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“Estamos morrendo aos poucos”: moradora expõe o custo humano da expansão bilionária do Porto de Paranaguá

Durante debate sobre o vazamento de óleo de xisto, moradora denunciou poluição, barulho, riscos à saúde e abandono. Vídeo divulgado pelo JB Litoral reacende o debate sobre os impactos da expansão do complexo portuário nas comunidades vizinhas.

Por Gazeta do Paraná

“Estamos morrendo aos poucos”: moradora expõe o custo humano da expansão bilionária do Porto de Paranaguá Créditos: Corpo de Bombeiros Paraná

O recente vazamento de óleo de xisto envolvendo a Cattalini Terminais Marítimos trouxe novamente à tona uma discussão que acompanha há décadas o desenvolvimento do Porto de Paranaguá: até que ponto o crescimento de um dos maiores complexos portuários da América Latina tem sido acompanhado por medidas capazes de proteger as comunidades que vivem em seu entorno.

Foi justamente essa preocupação que marcou uma reunião realizada na noite de sexta-feira (17), cujo momento mais marcante foi registrado em vídeo pelo JB Litoral. Diante de representantes da empresa e de autoridades presentes, a moradora da Vila Rute Jucimara Tereza da Silva Marques fez um emocionado desabafo sobre aquilo que definiu como uma rotina de sofrimento vivida pelos moradores da região.

“Nós estamos morrendo aos poucos pelo problema químico que está no ar. Nossa vida está um inferno ali dentro”, afirmou. 

Ao longo da manifestação, a moradora relatou noites sem dormir por causa do intenso movimento de caminhões, preocupação constante com a saúde da população e a sensação de que os moradores têm sido esquecidos em meio ao crescimento das operações portuárias.

“Caminhões fazem barulho que ninguém consegue dormir à noite”, disse. 

O encontro foi realizado poucos dias após um vazamento de óleo de xisto mobilizar equipes do Corpo de Bombeiros, do Instituto Água e Terra (IAT) e da Defesa Civil em Paranaguá. O incidente teve início após moradores relatarem forte odor de combustível nas proximidades da Serraria da Rocha. O produto atingiu galerias de águas pluviais, levando ao monitoramento da região para afastar riscos de explosão e à abertura de investigação ambiental para apurar a extensão da contaminação. Segundo as autoridades, não houve necessidade de remoção de moradores e, até o momento, não foi confirmado que a substância tenha alcançado a Baía de Paranaguá. A empresa responsável informou ter realizado a contenção do vazamento e a limpeza das galerias, enquanto o IAT prossegue com a apuração das causas e dos possíveis impactos ambientais. 

“Nós construímos esse bairro”

Mais do que denunciar os efeitos do recente vazamento, o depoimento trouxe à tona um sentimento de pertencimento e, ao mesmo tempo, de abandono.

Jucimara lembrou que, quando chegou à Vila Rute, a região era praticamente desabitada. Segundo ela, foram os próprios moradores que, ao longo dos anos, reivindicaram iluminação pública, transporte, unidade de saúde, escola e outros serviços essenciais.

Hoje, porém, ela afirma que a comunidade vive cercada pela expansão das atividades industriais e portuárias e teme perder o espaço que ajudou a construir.

“Por que vão reformar o posto de saúde se os moradores já estão saindo dali?”, questionou. 

Em seguida, voltou a associar a rotina da comunidade aos riscos ambientais.

“Nós estamos vivendo no meio do inferno de tóxico, de perigo”, afirmou. 

O outro lado da expansão

Nos últimos anos, o Porto de Paranaguá consolidou-se como um dos principais motores da economia brasileira.

O complexo vem recebendo sucessivos investimentos públicos e privados destinados à ampliação de terminais, aumento da capacidade de armazenagem, aprofundamento dos canais de navegação e modernização da infraestrutura logística. A Gazeta do Paraná acompanha esse processo há meses, com reportagens sobre novos terminais, investimentos bilionários e a concessão do Canal da Galheta, considerada um dos mais importantes projetos de infraestrutura portuária do país.

Esse crescimento tem sido apresentado como estratégico para ampliar a competitividade do Paraná, reduzir custos logísticos e fortalecer o comércio exterior brasileiro.

Entretanto, para quem vive nas comunidades vizinhas, o avanço das operações nem sempre é percebido apenas pelos indicadores econômicos.

O relato apresentado durante a reunião revela uma realidade marcada pelo aumento do fluxo de caminhões, pela intensificação das atividades industriais e pelo receio permanente em relação à qualidade do ar e aos riscos decorrentes da movimentação de produtos potencialmente perigosos.

O recente vazamento de óleo de xisto, que motivou o encontro entre moradores e representantes da empresa, acabou funcionando como catalisador de uma insatisfação que, segundo os próprios moradores, já vinha sendo construída ao longo dos anos.

 

Desenvolvimento para quem?

O discurso da moradora também evidencia uma discussão recorrente nas grandes cidades portuárias: como distribuir os benefícios do desenvolvimento econômico entre aqueles que convivem diariamente com seus impactos.

Enquanto o Porto de Paranaguá amplia sua participação no comércio internacional, movimenta bilhões de reais por ano e atrai investimentos cada vez maiores para novos empreendimentos logísticos, moradores das áreas vizinhas afirmam que continuam convivendo com problemas que vão desde o ruído provocado pelo tráfego intenso de caminhões até a preocupação com possíveis impactos ambientais e à saúde.

A fala de Jucimara não questiona a importância econômica do porto. O que ela cobra é que o crescimento da atividade também resulte em melhores condições de vida para quem vive ao lado dos terminais e suporta diariamente os efeitos dessa expansão.

Em outras palavras, o desenvolvimento econômico não elimina a necessidade de enfrentar seus custos sociais.

 

Debate permanece aberto

O vídeo divulgado pelo JB Litoral rapidamente repercutiu nas redes sociais porque transformou uma reclamação individual em um retrato das inquietações de parte da população que vive nas comunidades do entorno portuário.

Mais do que um protesto contra um episódio específico, o depoimento reacende um debate que tende a se intensificar à medida que novos investimentos são anunciados para ampliar a capacidade operacional do Porto de Paranaguá.

Se, de um lado, o complexo portuário representa um dos maiores ativos econômicos do Paraná, de outro permanece o desafio de garantir que esse desenvolvimento seja acompanhado por políticas capazes de reduzir os impactos ambientais, urbanos e sociais sobre as comunidades que convivem diariamente com a expansão do porto.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp