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Ponte de Guaratuba: denúncia aponta novo aditivo de R$ 88 milhões e viagem suspeita ao Paraguai

Suposto acerto entre diretora do DER e executivo da Odebrecht elevaria gastos extras para R$ 160 milhões; obra sob gestão de Sandro Alex já acumula 26% de aumento no custo original

Ponte de Guaratuba: denúncia aponta novo aditivo de R$ 88 milhões e viagem suspeita ao Paraguai

Uma denúncia recebida pela reportagem da Gazeta do Paraná, aponta suspeitas de irregularidades envolvendo a obra da Ponte de Guaratuba, no litoral do Paraná. Segundo o relato de nossa fonte, o Governo do Estado estaria preparando um aditivo contratual de R$ 88 milhões junto ao Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER) e à empresa OECI, o que elevaria o total de acréscimos no contrato para cerca de R$ 160 milhões. A mesma denúncia afirma que o suposto alinhamento entre as partes teria ocorrido durante uma viagem ao Paraguai envolvendo a diretora técnica do DER/PR Janice Kazmierczak Soares e o diretor da OECI Luciano Ribeiro Pizzatto, que teria sido custeada pela própria construtora, sem autorização oficial do Estado.

A denúncia surge em meio a uma sequência de reajustes já registrados no contrato da obra, considerada uma das mais aguardadas do litoral do Paraná.

Com 1.244 metros de extensão e 22,60 metros de largura, a Ponte de Guaratuba é tratada como estratégica para melhorar a mobilidade e impulsionar o turismo e a economia da região. Apesar disso, os dados oficiais indicam que o custo do projeto já sofreu aumento significativo ao longo da execução.

Informações checadas pela reportagem no Portal da Transparência mostram que o valor da obra passou de R$ 386.939.000,00, inicialmente previsto, para R$ 488.804.650,10, o que representa um acréscimo de R$ 101.865.650,00, equivalente a 26% de aumento. A execução é coordenada pelo DER/PR, vinculado à Secretaria de Infraestrutura e Logística do Estado (SEIL), e conduzida pelo Consórcio Nova Ponte.

Ainda antes do início efetivo das obras, em junho de 2023, o DER/PR autorizou um reajuste de R$ 29.071.033,18 sobre o valor original do contrato, elevando o montante para R$ 416.010.033,18.

Já durante a execução, novos aditivos foram incorporados. O primeiro deles foi formalizado em junho de 2025, com acréscimo de R$ 10.991.202,05, justificado pela necessidade de adequações relacionadas ao alteamento de uma linha de transmissão de energia elétrica de alta tensão.

Na sequência, em agosto de 2025, foi firmado um segundo aditivo que não alterou valores, mas prorrogou o prazo de execução da obra em 257 dias corridos. Com isso, o período total passou de 960 para 1.217 dias, com vigência contratual estendida até 17 de outubro de 2026.

O terceiro aditivo foi celebrado em outubro de 2025 e incluiu a ampliação de serviços previstos, como terraplanagem, drenagem, pavimentação e sinalização. Essa etapa acrescentou R$ 51.557.173,46 ao contrato. No mesmo período, também foi registrada a previsão de reajuste adicional de R$ 10.246.252,05.

Para viabilizar essa última alteração contratual, o Consórcio Nova Ponte assumiu os custos do seguro garantia, no valor de R$ 15.467.152,03.

Responsável pela execução do projeto, o Consórcio Nova Ponte reúne três construtoras, entre elas a OECI, subsidiária da Odebrecht Engenharia & Construção.

A empresa integra o grupo que, após os desdobramentos da Operação Lava Jato, passou por um processo de reestruturação e mudança de marca. Em 2020, o conglomerado adotou o nome Novonor, substituindo a tradicional marca Odebrecht. No entanto, após cerca de quatro anos e meio, a companhia anunciou o retorno à identidade original, retomando o nome Odebrecht Engenharia & Construção e abandonando a sigla OEC.

No processo de licitação da ponte, a OECI S.A. participou da disputa de preços realizada em setembro, com proposta de R$ 386.939.000,00. Inicialmente classificada em terceiro lugar, a empresa assumiu o contrato após o DER/PR inabilitar as duas primeiras colocadas, que haviam ofertado valores ligeiramente inferiores.

Enquanto os questionamentos sobre custos e aditivos avançam, o Governo do Estado informa que as obras seguem em fase final. Nos últimos dias, teve início a implantação de pavimento asfáltico e canaletas de drenagem no acesso pelo lado de Matinhos. Do lado de Guaratuba, a pavimentação foi iniciada no fim de março e se aproxima da conclusão, restando etapas como iluminação e acabamento.

Também avançam os trabalhos estruturais, como a instalação das juntas de dilatação ao longo do tabuleiro, além de testes de iluminação e preparação para a sinalização viária.

A pavimentação sobre o tabuleiro foi concluída no início de abril, com a aplicação da última camada asfáltica. Também já foram finalizadas estruturas como guarda-corpos e barreiras do tipo New Jersey.

De acordo com o cronograma, as obras devem continuar durante o feriado de Tiradentes, com previsão de conclusão nas semanas seguintes. A ponte terá mais de 1,2 quilômetro de extensão sobre a baía e cerca de três quilômetros no total, com quatro faixas de tráfego, ciclovia e espaço para pedestres.

À frente da Secretaria de Infraestrutura e Logística do Paraná, o deputado federal licenciado Sandro Alex é o principal responsável pela condução das maiores obras do Estado, incluindo a construção da Ponte de Guaratuba, considerada um dos projetos mais emblemáticos da atual gestão. É sob sua gestão que a obra vem sendo executada, com acompanhamento direto dos contratos, aditivos e cronograma.

Diante desse cenário, outra questão se impõe: até que ponto os sucessivos aditivos em obras estratégicas, como a Ponte de Guaratuba, atendem exclusivamente a critérios técnicos ou passam a orbitar também interesses políticos? Em um contexto em que contratos públicos ganham protagonismo na construção de candidaturas, é legítimo questionar quem, de fato, se beneficia do aumento expressivo desses valores.

A dúvida ganha ainda mais relevância quando se observa o histórico recente do grupo político. O nome de Guto Silva, aliado do governo e também já cotado no tabuleiro sucessório, foi citado em investigações que apuram suspeitas de irregularidades em contratos públicos. Reportagem de O Globo revelou que a Justiça do Paraná autorizou a quebra de sigilo bancário de empresários envolvidos em um caso que investiga possível fraude em licitação, pagamento de propina e desvio de recursos.

Além desse episódio, o ex-secretário também aparece em outro caso que ganhou repercussão recente no Paraná. Áudios apresentados pela oposição na Assembleia Legislativa indicam diálogos entre ex-integrantes da Sanepar e aliados políticos, com menções a arrecadação de recursos entre funcionários para cobrir despesas de campanha eleitoral.

Nas gravações, há referências a figuras do governo estadual, incluindo Guto Silva, citado no contexto das conversas. O material menciona valores, prazos, formas de arrecadação e estratégias para movimentação de dinheiro, além de cuidados para evitar o rastreamento das operações.

A Gazeta do Paraná procurou o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná para esclarecer a possibilidade de novos aditivos na obra e questionar o órgão sobre o relato de uma viagem envolvendo uma representante do Estado e integrantes da empresa, que, segundo a denúncia recebida pela reportagem, teria ocorrido sem autorização oficial.

Até o fechamento desta reportagem, o DER/PR não havia se manifestado. O espaço segue aberto

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