Golpe do falso gerente cresce no país e expõe fragilidade na segurança bancária
Criminosos usam dados reais de clientes e informações internas de agências para se passar por gerentes bancários e aplicar fraudes que já causaram prejuízos
Créditos: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Uma nova onda de fraudes financeiras vem atingindo clientes de bancos em todo o país por meio de um esquema cada vez mais sofisticado: o golpe do falso gerente. Criminosos utilizam dados reais de clientes, informações internas de agências e até detalhes sobre relacionamentos bancários para se passar por funcionários das instituições financeiras e convencer vítimas a realizar operações que resultam em prejuízos elevados.
Os casos mais recentes relatados envolvem perdas superiores a R$ 80 mil apenas em ocorrências registradas em São Paulo. Em um dos relatos divulgados nas redes sociais, o prejuízo chegou perto de R$ 200 mil após transferências via Pix e contratação de empréstimos em nome da empresa vítima.
O golpe geralmente começa com um contato por WhatsApp ou telefone. Os criminosos se apresentam como gerentes da conta e utilizam linguagem profissional, fotos em agências, nomes corretos de funcionários e informações sigilosas para conquistar a confiança do cliente. Em muitos casos, sabem até detalhes específicos sobre o histórico da conta, movimentações financeiras e mudanças recentes de gerência.
Foi justamente esse nível de detalhamento que convenceu um empresário do setor da saúde a acreditar que falava com uma gerente legítima do banco. Segundo o relato publicado nas redes sociais, o contato começou após uma troca real de gerência em sua conta empresarial.
A suposta gerente se apresentou pelo WhatsApp, utilizou foto dentro da agência, informou corretamente o número da unidade bancária e passou a manter contato frequente com a empresa. O relacionamento se estendeu por semanas, incluindo oferta de produtos, convites para visitas à clínica e até auxílio na resolução de um problema envolvendo máquinas da Cielo vinculadas à conta bancária.
“Ela nunca forçou nada. Foi construindo essa relação desde março”, afirmou a vítima no vídeo publicado no Instagram.
O empresário contou que a confiança aumentou porque a gerente verdadeira da conta nunca havia feito contato direto com a empresa, enquanto a falsa gerente mantinha comunicação constante e demonstrava conhecimento detalhado sobre a rotina financeira da clínica.
A fraude foi concluída quando a empresa passou a enfrentar dificuldades para realizar transferências via Pix. Ao buscar ajuda com a suposta gerente, os criminosos aproveitaram a situação para orientar procedimentos dentro do aplicativo bancário.
Após a ligação, a vítima percebeu movimentações suspeitas na conta. Segundo o relato, foram realizados Pix de R$ 49,5 mil e R$ 43 mil, além da contratação de um empréstimo de capital de giro de aproximadamente R$ 38 mil. O prejuízo total se aproximou de R$ 200 mil.
O empresário também criticou o atendimento recebido na agência após a descoberta da fraude. De acordo com ele, houve demora para registrar a contestação das operações e pouca orientação inicial sobre os procedimentos necessários.
“Faltou preocupação, faltou sensibilidade e faltou prevenção”, afirmou.
Especialistas em segurança digital alertam que o golpe do falso gerente tem evoluído rapidamente porque os criminosos passaram a utilizar engenharia social altamente sofisticada. A principal orientação é desconfiar de qualquer contato recebido por telefone ou aplicativos de mensagens.
Há também alerta para links falsos e páginas fraudulentas criadas para simular ambientes oficiais dos bancos.
O Banco Central do Brasil também vem reforçando alertas sobre esse tipo de fraude. A instituição orienta que gerentes reais nunca solicitam senhas, tokens, códigos de autenticação, instalação de aplicativos ou realização de transferências para “proteger” valores da conta.
Entre os principais sinais de alerta estão ligações em tom de urgência envolvendo supostas compras suspeitas, invasões de conta ou necessidade imediata de atualização cadastral. Outra prática comum é a orientação para realização de Pix para contas de terceiros sob a justificativa de “proteger” o dinheiro do cliente.
O Banco Central orienta que clientes nunca forneçam senhas ou códigos recebidos por SMS, não realizem operações orientadas por telefone e jamais cliquem em links enviados fora dos canais oficiais da instituição financeira.
Em caso de golpe, especialistas recomendam que a vítima registre imediatamente um boletim de ocorrência e comunique o banco para tentar bloquear operações e reduzir prejuízos. As instituições financeiras podem ser responsabilizadas judicialmente dependendo das circunstâncias.
Movimentações fora do padrão do cliente podem indicar falhas nos sistemas de segurança das instituições financeiras. Além da tentativa de ressarcimento administrativo junto ao banco, vítimas também podem recorrer à Justiça para solicitar devolução dos valores e acesso a registros técnicos, como endereços de IP utilizados nas operações suspeitas.
