Dinheiro some, fundos quebram e mercado reage: o rastro da REAG entre o Cais Mauá, o Banco Master e a B3
Gestora responsável por fundo do Cais Mauá, a REAG virou alvo de investigações após R$ 130 milhões evaporarem sem obra, em um enredo que liga fundos, Banco Master, uso de familiares e colapso no mercado
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação
Um fundo criado para viabilizar a revitalização do histórico Cais Mauá, em Porto Alegre, terminou com patrimônio zerado, investidores no prejuízo e R$ 130 milhões sem lastro econômico claro. A gestora responsável pela administração, a REAG Investimentos, hoje rebatizada como CBSF após intervenção do Banco Central, tornou-se o epicentro de uma investigação que extrapolou os limites do mercado de capitais e chegou à esfera criminal.
No centro desse enredo está o fundador da gestora, João Carlos Mansur, apontado pelo Ministério Público Federal como personagem-chave de um esquema que envolve fundos de investimento, o Banco Master e o uso de familiares como beneficiários finais de operações financeiras consideradas suspeitas.
O fundo do Cais Mauá e o dinheiro que não virou obra
O Fundo de Investimento em Participações (FIP) criado para o projeto do Cais Mauá captou cerca de R$ 130 milhões, com recursos de investidores institucionais, incluindo fundos de previdência. Apesar do volume expressivo, nenhuma obra relevante foi executada.
Documentos e apurações revelam que aproximadamente R$ 40 milhões foram classificados como “despesas operacionais”, mesmo sem que o empreendimento tivesse saído do papel. O fundo acabou encerrado com patrimônio líquido praticamente nulo, enquanto os investidores ficaram sem retorno e sem explicações proporcionais ao volume de recursos empregados.
A Polícia Federal passou a investigar o caso diante da suspeita de que o fundo teria sido usado como veículo financeiro sem correspondência com atividade econômica real, padrão que, segundo investigadores, se repetiu em outros produtos financeiros ligados à mesma gestora.
Investigação criminal e o elo com o Banco Master
As suspeitas em torno da REAG ganharam novo peso quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da gestora, citando violações graves às normas do sistema financeiro. A partir daí, as investigações avançaram para o campo penal.
De acordo com a Procuradoria da República, Mansur teria participado de operações estruturadas com o Banco Master, envolvendo fundos e ativos de baixa liquidez. O ponto mais sensível da acusação é o suposto uso de seus próprios filhos como beneficiários finais dessas estruturas financeiras, o que, para o MPF, indica tentativa de ocultar a real titularidade e a destinação dos recursos.
Segundo a investigação, fundos ligados à REAG teriam adquirido papéis emitidos pelo banco e realizado resgates rápidos, em operações consideradas atípicas. O padrão levantou suspeitas de simulação de liquidez, manipulação patrimonial e possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional.
Da esfera criminal ao colapso no mercado
O impacto do caso não ficou restrito aos processos administrativos e criminais. Mansur também ocupava posição de destaque no mercado acionário, como presidente do conselho da empresa Revee, listada na B3. Com o avanço das investigações e a exposição pública do seu nome, ele renunciou ao cargo.
A reação do mercado foi imediata. As ações da Revee despencaram, saindo de patamares próximos a R$ 30 para valores pouco acima de R$ 2, em poucos pregões. A queda expressiva evidenciou a perda de confiança dos investidores diante da associação da companhia a um controlador investigado por crimes financeiros.
A empresa anunciou medidas de reorganização do conselho, mas o episódio escancarou fragilidades de governança e os riscos de dependência excessiva de figuras centrais envolvidas em escândalos.
Um caso que expõe falhas estruturais
O conjunto de episódios envolvendo a REAG, o FIP do Cais Mauá e o Banco Master revela mais do que um fracasso empresarial. Trata-se de um caso emblemático sobre o uso de fundos de investimento como instrumentos de engenharia financeira dissociados da economia real, com prejuízos concentrados em investidores institucionais e fundos de previdência.
Enquanto o Ministério Público e a Polícia Federal aprofundam as apurações, o rastro deixado pelo caso já é visível: recursos públicos e privados evaporados, empresas em colapso reputacional e um mercado que reage com rapidez quando a governança se mostra frágil.
A história do Cais Mauá, que começou como promessa de revitalização urbana, terminou como símbolo de um modelo financeiro que transformou projetos em papel, papel em fundos — e fundos em nada.
Créditos: Redação
