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WhatsApp do crime: Mensagens vazadas revelam rotina e Créditos: Reprodução Redes Sociais

WhatsApp do crime: Mensagens vazadas revelam rotina e "gestão empresarial" do Comando Vermelho

Relatórios de vendas, monitoramento da polícia e punições internas: conteúdo obtido pelo EXTRA detalha o funcionamento das "firmas" e a execução de gerente filho de policial militar

Mais de 2,3 mil mensagens trocadas em um grupo de WhatsApp formado por gerentes do tráfico ligados ao Comando Vermelho revelam detalhes da rotina de funcionamento das chamadas “bocas de fumo” em uma comunidade do Rio de Janeiro. O conteúdo mostra como eram feitos o controle financeiro, a divisão de tarefas, o monitoramento de ações policiais e a manutenção da hierarquia interna da organização criminosa.

O material, obtido pelo jornal EXTRA, abrange o período entre 8 de agosto e 2 de dezembro de 2025 e veio à tona após a divulgação da história de um jovem de 24 anos, identificado como Breno Barbosa Diniz, morto por integrantes do próprio grupo criminoso na Cidade de Deus.

De acordo com as mensagens, os gerentes utilizavam o grupo para prestar contas das vendas realizadas em pelo menos dez pontos de comercialização de drogas na comunidade. Os relatórios eram feitos duas vezes ao dia, geralmente nos horários de troca de turno.

Os responsáveis seguiam um padrão estabelecido pelo próprio Breno, que ocupava função de liderança. Cada registro incluía o tipo de droga comercializada, o peso, o valor e a quantidade vendida. Em uma das mensagens, ele orienta os integrantes a padronizarem os dados para facilitar a identificação dos preços praticados.

As conversas indicam que os pontos de venda eram identificados por nomes específicos e tratados como “firmas”. Já os usuários eram chamados de “fregueses”. Em uma das mensagens, um dos integrantes orienta que clientes fossem direcionados a outro ponto caso determinada “firma” ainda não estivesse em funcionamento.

Outro termo recorrente nas conversas é “camisas choradas”, utilizado para se referir ao volume total de vendas registrado no dia. Também aparece a expressão “Cidade dos Porcos”, usada pelos criminosos para mencionar a Cidade da Polícia, localizada no bairro do Jacaré.

Além do controle financeiro, o grupo discutia horários de funcionamento e troca de turnos. Em uma das mensagens, Breno estabelece intervalos que variavam entre 8h e 22h. Em outra conversa, um dos participantes cobra rigor na prestação de contas e ameaça aplicar punições financeiras em caso de falhas.

As mensagens também mostram o papel de liderança exercido por Breno, que era responsável por coordenar as vendas em diversos pontos e acompanhar a movimentação policial na região.

Segundo relatos reunidos durante a investigação, o jovem foi posteriormente acusado pelos próprios criminosos de ser informante, o que teria motivado sua morte. Um mês após o desaparecimento, integrantes do tráfico teriam realizado uma comemoração, associada por moradores ao assassinato.

No mesmo dia, um ferro-velho que pertencia ao jovem dentro da comunidade foi incendiado. De acordo com o Centro de Operações Rio, o incêndio foi controlado rapidamente e não houve registro de feridos ou bloqueios na via.

Desde o desaparecimento, o pai de Breno, um sargento da Polícia Militar, busca informações sobre o paradeiro do corpo. A Polícia Civil trata o caso como homicídio e ocultação de cadáver.

Moradores relataram ainda que, após o crime, criminosos passaram a fazer ameaças para impedir qualquer menção ao nome do jovem. Segundo os depoimentos, quem comentasse o caso poderia sofrer represálias semelhantes, em referência ao chamado “tribunal do tráfico”.

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