Leia Paraná: como funciona a plataforma de leitura digital que concentra milhões em contratos e impõe metas a professores e alunos
Contrato do Leia Paraná começou em R$ 7,9 milhões, teve aditivos, reajustes e prorrogações e já soma cerca de R$ 12 a R$ 13 milhões pagos, com valor global atualizado que pode chegar a R$ 18,1 milhões até 2026
Créditos: Gazeta do Paraná
Contratada pelo governo do Paraná como uma política de incentivo à leitura, a plataforma Leia Paraná funciona, na prática, como uma espécie de Kindle institucional: um ambiente digital no qual estudantes da rede estadual acessam livros, realizam leituras obrigatórias e têm seu desempenho acompanhado em tempo real. Por trás da proposta pedagógica, porém, há um contrato milionário, sucessivos aditivos e um modelo de monitoramento que atinge alunos, professores, escolas e núcleos regionais de educação.
O serviço é operado pela empresa Primasoft Informática Ltda., contratada pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Fundada em 1993 e sediada em São José dos Campos (SP), a empresa tem capital social declarado de R$ 9,8 milhões e atua nas áreas de desenvolvimento de softwares, licenciamento de sistemas e tratamento de dados.
O que é o Leia Paraná
Na plataforma, os estudantes recebem acesso a um acervo digital de livros e passam a ter sua evolução de leitura monitorada. O sistema registra tempo de leitura, páginas acessadas, ritmo, finalização de obras e desempenho em atividades associadas.
Além da leitura, os alunos precisam responder a questionários vinculados aos livros, com perguntas estruturadas no padrão do SAEB, mas contextualizadas à obra lida. Esses dados alimentam indicadores utilizados pela Secretaria da Educação para avaliar engajamento e desempenho.
O acervo, no entanto, é alvo de críticas. Professores relatam que obras cobradas nos vestibulares das universidades estaduais do Paraná não estão disponíveis, enquanto títulos de autoajuda aparecem com destaque. Um dos exemplos citados recorrentemente é “Pai Rico, Pai Pobre”. “Alunos lendo livros de autoajuda. Qual universidade vai pedir isso no vestibular?”, questiona uma professora da rede em grupo de discussão profissional.
Monitoramento centralizado e os ‘embaixadores’
Os dados gerados pela plataforma não ficam restritos ao ambiente do aluno. Eles são acompanhados pela própria Secretaria da Educação, por meio dos Núcleos Regionais de Educação (NREs), utilizando sistemas de Business Intelligence (BI), que permitem visualizar índices por aluno, escola, núcleo e até por professor.
Para operacionalizar esse acompanhamento, a Seed retirou professores da sala de aula — majoritariamente de Língua Portuguesa — para atuar como “embaixadores” da plataforma. Esses docentes acumulam a função de monitorar o Leia Paraná e também a plataforma Redação Paraná, que será tema de outra reportagem da série. “São professores fora da sala para cobrar números de leitura, enquanto faltam professores dentro da escola”, relata um docente.
Além disso, professores relatam que a plataforma é passível de fácil manipulação de dados, onde alunos fingem que realizam a leitura, indicando 100% de conclusão de obras extensas com poucos minutos de leitura. As perguntas também são alvo de fraudes: alunos usam ferramentas de inteligência artificial para responder, apontando alto número de acertos nem sequer saber o tema da narrativa ou o nome dos personagens da história.
Cobrança por índices
Segundo os relatos, os indicadores de leitura passaram a ser usados como ferramenta de cobrança institucional. Professores afirmam que são pressionados pelos índices de leitura de suas turmas, mesmo em contextos de infraestrutura precária. “Não abrange todos os alunos. Muitos têm apenas um celular na família e precisam dividir com irmãos”, relata uma professora. “A plataforma oscila, a internet é ruim e mesmo assim somos cobrados por metas”, afirma outra.
Há também críticas ao uso excessivo de telas, inclusive com relatos de impactos à saúde dos estudantes: “Alunos reclamando de ardência nos olhos devido a muito tempo em plataformas.”
Pagamentos recorrentes e aditivos
Enquanto as críticas se acumulam na base da rede, os dados do Portal da Transparência mostram pagamentos frequentes e fragmentados relacionados ao contrato do Leia Paraná. Os empenhos variam de dezenas de milhares de reais a valores superiores a R$ 360 mil, distribuídos de forma contínua ao longo de 2024 e 2025.
O contrato da plataforma Leia Paraná começou com valor global de R$ 7.959.984,00, prevendo pagamento mensal de R$ 331.666,00, mas foi ampliado por sucessivos aditivos, prorrogações e reajustes inflacionários. Em 2024, o valor mensal foi corrigido para R$ 344.907,57 e, em 2025, para cerca de R$ 362.351,72, mantendo desembolsos recorrentes. Os registros do Portal da Transparência indicam pagamentos fragmentados e contínuos ao longo de 2022, 2023, 2024 e 2025, somando aproximadamente R$ 12 a R$ 13 milhões já pagos até o fim de 2025. Com a vigência estendida até 2026, o valor global atualizado do contrato chega a R$ 18.133.748,46, mais que o dobro do montante inicialmente contratado.
O contrato original foi sendo estendido por termos aditivos sucessivos, que prorrogaram prazos e ajustaram valores. Embora essa prática seja comum em contratos de tecnologia, o volume e a constância dos repasses fazem do Leia Paraná um serviço permanente, com impacto relevante no orçamento da educação.
Quem são os sócios
A Primasoft tem como sócia a Volaris Brazil Participações Ltda., representada por Marcelo Nastromagario, advogado e consultor corporativo com atuação declarada nas áreas de investimentos, estruturação societária e gestão financeira de projetos. A administração da empresa inclui ainda Pedro Miguel Almeida Cruz e Fabrício Lacerda Biajoli.
Do ponto de vista formal, a empresa é regular, ativa e com objeto social compatível com o contrato firmado. Não há, nos documentos analisados, apontamento de ilegalidade. O que se destaca é a sofisticação empresarial associada a uma política pública que enfrenta forte contestação pedagógica.
Entre a lógica pedagógica e a lógica dos números
Nos grupos de professores, a percepção predominante é de que o Leia Paraná atende mais a uma lógica de controle e métricas do que às necessidades reais da escola pública. “Tem que ler dentre as opções que o governo quer. Acabou a autonomia”, resume uma professora. “É um sistema que exclui e precariza o ensino”, afirma outra. “Leitura é liberdade, não restrição”, sintetiza um docente.
Livros comprados, mas pouco lidos
Além dos milhões destinados à plataforma digital Leia Paraná, a Secretaria de Estado da Educação mantém investimentos expressivos na compra de livros físicos, por meio de atas de registro de preços. Apenas nos contratos analisados, os valores somam mais de R$ 7,6 milhões, com títulos que variam de clássicos da literatura a obras de divulgação científica, educação e best-sellers de autoajuda, como Pai Rico, Pai Pobre. Apesar do volume de recursos, a quantidade de exemplares adquiridos é insuficiente para atender todas as escolas da rede estadual: em muitos casos, são previstos cerca de 2.750 livros por título, número que não alcança sequer dois exemplares por escola em um sistema com mais de duas mil instituições. O resultado é um acesso desigual, em que muitos colégios não dispõem de livros em quantidade suficiente para o trabalho coletivo em sala. Professores apontam ainda outra contradição: enquanto o Estado compra livros impressos, o tempo pedagógico para a leitura é cada vez mais comprimido, tomado por plataformas digitais, metas monitoradas por sistemas de BI e cobranças por indicadores. “O livro até chega, mas não há tempo garantido para ler”, resume uma professora. A questão central, portanto, não é apenas quanto se investe em livros, mas se eles chegam a todos e encontram espaço real na rotina escolar, em um modelo que privilegia métricas digitais em detrimento da leitura compartilhada e aprofundada.
O que vem na série
Esta é a segunda reportagem de uma série que investiga os contratos de plataformas digitais da Secretaria de Educação do Paraná, seus custos, modelos de gestão e impactos no cotidiano escolar.
Mais do que discutir tecnologia, a série busca responder a uma questão central: quem define as prioridades da educação pública quando milhões são investidos em plataformas, mas professores e alunos relatam exclusão, cobrança e perda de autonomia.
