Créditos: Geraldo Bubniak/AEN
Funcionários acusam banco e terceirizada do Estado após terem nome sujo por empréstimo
Trabalhadores de prestadora de serviços do Governo do Paraná afirmam que parcelas de empréstimos eram retidas no salário, mas cobranças do banco continuavam
Funcionários e ex-funcionários da Produserv, empresa terceirizada que mantém contratos com diversos órgãos do Governo do Paraná, encaminharam à Gazeta do Paraná uma série de reclamações relacionadas a atrasos em pagamentos e a problemas envolvendo empréstimos consignados contratados por meio da Mentore Instituição de Pagamento S.A. Segundo os relatos dos trabalhadores, a empresa exige que os funcionários mantenham conta na instituição para o recebimento dos salários. Ainda de acordo com as denúncias, descontos referentes às parcelas dos empréstimos eram efetuados diretamente nos contracheques, mas, em determinados casos, os trabalhadores alegam que os valores não teriam sido repassados à instituição financeira. De acordo com as denúncias, a situação teria resultado em cobranças, restrições de crédito e registros em órgãos de proteção ao consumidor, mesmo após os descontos terem sido realizados nos salários.
A Mentore, citada pelos trabalhadores, possui capital social declarado de R$ 24 milhões e atua como instituição de pagamento. Segundo os relatos encaminhados à reportagem, a utilização dos serviços da empresa seria comum entre colaboradores vinculados à terceirizada.
Uma ex-funcionária relatou à Gazeta do Paraná que chegou a contratar empréstimos de aproximadamente R$ 1,8 mil por meio da instituição financeira utilizada pelos trabalhadores e que precisou devolver cerca de R$ 2,2 mil. Pelos valores informados, o acréscimo representaria aproximadamente 22% sobre o montante originalmente emprestado. Segundo ela, os descontos eram realizados diretamente nos salários em curto espaço de tempo, mas, ainda assim, continuavam ocorrendo cobranças relacionadas à operação.
A trabalhadora afirma que, em alguns casos, colegas tiveram os nomes inseridos em cadastros de inadimplentes mesmo após os descontos terem sido efetuados nos contracheques. A reportagem busca confirmar essas informações por meio de documentos e registros das operações financeiras mencionadas pelos funcionários.
As denúncias envolvendo a Mentore se somam a uma série de reclamações trabalhistas atribuídas à Produserv. Ex-funcionários relatam atrasos recorrentes no pagamento de salários, vale-alimentação, vale-transporte, férias e verbas rescisórias. Em diversos casos, os trabalhadores afirmam que enfrentaram dificuldades para obter informações sobre pagamentos pendentes e para manter contato com os setores responsáveis da empresa.
As reclamações recebidas pela reportagem encontram eco em manifestações públicas registradas por trabalhadores e ex-trabalhadores da terceirizada. Em plataformas de defesa do consumidor e reputação empresarial, há relatos de atrasos em salários, benefícios e verbas rescisórias.
Em uma das manifestações, um ex-funcionário afirma que "a Produserv atrasa salários, vale-alimentação e vale-transporte com frequência, além de não pagar as verbas rescisórias dentro do prazo legal". O mesmo relato menciona dificuldades para obter respostas da empresa e aponta que a situação teria causado prejuízos financeiros e desgaste emocional aos trabalhadores.
Outra reclamação registrada relata problemas após o desligamento da empresa. "Pedi minha demissão no dia 12/05/2026 e até agora não recebi os valores que me são devidos. Ligo lá e é um descaso, falando que eles não têm data para pagamento", escreveu um ex-colaborador.
Há ainda relatos de trabalhadores que afirmam ter aguardado semanas ou até meses para receber verbas rescisórias. Em uma das publicações, um ex-funcionário relata que deixou a empresa em outubro, recebeu promessas de pagamento que não foram cumpridas e afirma ter acumulado prejuízos financeiros em razão da demora. "Ganham licitações milionárias do Estado e não têm estrutura nem a moral de fazer o que é certo", escreveu.
Os relatos recebidos pela Gazeta do Paraná indicam que os problemas apontados pelos trabalhadores não seriam episódios isolados. Segundo as denúncias, atrasos em benefícios, dificuldades para usufruir férias e problemas relacionados a empréstimos consignados teriam sido registrados em diferentes contratos mantidos pela empresa.
As reclamações envolvendo a Produserv também não se restringem ao Paraná. Reportagens publicadas em Mato Grosso do Sul registraram denúncias semelhantes de trabalhadores vinculados a contratos mantidos pela empresa junto à Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande. Segundo os relatos divulgados à época, funcionários afirmavam enfrentar atrasos no pagamento de benefícios, dificuldades para usufruir férias e problemas relacionados a empréstimos consignados.
Em um dos casos relatados, trabalhadores alegaram que valores descontados dos salários para pagamento de empréstimos não estariam sendo repassados regularmente à instituição financeira responsável. Segundo os relatos, a situação teria provocado registros em órgãos de proteção ao crédito mesmo após os descontos terem sido efetuados nos contracheques. Os trabalhadores também afirmavam enfrentar atrasos no pagamento do vale-alimentação e do vale-transporte.
Documentos apresentados naquela reportagem, segundo o veículo responsável pela publicação, incluíam holerites e registros de conversas com a instituição financeira utilizados para sustentar as reclamações dos trabalhadores.
As reclamações envolvendo a empresa também apareceram em São José do Rio Preto (SP). Em janeiro de 2026, trabalhadores vinculados à Produserv em escolas municipais chegaram a interromper atividades após denunciarem atrasos no pagamento de benefícios como prêmio assiduidade, cesta básica e vale-transporte. O caso foi acompanhado por representantes sindicais da categoria.
Além das reclamações trabalhistas, a empresa também foi mencionada em discussões públicas relacionadas à prestação de serviços terceirizados. Em 2025, o nome da Produserv apareceu em debates conduzidos por uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) voltada à análise de contratos terceirizados. Já em 2026, a contratação emergencial da empresa pela Prefeitura de Maringá gerou questionamentos públicos em razão do histórico de reclamações trabalhistas atribuído à terceirizada.
Apesar da quantidade de relatos e reclamações envolvendo trabalhadores, a empresa mantém presença significativa na administração pública estadual. Dados obtidos pela Gazeta do Paraná no Portal da Transparência apontam que a Produserv possui 31 contratos ativos com diversos órgãos do Governo do Paraná, incluindo a Casa Civil, o Departamento de Polícia Penal (Deppen), o Departamento de Polícia Civil (DPC), o Detran, a Fundação Estatal de Atenção em Saúde (Funeas), a Universidade Estadual de Maringá (UEM), o Instituto Água e Terra (IAT), a Junta Comercial do Paraná (Jucepar), a Fundepar e outras estruturas da administração estadual.
Somados, os contratos identificados pela reportagem ultrapassam R$ 31,4 milhões. O maior deles está vinculado à Casa Civil e supera R$ 6,9 milhões. Também foram identificados contratos milionários junto ao Deppen, à Funeas, ao Detran e a outros órgãos estaduais.
A Produserv Serviços Ltda., sediada em Curitiba, possui capital social declarado de R$ 35,8 milhões. O quadro societário registrado na Receita Federal aponta Carlos Gomes Adão como sócio-administrador e Luiz Carlos Ribeiro como administrador da empresa.
Diante das denúncias, a Gazeta do Paraná encaminhou questionamentos à Produserv e busca esclarecimentos sobre os relatos de atrasos salariais, pagamento de benefícios, verbas rescisórias, férias e supostos problemas envolvendo operações financeiras mencionadas pelos trabalhadores. A reportagem também solicitou informações ao Governo do Paraná sobre a fiscalização dos contratos mantidos com a empresa, eventuais notificações ou sanções aplicadas e quais mecanismos são adotados para verificar o cumprimento das obrigações trabalhistas pelas empresas terceirizadas que prestam serviços ao Estado.
