Crise financeira pressiona agronegócio e faz pedidos de recuperação judicial crescerem 21,9%
Setor registrou 474 solicitações no primeiro trimestre de 2026; aumento foi puxado principalmente por produtores rurais que atuam como pessoa jurídica
Por Gazeta do Paraná
Créditos: AEN
O agronegócio brasileiro começou 2026 sob pressão financeira. Dados da Serasa Experian mostram que 474 pedidos de recuperação judicial relacionados ao setor foram registrados no primeiro trimestre deste ano, número 21,9% superior às 389 solicitações contabilizadas no mesmo período de 2025.
O levantamento reúne pedidos envolvendo produtores rurais que atuam como pessoas físicas e jurídicas, além de empresas ligadas à cadeia do agronegócio. O resultado reforça um cenário de dificuldades que vem afetando parte do setor, marcado por crédito mais restritivo, custos elevados de produção, endividamento e dificuldades para preservar as margens de rentabilidade.
Na comparação com o último trimestre de 2025, quando foram registrados 408 pedidos, também houve crescimento, de aproximadamente 16%. Apesar da alta no início deste ano, o volume ainda está distante do recorde recente. No terceiro trimestre de 2025, o indicador chegou a 628 solicitações, o maior número da série apresentada pela Serasa Experian.
Para Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, a situação financeira de parte dos produtores continua sendo afetada pela combinação de fatores que reduzem a capacidade de geração de caixa.
“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo”, afirmou.
Segundo Pimenta, o comportamento do indicador ao longo de 2026 dependerá de fatores como a capacidade de geração de receita, o comportamento das margens e as condições encontradas pelos produtores para renegociar compromissos financeiros.
A orientação da Serasa é que a recuperação judicial seja utilizada apenas quando outras alternativas de reorganização financeira não forem suficientes. Antes disso, a empresa recomenda renegociação de dívidas e planejamento financeiro.
Produtores pessoa jurídica puxam alta
O principal avanço no primeiro trimestre foi registrado entre produtores rurais que atuam como pessoas jurídicas. Foram contabilizados 196 pedidos nessa categoria entre janeiro e março, contra 113 no mesmo período de 2025. O crescimento foi de 73,5%.
O aumento foi o maior entre os três grupos analisados pela Serasa Experian e representa uma mudança importante na composição dos pedidos de recuperação judicial do setor.
Entre as atividades desempenhadas por esses produtores, o cultivo de soja concentrou a maior quantidade de solicitações, com 137 pedidos. Em seguida aparece a criação de bovinos, com 42.
A concentração dos pedidos nessas duas atividades acompanha a importância que soja e pecuária possuem na estrutura do agronegócio brasileiro. Ao mesmo tempo, os números indicam que as dificuldades financeiras atingem segmentos diretamente expostos à variação dos preços das commodities, dos custos de produção, das condições climáticas e das condições de crédito.
Pessoas físicas apresentam queda
Entre os produtores rurais que atuam como pessoas físicas, foram registrados 182 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre. O número representa queda de 6,7% em relação às 195 solicitações do mesmo período de 2025.
A distribuição por porte mostra que a categoria classificada como “sem propriedades” concentrou a maior quantidade de pedidos, com 60 registros. O grupo pode incluir, por exemplo, arrendatários ou integrantes de estruturas familiares e econômicas relacionadas à atividade rural.
Na sequência aparecem os pequenos proprietários, com 44 pedidos, os grandes produtores, com 41, e os médios, com 37.
Embora o volume de pedidos entre pessoas físicas tenha recuado na comparação anual, o resultado continua representando uma parcela significativa das recuperações judiciais ligadas ao agronegócio.
Mato Grosso lidera ranking estadual
A distribuição regional mostra forte concentração dos pedidos nos principais polos de produção agropecuária do país.
Mato Grosso aparece na primeira posição, com 135 solicitações de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026. O Estado é um dos principais produtores brasileiros de grãos, oleaginosas e carne bovina e concentra uma extensa cadeia ligada ao agronegócio.
Na sequência aparecem Goiás, com 73 pedidos; Paraná, com 50; e Mato Grosso do Sul, com 38.
A presença de Estados com forte participação na produção de soja e na pecuária entre os primeiros colocados evidencia que a dificuldade financeira não está restrita a uma região específica. Os problemas atingem diferentes áreas do país e produtores de diferentes perfis.
No caso dos produtores rurais pessoas físicas, Mato Grosso também liderou a lista estadual, seguido por Paraná e Goiás.
Entre as empresas relacionadas à cadeia do agronegócio, porém, o Paraná aparece na primeira posição.
Crise chega às empresas da cadeia
As dificuldades financeiras não estão concentradas apenas dentro das propriedades rurais. Empresas que atuam em diferentes etapas da cadeia do agronegócio também apresentaram aumento nos pedidos.
Segundo a Serasa Experian, foram registrados 96 pedidos de recuperação judicial por empresas relacionadas ao setor no primeiro trimestre de 2026. O número representa crescimento de 18,5% diante das 81 solicitações registradas no mesmo período de 2025.
Dentro desse grupo, as agroindústrias de transformação primária foram responsáveis por 23 pedidos. Em seguida aparecem as indústrias de processamento de agroderivados, com 19, e as empresas de serviços de apoio à agropecuária, com 15.
No recorte por Estados, Paraná, São Paulo e Mato Grosso concentraram os maiores volumes de solicitações nessa categoria.
O dado amplia a dimensão da crise financeira observada no campo. Isso porque problemas enfrentados pelos produtores podem se espalhar para empresas fornecedoras de insumos, prestadoras de serviços, indústrias de transformação, comércio e outros segmentos que dependem diretamente da atividade agropecuária.
Recuperação judicial não representa toda a crise
A recuperação judicial é um mecanismo utilizado por empresas e produtores que enfrentam dificuldades financeiras para reorganizar suas dívidas e buscar condições para continuar suas atividades. Por isso, o aumento dos pedidos funciona como um indicador de deterioração financeira, mas não significa que todo o setor esteja em crise.
O próprio comportamento trimestral mostra oscilações importantes. Embora os 474 pedidos do primeiro trimestre tenham superado o resultado de um ano antes, ficaram abaixo dos 628 registrados entre julho e setembro de 2025.
Para a Serasa, a evolução dos próximos meses será determinada principalmente pela capacidade de os agentes do setor recuperarem receita, preservarem margens e renegociarem suas obrigações.
A situação também deve ser observada em um contexto de maior seletividade na concessão de crédito. Com produtores mais endividados e instituições financeiras mais cautelosas, a obtenção de novos recursos pode se tornar mais difícil justamente para quem precisa de capital para financiar o ciclo produtivo.
Inteligência artificial para antecipar riscos
Além do levantamento sobre recuperações judiciais, a Serasa Experian utiliza ferramentas de análise de dados e inteligência artificial para identificar sinais de deterioração financeira no agronegócio.
Uma dessas soluções é o Agro Score, modelo desenvolvido especificamente para considerar características da atividade rural e avaliar o risco financeiro de produtores e empresas.
Segundo a empresa, análises realizadas com a ferramenta indicaram que produtores rurais pessoas físicas que posteriormente entraram com pedidos de recuperação judicial já apresentavam, em média, um Agro Score significativamente inferior ao observado entre produtores rurais em geral três anos antes da formalização do pedido.
A ferramenta busca identificar alterações no perfil financeiro com antecedência, permitindo que instituições financeiras façam avaliações de risco mais específicas.
Para Marcelo Pimenta, considerar as particularidades do agronegócio é importante porque uma análise genérica pode não captar determinados sinais de instabilidade.
A combinação de dados históricos, inteligência artificial e modelos preditivos, segundo ele, pode ajudar a diferenciar níveis de risco e melhorar a segurança das operações de crédito sem restringir de forma indiscriminada o acesso aos recursos necessários para a produção.
Cenário exige atenção
Os 474 pedidos registrados no primeiro trimestre não representam necessariamente uma tendência definitiva para o restante de 2026. O número, porém, mostra que as dificuldades financeiras que atingiram parte do agronegócio em 2025 continuam presentes.
O aumento anual foi puxado principalmente pelos produtores pessoas jurídicas, enquanto produtores pessoas físicas apresentaram redução. Ao mesmo tempo, empresas ligadas à cadeia também registraram crescimento nas solicitações.
O desempenho dos preços agrícolas, os custos de insumos, as condições climáticas, o acesso ao crédito e a capacidade de renegociação das dívidas serão determinantes para o comportamento do setor nos próximos meses.
Para a Serasa Experian, o momento exige atenção à gestão financeira. A recomendação é que produtores e empresas busquem alternativas de renegociação antes que as dificuldades se agravem, mantendo a recuperação judicial como medida extrema.
O cenário, portanto, não aponta para uma crise uniforme em todo o agronegócio brasileiro, mas revela uma parcela crescente de produtores e empresas enfrentando dificuldades para equilibrar receitas, custos e compromissos financeiros. O avanço dos pedidos de recuperação judicial é um dos sinais mais visíveis dessa pressão sobre o setor.
