Itaipu entra no centro de disputa internacional e expõe tensão silenciosa entre Brasil e Paraguai
Renegociação do tratado, interesse estrangeiro na energia excedente e pressão do Paraguai colocam a maior hidrelétrica do mundo no centro de uma nova disputa geopolítica
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional
A maior hidrelétrica em operação do mundo voltou ao centro do debate político e diplomático na América do Sul. A renegociação do Anexo C do tratado que rege a Itaipu Binacional reacendeu tensões históricas entre Brasil e Paraguai e abriu espaço para interesses externos na energia produzida pela usina, especialmente no excedente paraguaio. Embora manchetes alarmistas tenham falado em “perda da usina” ou risco de apagão, o que está em jogo é mais sutil — e, justamente por isso, mais estratégico.
Itaipu é regida por um tratado internacional firmado em 1973, que garante controle compartilhado entre os dois países. Cada lado tem direito a 50% da energia gerada. Historicamente, o Paraguai consome apenas parte da sua cota e vende o excedente ao Brasil, em condições definidas pelo Anexo C, que trata das bases financeiras e tarifárias da usina.
Esse arranjo começou a ser questionado com mais força após o fim da amortização da dívida de Itaipu, em 2023. Com a dívida quitada, o Paraguai passou a defender mudanças profundas nas regras de comercialização da energia, argumentando que o modelo anterior favorecia o Brasil e limitava o aproveitamento econômico do potencial energético paraguaio.
O que o Paraguai quer mudar
O governo paraguaio busca maior autonomia para vender sua energia excedente, incluindo a possibilidade de negociar com outros mercados além do Brasil. A reivindicação é apresentada como um passo natural após décadas de um acordo considerado assimétrico. Para Assunção, a energia de Itaipu tornou-se um ativo estratégico capaz de atrair investimentos, impulsionar a industrialização e ampliar receitas.
Essa posição, no entanto, mexe diretamente com a segurança energética brasileira. Hoje, parte relevante do planejamento do setor elétrico do país considera a energia de Itaipu como previsível, estável e contratada em condições conhecidas. Qualquer mudança nesse equilíbrio pode afetar preços, contratos e estratégias de longo prazo.
Interesse externo e ruído informacional
É nesse contexto que surgem referências ao interesse estrangeiro — inclusive de empresas e mercados ligados aos Estados Unidos — na energia excedente do Paraguai. Reportagens da imprensa econômica indicam que a eletricidade gerada por Itaipu desperta atenção de grandes consumidores, como data centers e indústrias intensivas em energia, atraídos por custos competitivos e pela geração renovável.
Esse interesse, porém, foi transformado em narrativas distorcidas por sites e publicações que sugerem que os Estados Unidos poderiam “tomar” a usina ou substituir o Brasil no controle de Itaipu. Não há qualquer base jurídica ou diplomática para esse cenário. A compra de energia é uma operação comercial; o controle da usina está protegido por tratado internacional e só pode ser alterado por acordo bilateral entre Brasil e Paraguai.
O risco real: não é perder a usina, é perder influência
O ponto sensível para o Brasil não é a soberania sobre Itaipu, mas a possível perda de exclusividade e previsibilidade no acesso à energia paraguaia. Se o Paraguai obtiver liberdade para vender seu excedente a terceiros, o Brasil poderá enfrentar maior competição por essa energia, pressão sobre preços e necessidade de rever seu planejamento energético.
Especialistas apontam que, embora o sistema elétrico brasileiro seja diversificado, Itaipu segue tendo papel relevante, sobretudo em períodos de escassez hídrica. Reduzir a margem de controle sobre essa fonte pode ampliar custos e exigir investimentos adicionais em geração ou transmissão.
Negociações travadas e retomadas
As negociações do Anexo C avançam de forma intermitente, marcadas por impasses técnicos e diplomáticos. Em determinados momentos, chegaram a ser suspensas, mas foram retomadas diante da necessidade de atualizar o tratado a uma nova realidade econômica e energética. O desafio é encontrar um modelo que atenda às demandas paraguaias sem comprometer a segurança energética brasileira.
Órgãos oficiais e a própria administração da Itaipu evitam declarações alarmistas e reforçam que o diálogo segue dentro dos canais institucionais. Não há, até o momento, qualquer comunicado que indique risco iminente de ruptura do tratado ou de apagão associado à renegociação.
No centro desse debate está uma pergunta que ainda não foi respondida: até que ponto o Brasil está disposto a ceder para manter estabilidade e acesso privilegiado à energia de Itaipu — e quanto o Paraguai está disposto a tensionar para transformar energia em protagonismo econômico?
A resposta definirá não apenas o futuro do Anexo C, mas o novo equilíbrio energético e diplomático na região.
Créditos: Redação
