MP investiga suspeita de fura-fila na saúde em Cornélio Procópio
Inquérito apura manipulação de agendamentos no SUS e possível favorecimento político dentro da Secretaria de Saúde
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação Prefeitura
O Ministério Público do Paraná abriu um inquérito civil para investigar suspeitas de manipulação de consultas e exames no sistema público de saúde de Cornélio Procópio. A investigação mira duas servidoras comissionadas da Secretaria Municipal de Saúde, sob suspeita de participação em um esquema de favorecimento indevido conhecido como “fura-fila do SUS”.
A portaria que instaurou o procedimento aponta indícios de irregularidades na liberação de exames, consultas especializadas e até insumos como cadeiras de rodas e bolsas de colostomia. Segundo o documento, o suposto objetivo seria beneficiar parentes e pessoas ligadas a grupos políticos locais, em detrimento da fila regular do sistema público.
Entre as investigadas está a servidora Pollyanna Delmonico Gomes, ocupante de cargo comissionado na Secretaria de Saúde desde março de 2025. Ela exerce função de assessoramento intersetorial, com carga horária de 40 horas semanais e remuneração em torno de R$ 3,5 mil.
Auditoria interna e números do caso
O inquérito teve origem em denúncia anônima, posteriormente reforçada por depoimento de uma testemunha considerada central pelo Ministério Público. A ex-diretora de agendamentos da pasta, Wanessa Valentin Ferreira, afirmou ter identificado irregularidades em outubro de 2025, ao perceber agendamentos feitos fora do fluxo normal do sistema.
De acordo com o relato, uma auditoria interna revelou que agendamentos estavam sendo realizados por pessoas que não tinham autorização para operar o sistema. O levantamento preliminar aponta cerca de 15 agendamentos atribuídos a Pollyanna e aproximadamente 30 a outra servidora investigada, Karen Joyce Cardoso de Oliveira.
A testemunha afirmou ainda que parte dos beneficiados seriam parentes das próprias servidoras, o que agravaria o caráter das irregularidades.
Suspeita de favorecimento político
A denúncia inicial menciona ainda a possibilidade de uso político da estrutura da saúde, com distribuição direcionada de procedimentos e benefícios para gerar capital eleitoral. Vereadoras da cidade são citadas no relato inicial, embora a testemunha ouvida formalmente pelo Ministério Público tenha declarado não ter confirmação direta do envolvimento delas.
Mesmo assim, o inquérito mantém a apuração aberta quanto à eventual participação de terceiros, incluindo agentes políticos.
Pressão interna e possível abafamento
Um dos pontos mais sensíveis do caso diz respeito ao que o Ministério Público descreve como possível tentativa de contenção interna das denúncias. Segundo a testemunha, após levar as irregularidades ao conhecimento da gestão da secretaria, teria recebido orientação para que o caso fosse tratado apenas administrativamente, sem comunicação ao Ministério Público.
O relato atribui essa orientação à cadeia decisória interna da prefeitura, incluindo o setor jurídico municipal. Para o promotor responsável, a eventual tentativa de impedir a comunicação ao MP pode configurar agravante relevante, por sugerir obstrução de controle institucional.
Fila de espera amplia gravidade
A portaria também contextualiza a investigação em um cenário mais amplo de crise na saúde pública local. Uma ação civil pública em andamento aponta a existência de mais de três mil pacientes aguardando atendimento na fila do sistema municipal.
Nesse contexto, a suspeita de manipulação deliberada de agendamentos ganha maior gravidade, por indicar possível desvio de finalidade em um serviço público essencial e de caráter universal.
Próximos passos
Como primeira diligência formal, o Ministério Público marcou o depoimento da secretária municipal de Saúde para março. A oitiva deverá esclarecer o que a gestão sabia sobre as irregularidades e quais providências foram adotadas.
O inquérito civil pode resultar em diversas medidas, que vão desde recomendações administrativas até eventual ação civil pública por improbidade ou danos coletivos, dependendo da consolidação das provas.
Procurada, a Prefeitura de Cornélio Procópio ainda não se manifestou sobre o teor das investigações até a publicação desta reportagem.
Créditos: Redação
