Corbelia Abril

Deltan reconhece dúvidas sobre viabilidade de candidatura ao Senado

Ex-procurador aposta em nova composição do TSE e na tese de que não está inelegível para tentar reverter decisão que o tirou da Câmara e viabilizar candidatura ao Senado em 2026

Por Gazeta do Paraná

Deltan reconhece dúvidas sobre viabilidade de candidatura ao Senado Créditos: Divulgação

O ex-procurador da Lava Jato e ex-deputado federal Deltan Dallagnol tenta recolocar seu nome no centro do tabuleiro político do Paraná embalado por uma combinação de fatores jurídicos e eleitorais. Em entrevista a um telejornal, nesta terça-feira (21), ele afirmou que mantém “confiança absoluta” de que poderá disputar o Senado em 2026, mesmo após ter perdido o mandato em 2023 por decisão unânime do Tribunal Superior Eleitoral. A esperança de Deltan se apoia em três pilares: a tese de que não está formalmente inelegível, a expectativa de apresentar novos elementos no momento do registro da candidatura e a avaliação de que o cenário político e a composição da corte eleitoral já não são os mesmos de quando seu caso foi julgado.  

A base do argumento jurídico de Deltan é a distinção entre inelegibilidade decretada e indeferimento de registro de candidatura. Em maio de 2023, o TSE cassou o registro da candidatura dele nas eleições de 2022, entendimento que levou à perda do mandato de deputado federal. Na ocasião, a corte concluiu que o ex-procurador pediu exoneração do Ministério Público para escapar da incidência da Lei da Ficha Limpa, diante da possibilidade de procedimentos disciplinares. A decisão foi unânime. Deltan, porém, sustenta agora que o julgamento não produziu uma declaração formal de inelegibilidade por oito anos e, por isso, ele poderia apresentar novo pedido de registro em 2026. Essa passou a ser a espinha dorsal de sua narrativa pública.  

Na entrevista, Deltan insiste que deixou o Ministério Público sem responder a processo administrativo disciplinar e tenta reduzir o caso a uma interpretação “esdrúxula” do TSE. A estratégia é clara: deslocar o debate do campo moral e político para o campo técnico, afirmando que a corte teria feito uma leitura especulativa sobre suas motivações ao deixar a carreira. Ao falar assim, ele procura reconstruir sua imagem não como a de um político barrado pela Ficha Limpa, mas como a de um candidato atingido por uma decisão que, segundo ele, extrapolou os fatos objetivos do processo.

Mas essa esperança não elimina o risco jurídico. Especialistas ouvidos pela imprensa já apontaram que, se confirmar a candidatura, Deltan pode voltar a ser alvo de contestação no TSE. O entendimento firmado em 2023 continua sendo um precedente pesadíssimo contra ele, e adversários terão caminho aberto para sustentar que a situação de 2026 repete o mesmo problema jurídico examinado no pleito anterior. Ou seja, a aposta do ex-procurador depende menos de uma ausência de controvérsia e mais da possibilidade de convencer a Justiça Eleitoral a rever, ou ao menos restringir, o alcance da decisão que o derrubou.  

É justamente aí que entra o segundo eixo da “esperança” de Deltan: a mudança no ambiente do TSE. Hoje, a composição da corte é diferente da que julgou seu caso em 2023. O tribunal passou por alterações desde então, e em abril de 2026 elegeu os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça para a presidência e a vice-presidência da corte. Deltan aposta publicamente nesse novo contexto, embora diga que não conta com ministros “ligados” a este ou àquele grupo político, mas sim com a revisão jurídica do caso. Ainda assim, a entrevista deixa claro que ele lê a correlação de forças no Judiciário como parte do problema e, ao mesmo tempo, como parte da oportunidade.  

No plano político, Deltan também tenta transformar a controvérsia judicial em combustível eleitoral. Seu discurso continua ancorado na retórica de perseguição institucional, especialmente contra o Supremo Tribunal Federal, que ele acusa de autoblindagem e de ter enterrado a Lava Jato. Essa linha de argumentação não serve apenas para defender o passado. Ela também funciona como plataforma de campanha para 2026, falando diretamente com um eleitorado de direita que ainda enxerga em Deltan e Sérgio Moro símbolos do combate à corrupção e vítimas de um sistema que teria reagido para se proteger.

Esse movimento ganha tração no cenário paranaense. Deltan aparece como pré-candidato ao Senado pelo Novo, enquanto Sérgio Moro já se posiciona como pré-candidato ao governo do Paraná em uma articulação à direita que aproximou PL e Novo. Em março, Moro se filiou ao PL, e a montagem de uma chapa com Deltan ao Senado ganhou força nesse rearranjo. O cálculo é simples: quanto mais robusta a aliança, maior o custo político de uma eventual nova negativa judicial contra o ex-procurador.  

Além disso, Deltan chega a 2026 com capital eleitoral visível. Pesquisa AtlasIntel divulgada no início de abril o colocou com 21% em um dos cenários para o Senado no Paraná, à frente de nomes como Filipe Barros e Gleisi Hoffmann. No cenário sem ele, a disputa se embaralha mais. Esse dado ajuda a explicar por que sua candidatura interessa não apenas ao Novo, mas ao bloco de direita que tenta consolidar palanque no estado. Deltan não entra na conversa como figura decorativa. Ele entra como nome competitivo, capaz de puxar voto, polarizar o debate e mobilizar a militância lavajatista remanescente.  

No fim das contas, a “esperança” de Deltan para voltar a ser candidato nasce da soma entre tese jurídica e conveniência política. Juridicamente, ele tenta sustentar que sua derrota no TSE não o tornou inelegível de forma automática e definitiva. Politicamente, busca se apresentar como alguém que sobreviveu à cassação, manteve densidade eleitoral e agora retorna num ambiente mais favorável. O problema é que a candidatura dele, se vier, não começará propriamente nas urnas. Começará de novo nos tribunais. E será ali, mais uma vez, que o ex-procurador terá de provar se sua esperança é viável ou apenas uma aposta arriscada em um cenário que continua, para ele, tão político quanto jurídico.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp