos disponíveis não demonstram sozinhos.
É o que ocorre, por exemplo, quando o desempenho dos alunos paranaenses no Pisa é utilizado para caracterizar todo o sistema educacional latino-americano; quando o total da frota tributada é tratado como número de veículos beneficiados pela redução do IPVA; ou quando mudanças na tarifa e nos indicadores da Copel são atribuídas diretamente à privatização sem isolar outros fatores regulatórios.
Como a Gazeta checou
A Gazeta do Paraná consultou publicações das campanhas e entrevistas divulgadas nos últimos dias e confrontou as afirmações com dados disponíveis até 22 de setembro de 2026. Foram utilizadas informações da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Secretaria da Fazenda do Paraná, Detran-PR, Polícia Civil, Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública e Dieese, entre outras fontes documentais.
Créditos: Ana Zimermann
