Copel Horta

Lula estuda tarifa zero para transporte coletivo com modelo inspirado em proposta de Haddad em 2012

Modelo original previa gratuidade do transporte coletivo urbano financiada por um subsídio cruzado: uma taxa de R$ 1 por litro de gasolina custearia a tarifa

Por Gazeta do Paraná

Lula estuda tarifa zero para transporte coletivo com modelo inspirado em proposta de Haddad em 2012 Créditos: Secom

A pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), técnicos do governo federal iniciaram estudos para reduzir ou até zerar a tarifa do transporte público coletivo no Brasil. A iniciativa busca resgatar o teor de uma proposta apresentada em 2012 pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, à presidente Dilma Rousseff, que não gerava impacto sobre o resultado fiscal primário. As informações são do Jornal Valor.

Lula teria tomado conhecimento da proposta de Haddad e determinou novos estudos sobre a viabilidade da medida. O modelo original previa a gratuidade do transporte coletivo urbano financiada por um subsídio cruzado: uma taxa de R$ 1 por litro de gasolina custearia a tarifa zero. A lógica era que o transporte privado, mais poluente e intensivo em recursos, subsidiaria o coletivo, gerando efeitos sociais e ambientais positivos, como a redução do uso de veículos particulares e a ampliação do poder de compra da população mais pobre.

O cenário de 2012 favorecia a proposta, uma vez que o preço da gasolina era mais baixo, tornando o financiamento menos oneroso. Atualmente, a adaptação do modelo à realidade econômica é mais complexa, mas equipes técnicas do Ministério da Fazenda e do Planalto continuam a discutir alternativas. Ainda não há garantia de implementação em 2026, e o debate pode se estender ao próximo governo.

O presidente discutiu a medida com o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), defensor da tarifa zero universal, que apresentou dados sobre a queda no número de passageiros e falhas no modelo atual de financiamento. Um auxiliar relatou ao governo que tarifas mais altas aumentam o custo do transporte, reduzem o número de usuários e pressionam por novas elevações, criando um “círculo vicioso”.

“Depois da pandemia, mais de 40% das pessoas deixaram de fazer viagens no sistema de transportes coletivos. Isso é um problema crônico”, observou Tatto.

Embora a defesa de Tatto seja pela gratuidade total, a equipe técnica estuda alternativas graduais, como a implementação inicial apenas aos domingos e feriados. Segundo interlocutores, o objetivo principal seria beneficiar trabalhadores que dependem do transporte público, ainda que cenários parciais também tenham sido analisados como medida de teste.

“Cabe a gente ajudar o governo federal com propostas concretas, bem como viabilizar o recurso disso e o funcionamento disso. Criar um sistema nacional de mobilidade, um sistema único de mobilidade”, resumiu Tatto.

Estratégias políticas do governo indicam que a proposta poderia ser implementada a poucos meses das eleições de 2026, funcionando como sinal de atenção tanto a movimentos sociais quanto ao setor de transportes. Experiências municipais, como a do “Domingão Tarifa Zero” em São Paulo, mostram que programas semelhantes são viáveis: desde dezembro de 2023, passageiros têm gratuidade aos domingos e feriados, com impacto direto na arrecadação municipal, estimada em R$ 283 milhões até março deste ano, e em indicadores de inflação. Em Cascavel, o prefeito Renato Silva implementou a tarifa zero em domingos neste ano.

Cálculos da Terra Investimentos indicam que a gratuidade parcial poderia reduzir o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA): no caso de ônibus urbanos, a queda seria de 0,11 ponto percentual aos domingos e 0,28 ponto percentual se incluísse também os sábados. Se estendida a metrôs e trens, o impacto seria de 0,12 ponto percentual aos domingos e 0,31 ponto percentual aos finais de semana. Atualmente, 154 cidades brasileiras já adotam alguma forma de gratuidade no transporte coletivo, das quais 127 oferecem passe livre universal e diário.

Segundo especialistas, para que a política seja efetiva, seria necessária a combinação da gratuidade com investimentos em frota, infraestrutura e qualidade do serviço. A proposta de Haddad, caso implementada de forma calibrada, poderia integrar justiça social, eficiência urbana, sustentabilidade ambiental e estabilidade de preços em um único programa, sem gerar custo fiscal adicional, fortalecendo o transporte coletivo como prioridade em relação ao transporte individual.

O presidente Lula, segundo participantes de reuniões ministeriais, demonstrou entusiasmo com a ideia, citando experiências como a de Maricá (RJ), que mantém transporte gratuito desde 2014, e Campinas (SP), que adotou redução tarifária aos domingos nos anos 1990. Apesar das dificuldades orçamentárias apontadas, Lula teria solicitado que Haddad apresentasse cálculos detalhados, reforçando o interesse em viabilizar a medida.

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