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Novas revelações sobre Banco Master aumentam incertezas em torno da venda da Sercomtel

Reportagem aponta que recursos utilizados pelo Fundo Bordeaux para adquirir a antiga estatal londrinense teriam saído do Banco Master e retornado à própria instituição financeira; revelações podem fortalecer questionamentos judiciais sobre a legalidade da operação

Por Gazeta do Paraná

Novas revelações sobre Banco Master aumentam incertezas em torno da venda da Sercomtel Créditos: Divulgação

A privatização da Sercomtel, apresentada em 2020 como uma solução para a crise financeira da histórica operadora de telecomunicações de Londrina, voltou ao centro de uma das mais delicadas controvérsias empresariais do Paraná. Novas informações divulgadas pela CBN Londrina indicam que os R$ 130 milhões utilizados pelo Fundo Bordeaux para assumir o controle da companhia teriam sido originados no Banco Master e, posteriormente, retornado à própria instituição financeira.

A revelação acrescenta um novo capítulo a um caso que já vinha sendo cercado por dúvidas. Em março deste ano, a Gazeta do Paraná mostrou que a própria efetividade do aporte prometido pelo grupo de Nelson Tanure era alvo de questionamentos, levantando a hipótese de que o dinheiro apresentado como condição para a privatização poderia não ter ingressado efetivamente nos cofres da empresa.

Agora, os indícios de que a operação teria sido financiada com recursos ligados ao Banco Master, instituição que atualmente é alvo de investigações da Polícia Federal e de desdobramentos no Supremo Tribunal Federal, ampliam ainda mais as incertezas em torno da venda da antiga estatal.

Segundo a reportagem da CBN, documentos e informações reunidos pela Controladoria-Geral do Município de Londrina apontariam que o Fundo Bordeaux utilizou recursos provenientes do Banco Master para realizar a aquisição da Sercomtel. Mais do que isso, a apuração sustenta que, um dia após a conclusão da operação, os valores teriam retornado ao próprio banco por meio de aplicações financeiras.

Se confirmada, a situação levanta uma questão central: o aporte de R$ 130 milhões, apontado como peça-chave para a desestatização, teria sido uma efetiva injeção de recursos na companhia ou apenas uma movimentação financeira sem reflexos concretos para a empresa? A pergunta é tudo, menos trivial.

O aporte financeiro era um dos pilares da privatização. Foi justamente a promessa de capitalização da companhia que sustentou o discurso de que a venda permitiria recuperar a capacidade de investimentos da Sercomtel, modernizar a operação e garantir sua sobrevivência em um mercado cada vez mais competitivo.

Caso fique demonstrado que o dinheiro não permaneceu na companhia ou que a operação ocorreu apenas formalmente, a privatização poderá enfrentar novos e severos questionamentos jurídicos.

 

Ação popular ganha novo fôlego

As novas revelações tendem a fortalecer uma ação popular ajuizada ainda em 2020 pelo Movimento Popular Anticorrupção Por Amor a Londrina e pelo médico Lauro Brandão.

Na ocasião, os autores da ação questionaram diversos pontos da privatização, entre eles a falta de transparência no processo, a avaliação financeira da empresa e, principalmente, a capacidade econômica do Fundo Bordeaux para realizar o aporte prometido.

Embora a ação tenha sido rejeitada em primeira instância em 2021, ela aguarda julgamento de recurso no Tribunal de Justiça do Paraná. As novas informações podem alterar significativamente o cenário, especialmente se as suspeitas envolvendo a origem e a destinação dos recursos forem confirmadas.

Nos bastidores jurídicos, a avaliação é de que eventual comprovação de irregularidades no aporte poderá abrir espaço para novos questionamentos sobre o cumprimento das condições estabelecidas para a desestatização.

 

O “cheque sem fundo” que nunca deixou de assombrar a operação

As suspeitas agora divulgadas dialogam diretamente com informações já reveladas pela Gazeta do Paraná.

Em março, o jornal mostrou que documentos e informações levantavam dúvidas sobre a efetiva integralização dos R$ 130 milhões prometidos pelo Fundo Bordeaux. Na época, fontes ligadas ao caso chegaram a classificar a situação como um possível “cheque sem fundo” da privatização.

A expressão, embora dura, traduz a principal preocupação de críticos da operação: a possibilidade de que a venda tenha sido concluída sem que a contrapartida financeira anunciada tenha efetivamente chegado à companhia.

Na prática, caso isso seja comprovado, o principal argumento utilizado para justificar a privatização ficaria profundamente abalado.

 

Esvaziamento da companhia

As revelações também recolocam em discussão o destino da empresa após a privatização.

Nos últimos anos, diversos ativos da Sercomtel foram incorporados pela Ligga Telecom, companhia ligada ao grupo empresarial de Nelson Tanure. Houve transferência de ativos estratégicos, de operações e, mais recentemente, a negociação de licenças relacionadas ao 5G.

Críticos da desestatização afirmam que a antiga estatal foi gradativamente esvaziada, perdendo patrimônio e relevância operacional.

A avaliação é de que, se a promessa de investimentos já gerava dúvidas, o processo de transferência de ativos para outras empresas do grupo acaba alimentando ainda mais os questionamentos sobre os reais resultados da privatização.

 

Relação com o Banco Master permaneceu

As informações divulgadas pela CBN também indicam que a relação entre a Sercomtel e o Banco Master não se encerrou após a venda.

Documentos públicos apontam que, em 2023, o Conselho de Administração da empresa deliberou sobre a ampliação do limite de uma conta garantia mantida junto ao banco. Além disso, balanços patrimoniais registraram operações financeiras entre a companhia e a instituição.

Os registros sugerem que o vínculo entre a antiga estatal e o Banco Master permaneceu ativo mesmo anos após a conclusão da privatização.

 

O peso político do caso

As novas revelações surgem em um momento particularmente delicado para o Banco Master.

A instituição financeira tornou-se um dos principais focos de investigações que alcançaram empresários, operadores do mercado financeiro e personagens influentes da política nacional. O empresário Nelson Tanure aparece citado em investigações relacionadas ao caso, enquanto o banqueiro Daniel Vorcaro também se tornou alvo de medidas judiciais em desdobramentos da apuração.

Ambos negam irregularidades.

Ainda assim, a simples possibilidade de que recursos do Banco Master tenham sido utilizados na aquisição da Sercomtel e posteriormente retornado ao próprio banco tem potencial para produzir novos desdobramentos administrativos, judiciais e políticos.

 

Uma privatização novamente sob suspeita

Quase seis anos após ser apresentada como um marco para a recuperação da companhia, a venda da Sercomtel volta a ser cercada de dúvidas.

A suspeita de que o aporte prometido não tenha representado uma efetiva capitalização da empresa, a possível participação de recursos do Banco Master na operação e o posterior esvaziamento da antiga estatal formam um conjunto de fatos que poderá manter a privatização no centro do debate jurídico e político nos próximos meses.

No fim das contas, a pergunta que permanece sem resposta é simples: se o dinheiro anunciado como condição para a venda não chegou efetivamente à Sercomtel, o que exatamente foi vendido em 2020 e em quais condições esse negócio foi concretizado?

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp