Embate entre Renato Freitas e Ricardo Arruda leva Alep a discutir fim das explicações pessoais
Sessão foi marcada por acusações de corrupção, ataques pessoais, intervenção da deputada Ana Júlia e pode provocar mudanças no regimento interno da Assembleia
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Alep
A sessão da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) desta segunda-feira (22) entrou para a lista das mais tumultuadas da atual legislatura. O embate entre os deputados estaduais Renato Freitas (PT) e Ricardo Arruda (PL), motivado pelas recentes denúncias do Ministério Público do Paraná contra o parlamentar bolsonarista, extrapolou o debate político, descambou para ataques pessoais e terminou produzindo uma crise institucional que pode resultar até mesmo na extinção das chamadas explicações pessoais no plenário.
O confronto teve início quando Renato Freitas subiu à tribuna e utilizou o slogan “Deus, pátria e família” para criticar políticos que, segundo ele, defendem valores morais enquanto são investigados por crimes como enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e rachadinha.
“A fé em Deus, na religião cristã, que prega a simplicidade, a verdade e a honestidade, foi corroída pela ambição de quem está sendo acusado de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro”, afirmou.
Sem citar inicialmente o nome de Ricardo Arruda, o petista disse que há parlamentares que se apresentam como “bastiões da moral” e que agora estariam em silêncio diante das investigações. Pouco depois, passou a mencionar diretamente o colega de plenário, lembrando a operação realizada pela Polícia Federal em seu gabinete e as denúncias apresentadas pelo Ministério Público.
Em um dos momentos mais contundentes do discurso, Renato questionou a origem do patrimônio de Arruda. “É coisa de muitos milhões. Ganhando vinte mil por mês líquido? Não. Metendo a mão na cumbuca? Sim”, afirmou, desafiando os telespectadores a pesquisarem o caso no site do Ministério Público do Paraná.
O deputado também fez referência às viagens internacionais que, segundo as investigações, teriam sido custeadas com recursos provenientes do suposto esquema. “Por que os assessores dele pagaram hotéis, custas de viagem para Veneza, Pisa, Paris, para a Inglaterra? Uma Eurotrip paga com o dinheiro público?”, questionou.
“Hoje não, Arruda”
O clima de tensão já era perceptível antes mesmo de Ricardo Arruda iniciar sua defesa. Assim foi anunciado que o parlamentar teria a palavra nas explicações pessoais, ouviu-se no plenário a frase: “Hoje não, Arruda. Hoje não, Arruda”. A transcrição da sessão não permite identificar de forma inequívoca qual deputado fez a manifestação, mas o comentário acabou se transformando em uma espécie de prenúncio do embate que viria na sequência.
Defesa vira ataque
Nas explicações pessoais, Ricardo Arruda afirmou que construiu seu patrimônio antes de ingressar na política. O deputado relatou ter iniciado a carreira no sistema financeiro, alcançando a presidência de um banco privado aos 29 anos, e sustentou que toda a sua riqueza é fruto do trabalho na iniciativa privada.
“Eu tenho origem do meu dinheiro”, afirmou. “Todos os contratos que fiz foram declarados, todos documentados.”
Arruda também classificou as investigações do Ministério Público como uma “perseguição leviana” e afirmou que a denúncia recentemente apresentada “cairá por terra”.
“Essa última denúncia que fizeram em poucos dias cairá por terra. É uma denúncia infundada, leviana e fora da lei”, declarou.
A defesa, contudo, rapidamente assumiu um tom pessoal. O parlamentar mencionou o passado criminal do pai de Renato Freitas, afirmou que o petista seria “filho de um ex-presidiário” preso por tráfico de drogas e ainda insinuou o uso de drogas pelo colega de plenário.
“Não sei se usou drogas hoje ou não, mas tudo bem, vamos em frente”, disse.
Mais adiante, voltou a atacar o petista. “Eu tenho currículo, não tenho capivara”, afirmou.
A resistência de Ana Júlia
As declarações provocaram reações imediatas no plenário e levaram a deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT) a interromper diversas vezes a fala de Arruda. “Isso não faz parte de explicação pessoal. Ele está atacando outro deputado”, protestou a parlamentar.
Em outro momento, elevou o tom: “Isso é um absurdo, esse tipo de tratamento desse deputado. Esse que é o problema dessa Casa.”

As intervenções da deputada obrigaram Alexandre Curi a agir reiteradas vezes para tentar restabelecer a ordem. O presidente afirmou que Arruda estava exercendo sua autodefesa, mas advertiu que a palavra seria cassada caso ele passasse a atacar diretamente Renato Freitas. O episódio acabou evidenciando a dificuldade da Mesa Diretora em conter os ânimos em um debate que rapidamente deixou o campo político para ingressar no terreno pessoal.
“Eu não me envergonho das minhas raízes”
Ao retomar a palavra, Renato Freitas transformou os ataques recebidos em um discurso sobre sua própria trajetória.
“Eu não me envergonho das minhas raízes, de onde eu vim”, declarou.
Em seguida, fez questão de diferenciar a figura paterna de sua própria história, em uma das passagens mais marcantes da sessão.
“De fato, aquele que foi o meu genitor, cujo convívio eu não tive, foi preso, vivendo em condições que o levaram, junto com suas próprias escolhas, para os cárceres”, afirmou.
O parlamentar relembrou ter sido criado apenas pela mãe, em uma ocupação em Piraquara, e ter começado a trabalhar ainda adolescente como empacotador de supermercado.
“Você pode dizer do meu pai, pode dizer que eu sou pobre, que eu ouço funk ou que eu fumo maconha, mas o senhor nunca vai poder dizer que eu saqueio, que eu roubo do contribuinte”, afirmou.
Na sequência, voltou a citar as denúncias apresentadas pelo Ministério Público.
“O senhor, deputado Ricardo Arruda, de acordo com denúncia do Ministério Público do Estado do Paraná, cometeu uma série de crimes, entre eles lavagem de dinheiro, concussão, rachadinha e formação de quadrilha”, declarou.
Crise institucional
O clima de tensão foi tamanho que o presidente Alexandre Curi anunciou que os líderes partidários irão discutir mudanças no regimento interno da Assembleia. Entre as possibilidades estão a redução do tempo destinado às explicações pessoais e até mesmo a extinção do instrumento.
“Nós vamos reunir os líderes para rever as explicações pessoais e ou diminuir o tempo ou acabar com as explicações pessoais”, afirmou.
O deputado Luiz Cláudio Romanelli (PSD) também defendeu mudanças, argumentando que o espaço se transformou em um “horário de ataques pessoais”. “Olhar as explicações pessoais desta Casa virou horário de ataques pessoais. Isso não tem o menor cabimento”, afirmou.

Criadas para que os parlamentares pudessem esclarecer fatos relacionados ao exercício do mandato, as explicações pessoais acabaram se tornando, nos últimos anos, um dos principais palcos de confrontos políticos da Assembleia. A sessão desta segunda-feira, contudo, elevou o desgaste a um novo patamar, expondo uma Casa dividida, em meio a denúncias de grande repercussão e agora diante da possibilidade concreta de alterar uma de suas mais tradicionais ferramentas regimentais.
Créditos: Redação
