Escolas do Futuro: inovação para quem e a que custo?
Projeto prevê sete novas unidades no Paraná com tecnologia, sustentabilidade e metodologias inovadoras, enquanto sindicato cobra transparência e acompanhamento
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação
O Paraná está colocando em marcha um projeto que pretende mudar a experiência de estudantes e profissionais dentro da escola pública. Em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Governo do Estado prevê a construção de sete unidades das chamadas Escolas do Futuro, com arquitetura sustentável, salas flexíveis, laboratórios integrados e novas metodologias de ensino.
A proposta, apresentada pela Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR) como uma aposta em uma educação mais conectada às necessidades do século 21, reúne características que podem representar avanços importantes na rede pública. Ao mesmo tempo, o programa também levanta questionamentos sobre custos, critérios de implantação, modelo pedagógico e participação de instituições privadas na política educacional.
A Gazeta do Paraná foi atrás de respostas para entender como o projeto funcionará e quais são os pontos de atenção apontados por representantes dos professores.
Ao todo, as sete escolas serão instaladas em Piraquara, Toledo, Curitiba, Fazenda Rio Grande, Ponta Grossa, São José dos Pinhais e Araucária. Segundo o governo, a escolha das localidades considerou estudos de demanda e a necessidade de ampliar a oferta de vagas. A expectativa é que as unidades atendam cerca de 12,4 mil alunos.
O projeto prevê ambientes pedagógicos diferenciados, salas de aula flexíveis e laboratórios voltados ao desenvolvimento de competências digitais, socioemocionais, empreendedorismo e educação financeira. Também estão previstas metodologias ativas, aprendizagem baseada em projetos e ensino bilíngue.
Na estrutura física, o programa aposta na chamada neuroarquitetura, que utiliza conhecimentos da neurociência na concepção dos ambientes, buscando influenciar positivamente aspectos como bem-estar, comportamento e aprendizagem.
Outro destaque é a sustentabilidade. As unidades terão sistemas de geração de energia solar fotovoltaica, captação e reúso da água da chuva e ventilação cruzada. De acordo com o Estado, o projeto pode proporcionar redução de até 100% no consumo de energia elétrica e de 40% no uso de água, além de economia de materiais e diminuição na emissão de gases do efeito estufa.
As construções também buscam certificações internacionais de sustentabilidade, como LEED e AQUA-HQE. O uso da metodologia BIM, que reúne informações técnicas, financeiras, ambientais e de manutenção em um modelo digital, deverá auxiliar no acompanhamento das obras.
Sem seleção de alunos
Um dos pontos que poderia gerar dúvidas em relação ao novo modelo é o acesso dos estudantes. A Seed esclareceu à Gazeta do Paraná que não haverá processo seletivo.
As matrículas seguirão os critérios utilizados atualmente pela rede estadual, especialmente o georreferenciamento e a disponibilidade de vagas. Portanto, não haverá prova de ingresso, seleção por desempenho acadêmico ou exigência de proficiência em inglês.
Segundo a secretaria, a prioridade será atender os estudantes das comunidades localizadas no entorno das unidades.
A Seed também afirma que as escolas permanecerão integralmente sob responsabilidade do Estado. A administração, tanto no aspecto pedagógico quanto administrativo, ficará a cargo da Secretaria de Estado da Educação.
Esse esclarecimento é relevante diante de questionamentos sobre uma eventual transferência da gestão para a iniciativa privada. Conforme a resposta oficial enviada à reportagem, isso não está previsto no projeto.
O governo também informa que as sete primeiras unidades servirão para consolidar o modelo e que uma eventual expansão será avaliada posteriormente, levando em conta critérios técnicos, educacionais e a demanda da rede.
O outro lado: sindicato pede cautela
Embora reconheça que a ampliação da oferta de vagas não seja, por si só, um problema, a APP-Sindicato demonstra preocupação com o desenho mais amplo da política.
Para a entidade, o programa está inserido em um movimento de maior participação de instituições privadas e parceiros econômicos na execução de políticas públicas. Por isso, defende que contratos, recursos, responsabilidades e resultados sejam apresentados de forma transparente à sociedade.
A entidade também questiona os critérios utilizados para definir as localidades das novas escolas e pede esclarecimentos sobre a eventual participação de instituições privadas na gestão pedagógica e administrativa.
A preocupação ganha outro contorno, segundo a APP, porque a implantação das novas unidades ocorre paralelamente a medidas de reorganização da própria rede estadual, incluindo fechamento de turmas e escolas existentes.
O sindicato também cita o avanço de iniciativas como o ensino bilíngue, a utilização de plataformas e novas formas de organização pedagógica como temas que precisam ser acompanhados pela comunidade escolar.
Na avaliação da entidade, a discussão não deve se limitar à eficiência administrativa. É necessário avaliar os impactos sobre a educação pública, os profissionais e a autonomia das escolas.
Ainda segundo o Sindicato, o Paraná tem passado a adotar práticas de privatização e mercantilização na educação, dentro de uma estratégia internacional que apresenta a iniciativa privada como alternativa supostamente mais eficiente para a gestão das escolas públicas.
A APP-Sindicato afirma ainda acompanhar o programa para buscar informações sobre contratos, recursos, critérios de implantação e funcionamento das unidades. A entidade defende que mudanças estruturais na rede pública sejam acompanhadas de controle social e participação da comunidade escolar.
Confira a nota na íntegra da APP-Sindcato:
"O programa Escolas para o Futuro integra o Programa Educação para o Futuro, instituído pelo Governo do Estado do Paraná por meio do Decreto nº 11.568, de 30 de junho de 2022, com financiamento de recursos provenientes de empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
A iniciativa faz parte de uma política que amplia a participação de instituições privadas e de parceiros econômicos na execução de políticas públicas. Esse movimento exige atenção e transparência, especialmente quando envolve recursos públicos e decisões que podem produzir efeitos de longo prazo sobre a organização da educação pública paranaense.
No âmbito do programa, a Secretaria de Estado da Educação (Seed) anunciou a construção de sete novas unidades escolares, sob a justificativa de ampliar a oferta de vagas. A medida ocorre em um contexto no qual a própria rede estadual também promove o fechamento de turmas e de escolas existentes. Recentemente, a Seed lançou ainda edital para a seleção de professores(as) e pedagogos(as) que atuarão em instituições de ensino bilíngues vinculadas ao projeto.
Para a APP-Sindicato, há questões que precisam ser esclarecidas e analisadas com profundidade. Entre elas estão a destinação e a aplicação dos recursos públicos, os critérios utilizados para a implantação das novas unidades e a eventual participação de instituições privadas na gestão pedagógica e administrativa das escolas.
A entidade acompanha o programa e considera necessário ampliar o debate público sobre seus objetivos, custos, contratos, responsabilidades e resultados previstos. Não se trata de questionar a ampliação da oferta de vagas, mas de garantir que qualquer mudança na estrutura da rede pública ocorra com transparência, controle social e participação da comunidade escolar.
A APP-Sindicato também chama atenção para um movimento mais amplo de privatização e mercantilização da educação, observado em diferentes países. Segundo a antropóloga Gabriela Bonilla, as mudanças em curso no Paraná fazem parte de uma estratégia internacional que apresenta a iniciativa privada como alternativa supostamente mais eficiente para a gestão das escolas públicas. Na avaliação da pesquisadora, esse processo pode abrir espaço para a ampliação da participação de empresas e instituições financeiras na definição de políticas educacionais.
Bonilla também aponta como parte desse processo a desqualificação da escola pública e dos profissionais da educação, além do avanço da plataformização e de modelos de educação híbrida. São questões que, para a APP-Sindicato, precisam ser discutidas de forma pública e transparente, antes que mudanças estruturais na educação sejam tratadas apenas como questões de gestão ou eficiência.
A APP-Sindicato seguirá acompanhando o programa, buscando informações sobre contratos, recursos, critérios de implantação e modelo de funcionamento das unidades, para que a sociedade possa avaliar os impactos da iniciativa sobre a educação pública do Paraná."
