Créditos: Carla Carniel
“Não era para estar voando”: documentário do Globoplay revela relatos sobre avião da Voepass
Documentário que estreou no Globoplay reúne relatos de ex-funcionários e familiares e apresenta novas informações sobre a queda que matou 62 pessoas em 2024.
O documentário “Voepass 2283 - A Queda”, que estreou nesta sexta-feira (7) no Globoplay, reúne depoimentos de ex-funcionários da companhia aérea e familiares das vítimas do acidente que matou 62 pessoas em agosto de 2024. A aeronave, que fazia a rota entre Cascavel e Guarulhos, em São Paulo, caiu em Vinhedo (SP).
Entre os relatos apresentados pela produção estão acusações de problemas recorrentes na frota, falhas de manutenção e uma rotina operacional que, segundo antigos funcionários, já despertava preocupação antes da tragédia.
Um ex-técnico da Voepass, que não teve a identidade revelada, afirmou que reconheceu imediatamente a aeronave envolvida no acidente quando soube da queda. O avião, de matrícula PS-VPB, era identificado internamente pelo código “Papa Bravo”, seguindo o alfabeto fonético utilizado na aviação.
Segundo ele, a aeronave apresentava problemas frequentes.
“Era considerada muito problemática. Tinha muito vazamento hidráulico, toda hora era pane elétrica, pane de altímetro. Vira e mexe uma pane diferente”, relatou.
O copiloto Humberto Alencar, que morreu no acidente, também demonstrava preocupação com a aeronave, segundo a viúva, Rosana Maria Ferreira. De acordo com ela, o profissional costumava chamá-la de “Maria da Fé” e dizia que precisava intensificar as orações quando iria trabalhar naquele avião.
Outro ex-piloto da companhia, Luiz Cláudio de Almeida, afirmou que a aeronave também era conhecida entre funcionários pelo apelido de “sauna”. Segundo ele, problemas no sistema de climatização faziam com que a temperatura dentro da cabine chegasse a 38°C.
A situação teria sido percebida por passageiros pouco antes do acidente. Um dia antes da queda, pessoas que estavam em um voo entre São Paulo e Rio Verde (GO) relataram calor intenso dentro da aeronave. A jornalista Daniela Arbex também registrou situação semelhante em um voo entre Ribeirão Preto (SP) e Guarulhos realizado no mesmo período, segundo o documentário.
Para Almeida, os problemas da companhia eram conhecidos internamente e provocavam preocupação entre funcionários.
“A maior preocupação em todos os grupos de funcionários era de que iria acontecer alguma coisa muito grave na empresa. Todo mundo falava, todo mundo conversava no café da manhã, almoço e jantar. Vai acontecer, vai dar merda”, afirmou.
Dano estrutural antes da queda
Meses antes do acidente, em março de 2024, o avião PS-VPB havia sofrido um dano estrutural durante um pouso em Salvador (BA).
Um relatório oficial citado na produção apontou problemas no sistema hidráulico durante o voo e classificou o pouso como um “contato anormal” da aeronave com a pista.
Almeida, que participou posteriormente do reparo, afirmou que o impacto provocou danos significativos.
“Foi um estrago, porque eu participei desse reparo. Foi feio. Todo mundo falava: ‘Esse avião não era para estar voando’.”
O ex-piloto também relatou problemas no sistema de degelo da aeronave. Segundo ele, o equipamento apresentou falhas em diferentes momentos e não funcionava adequadamente.
“Todo comandante que ia voar aquele avião já sabia que não estava funcionando”, disse.
Almeida contou ainda que costumava fazer a rota entre Guarulhos e Cascavel e que deixou de operar determinados voos após desentendimentos com o piloto Danilo Romano, que estava no comando da aeronave no momento do acidente.
Segundo o ex-piloto, ele teria alertado Danilo sobre problemas durante os voos e discordado da maneira como algumas situações eram conduzidas.
“Eu alertava o Danilo de diversas situações no voo, ele não se deu bem nessa situação comigo e pediu para eu ser retirado do voo”, relatou.
Outros aviões também apresentavam problemas
Os depoimentos do documentário não se limitam ao avião que caiu em Vinhedo.
A ex-comissária Eloá Belarmino afirmou que outras aeronaves da companhia também apresentavam problemas e eram alvo de preocupação entre os funcionários.
Segundo ela, havia situações envolvendo poltronas, trem de pouso, pneus e compartimentos de bagagem.
“A gente sempre pousava assim: ‘Graças a Deus, deu certo’. Era sempre uma oração.”
Eloá afirmou que os funcionários tinham a percepção de que os problemas não estavam concentrados em uma única aeronave.
“A gente costumava falar que só não sabia o dia e a hora, com quem seria e qual seria o avião, porque era uma roleta-russa.”
O copiloto Humberto Alencar também teria demonstrado preocupação com as condições da frota. Segundo a produção, ele enviou um áudio a um colega no qual reclamava das condições dos aviões e defendia a modernização da frota.
O ex-piloto Heron Azulay, que trabalhou na Voepass entre 2019 e 2023, foi ainda mais direto ao falar sobre o cenário que encontrou na empresa.
“Eu sabia que aconteceria um acidente. Faltava pouca coisa. Já tinha a fórmula do bolo pronta, só faltava colocar no forno”, afirmou.
Azulay também relatou problemas no sistema de degelo de outras aeronaves da empresa.
“Eu não confiava no sistema de degelo da aeronave da empresa porque não funcionava em 90% das aeronaves lá.”
O ex-piloto fez ainda críticas aos procedimentos utilizados em reparos. Segundo ele, nem sempre eram empregados materiais previstos pelo fabricante.
“O reparo não era feito com material do fabricante, que é o previsto para o reparo. Faziam com um qualquer lá, que não segurava.”
Cultura interna é abordada no documentário
A diretora do documentário, Clarissa Cavalcanti, afirmou que a produção buscou apresentar não apenas as circunstâncias do acidente, mas também os relatos de pessoas que trabalhavam na companhia e de familiares das vítimas.
Segundo ela, conseguir os depoimentos exigiu semanas de contato com ex-funcionários e familiares.
A diretora afirmou que muitos antigos trabalhadores tinham receio de falar publicamente sobre o período em que trabalharam na empresa.
Para Clarissa, os depoimentos ajudam a contextualizar uma possível cultura interna de não registro de problemas.
“Era uma cultura da empresa, não era só aquele avião que caiu que estava com problema. O acidente acabou escancarando um problema muito maior.”
A produção também reúne especialistas em aviação, investigadores e autoridades envolvidas na apuração do acidente.
A diretora afirmou que a intenção foi oferecer diferentes perspectivas sobre o caso para que o público possa compreender a sequência de acontecimentos.
“O documentário consegue dar uma visão um pouco mais ampla. As pessoas vão conseguir juntar mais as informações, entender quem são os atores da história, quem são os personagens, ouvir especialistas, investigadores e tirar as próprias conclusões também.”
Investigações apontaram falhas na companhia
As revelações apresentadas no documentário ocorrem após diferentes investigações sobre o acidente.
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apontou, entre os fatores relacionados à queda, aspectos ligados à manutenção da aeronave e à cultura organizacional da companhia.
O relatório também mencionou condições meteorológicas adversas, falta de atenção da tripulação e falhas na aplicação de comandos pelos pilotos.
A Polícia Federal também investigou o caso e indiciou 16 pessoas, entre funcionários e executivos da empresa. Entre os indiciados estão o proprietário da companhia, José Luiz Felicio Filho, e o então diretor de manutenção, Eric Cônsoli.
O então CEO Eduardo Busch não foi indiciado. Segundo a investigação, sua atuação estava concentrada em resultados financeiros e recursos humanos, sem ingerência técnica nas decisões operacionais e de manutenção.
Em 2025, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) cassou definitivamente o Certificado de Operador Aéreo da Voepass. Com a decisão, as operações comerciais da empresa no país foram encerradas.
A história das vítimas
Além dos relatos de ex-funcionários, “Voepass 2283 - A Queda” apresenta depoimentos de familiares das 62 pessoas que morreram no acidente.
Para a diretora Clarissa Cavalcanti, a dimensão humana é um dos principais elementos da produção.
Ela afirma que o documentário também aborda o luto dos familiares e a busca por respostas e responsabilização após a tragédia.
“A gente consegue um olhar muito humano dessas pessoas que perderam parentes ali no acidente e que conseguiram se reerguer e transformar o luto numa luta por justiça, contra a impunidade.”
O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024, quando o avião da Voepass caiu em uma área residencial de Vinhedo, no interior de São Paulo. A aeronave havia partido de Cascavel com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Nenhuma das 62 pessoas que estavam a bordo sobreviveu.
O documentário produzido pelo jornalismo da Globo já está disponível no Globoplay e é dividido em três episódios. A produção reúne familiares das vítimas, ex-funcionários da Voepass, investigadores, especialistas em aviação e autoridades que participaram das apurações sobre a queda.
