Airbnb vira campo de batalha: condomínios ganham poder de veto enquanto plataforma avança sobre hotéis
Decisões judiciais fortalecem moradores contra locações por temporada, ao mesmo tempo em que o Airbnb amplia atuação e acirra disputa com a hotelaria tradicional
Por Gazeta do Paraná
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O crescimento acelerado das plataformas de aluguel por temporada, lideradas pelo Airbnb, abriu uma nova frente de conflito no mercado imobiliário brasileiro. De um lado, moradores e condomínios buscam limitar a circulação constante de hóspedes. De outro, a plataforma amplia sua atuação global e passa a disputar espaço diretamente com hotéis.
No Brasil, o ponto de tensão mais recente está dentro dos próprios condomínios. A Justiça tem consolidado o entendimento de que o uso de imóveis para locação de curta duração depende da autorização coletiva dos moradores. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) já firmou posição no sentido de que condomínios podem proibir esse tipo de atividade, desde que a restrição esteja prevista na convenção ou aprovada em assembleia.
Na prática, isso significa que o direito individual do proprietário encontra limites no interesse coletivo. A locação via aplicativos passou a ser tratada, em muitos casos, não como aluguel tradicional, mas como uma forma de hospedagem — o que altera sua natureza jurídica.
Essa distinção é central para o debate. Enquanto a Lei do Inquilinato permite a locação por temporada de até 90 dias, a alta rotatividade de hóspedes e a prestação de serviços associados aproximam a atividade do modelo hoteleiro.
O resultado é um cenário de crescente judicialização. Condomínios em diversas cidades têm reforçado regras internas, exigindo cadastro de hóspedes, controle de acesso e, em muitos casos, proibindo completamente o uso de plataformas digitais.
A pressão não vem apenas dos moradores. O setor hoteleiro também intensificou o cerco regulatório, alegando concorrência desigual. Em cidades brasileiras, já há discussões sobre cobrança de impostos e criação de cadastros obrigatórios para anfitriões, numa tentativa de equiparar as regras entre hotéis e locações por temporada.
Enquanto enfrenta restrições locais, o Airbnb reage com estratégia global. A empresa vem ampliando sua atuação e passou a incorporar hotéis em sua plataforma, buscando diversificar receitas e competir diretamente com grandes redes internacionais. A movimentação sinaliza uma mudança de posicionamento: de intermediadora de hospedagens alternativas para um marketplace mais amplo do setor de turismo.
O movimento também é uma resposta à crescente regulamentação em diversos países. Cidades na Europa e nos Estados Unidos já impõem limites rigorosos ao número de dias de locação e exigem registro dos imóveis, cenário que começa a se desenhar no Brasil.
Ao mesmo tempo, o avanço do modelo de curta duração levanta preocupações urbanas. Especialistas apontam que a conversão de imóveis residenciais em unidades turísticas pode reduzir a oferta de moradia e pressionar os preços dos aluguéis, além de alterar a dinâmica de bairros inteiros.
Entre o direito de propriedade, a segurança condominial e a lógica de mercado, o Airbnb se tornou mais do que uma plataforma de hospedagem. É hoje um dos principais pontos de disputa entre moradores, investidores e o setor tradicional de turismo — um conflito que ainda está longe de um desfecho definitivo.
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