Mais de 900 candidatos mudaram declaração de cor ou raça entre 2022 e 2026
Levantamento aponta 909 alterações em registros do TSE; mudanças entre as categorias parda e branca representam 70,3% dos casos
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Paulo Pinto/Agência Brasil
Mais de 900 candidatos que disputaram as eleições de 2022 e voltaram a concorrer em 2026 alteraram a declaração de cor ou raça apresentada à Justiça Eleitoral. Levantamento com base nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), identificou 909 mudanças entre 6.315 candidatos analisados, o equivalente a 14,4% do total.
A maioria, 5.406 candidatos, ou 85,6%, manteve a mesma declaração nos dois pleitos. Entre os que mudaram, as alterações mais frequentes ocorreram entre as categorias branca e parda. Foram 322 candidatos que passaram de parda para branca e 317 no sentido contrário, de branca para parda. Juntas, as duas mudanças representam 639 casos, ou 70,3% de todas as alterações.
O levantamento considerou candidatos que concorreram nas duas eleições e cujos registros permitiam uma comparação. Os dados foram cruzados pelo CPF entre as eleições de 2022 e os pedidos de registro de candidatura de 2026 disponíveis no TSE. Foram consideradas as categorias branca, preta, parda, amarela e indígena. Registros como “não informado” ou “não divulgável” foram excluídos.
A alteração da declaração, entretanto, não significa, por si só, que exista fraude ou irregularidade. Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que diferentes fatores podem explicar as mudanças, desde erros de preenchimento até transformações na forma como uma pessoa se identifica racialmente.
A socióloga Flávia Rios, professora da Universidade de São Paulo e pesquisadora do núcleo Afro-Cebrap, afirma que oscilações desse tipo já foram observadas em eleições anteriores. Segundo ela, embora a declaração seja considerada autodeclaração, a estrutura partidária pode participar do processo de registro e influenciar a informação apresentada.
“Apesar de ser autodeclaração, às vezes não é o próprio candidato que faz a classificação. A burocracia partidária faz essa mediação e, por isso, pode gerar essas inconsistências”, explicou.
Ana Cláudia Santano, doutora em Ciências Jurídicas e Políticas e coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, também ressalta que a mudança isolada não permite concluir que houve irregularidade. Entre as possibilidades estão erro de preenchimento, uma mudança na percepção da própria identidade ou decisões motivadas por razões práticas.
Considerando pretos e pardos como população negra, 325 candidatos passaram de uma declaração branca ou amarela para preta ou parda. No caminho inverso, 332 fizeram a mudança de preta ou parda para branca ou amarela. Outros 224 candidatos alteraram a classificação dentro das categorias consideradas negras: 132 passaram de preta para parda e 92, de parda para preta.
Entre os 909 candidatos que mudaram a declaração, a categoria parda passou a ser a mais comum em 2026: 452 candidatos, ou 49,7% do total. Outros 339 passaram a ser classificados como brancos, 98 como pretos, 11 como amarelos e nove como indígenas.
A pesquisadora Flávia Rios avalia que políticas públicas baseadas em critérios raciais podem influenciar a forma como algumas pessoas se declaram, mas afirma que o crescimento da identificação como preta ou parda é anterior às atuais regras de financiamento eleitoral.
Entre os partidos, considerando a legenda pela qual cada candidato disputa a eleição de 2026, o Republicanos lidera em números absolutos, com 74 mudanças. Em seguida aparecem MDB, com 67; PL, com 66; Podemos, com 57; e PSDB e PSD, ambos com 53.
Os números mostram, portanto, que a autodeclaração racial dos candidatos não é necessariamente estática. A alteração pode refletir mudanças individuais ou até questões relacionadas ao próprio processo de registro das candidaturas. Por isso, especialistas alertam que os dados devem ser analisados com cautela e que não é possível atribuir uma causa única às 909 mudanças identificadas entre as duas eleições.
