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Kakay diz que Lava Jato e Sérgio Moro pressionaram clientes a trocar de advogados e denuncia cooptação na advocacia

Relato do advogado aponta que, durante a Lava Jato, clientes teriam sido pressionados a trocar de advogados, com menção direta a Sérgio Moro, sob ameaça de retaliações e violação das prerrogativas da defesa

Kakay diz que Lava Jato e Sérgio Moro pressionaram clientes a trocar de advogados e denuncia cooptação na advocacia Créditos: Divulgação

O advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou que clientes foram pressionados durante a Operação Lava Jato a abandonar sua defesa, sob ameaça de retaliações, inclusive contra familiares. O relato foi feito em entrevista ao jornalista Luis Nassif, no canal TV GGN.

Segundo Kakay, as pressões não partiam apenas de um ambiente difuso de perseguição, mas eram atribuídas diretamente à estrutura da operação, com menção nominal ao então juiz Sergio Moro, além de procuradores do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. “Clientes me procuraram dizendo que a Lava Jato, o Moro, os procuradores e a Polícia Federal exigiam que eles saíssem da minha advocacia”, afirmou.

Em um dos episódios narrados, Kakay contou que foi procurado por um cliente num domingo pela manhã, em estado de desespero. Segundo ele, o homem relatou ter recebido o recado de que, caso permanecesse com Kakay como advogado, sua família sofreria consequências, incluindo buscas e apreensões. “É uma coisa impressionante. Ele chorava. Disse que a mulher, que é advogada brilhante, estava apavorada”, relatou.

O criminalista afirmou que perdeu muitos clientes por manter posição pública crítica à Lava Jato e por se recusar a aderir ao que chamou de “advocacia de ocasião”. Ainda assim, disse ter atuado para 33 clientes relacionados à operação. Entre as perdas, mencionou sua longa relação profissional com a Odebrecht e com Emílio Odebrecht, rompida quando o cenário político e jurídico mudou.

Kakay também criticou colegas de profissão que, segundo ele, atuaram como uma “linha auxiliar do Ministério Público” durante a Lava Jato. Para o advogado, houve uma ruptura ética grave dentro da advocacia, com profissionais colaborando com práticas que violaram o direito de defesa. Ele afirmou ter provocado a Ordem dos Advogados do Brasil para que esses comportamentos fossem investigados. “Eles romperam com o compromisso constitucional da advocacia. Isso é gravíssimo”, disse.

Na entrevista, Kakay relatou ainda ter sido alertado por um procurador de que havia articulações internas contra advogados críticos à operação, especialmente contra ele. Diante disso, optou por tornar públicas as denúncias. “O que a advocacia me deu de mais importante foi voz. Eu não ia me calar”, afirmou.

Ao abordar o cenário institucional, Kakay avaliou que a pressão da opinião pública e da imprensa, especialmente no período do impeachment de Dilma Rousseff, contaminou setores do Judiciário e da advocacia. Segundo ele, houve uma debandada de figuras tradicionalmente associadas à defesa das garantias constitucionais, muitas das quais optaram pelo silêncio em momentos decisivos.

Sobre o Supremo Tribunal Federal, Kakay reconheceu excessos pontuais, mas defendeu a atuação da Corte diante do que classificou como uma democracia ainda instável. Relatou, inclusive, ter ouvido de um senador da ultradireita um plano explícito para conquistar maioria no Senado e, a partir daí, promover impeachments de ministros do Supremo e alterar a composição da Corte. Segundo ele, a estratégia era governar pelo Senado, pressionando o Judiciário.

Ao final, o advogado afirmou que suas escolhas profissionais passaram a seguir um critério claro em momentos de crise institucional. Disse ter recusado defender envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. “Em determinados momentos da história, o grande cliente da gente é a democracia, é a Constituição”, declarou. Para Kakay, diante de ameaças ao Estado de Direito, a neutralidade deixa de ser uma opção: “A gente tem que ter lado. Não tem saída”.

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