Vídeo, denúncia formal e mandados expõem suposto esquema de fraude em licitações em Rebouças
Investigação da Polícia Civil tem como base gravação feita no gabinete da Câmara; documento aponta vereador e empresa por uso de informações sigilosas para vencer certames
Por Gazeta do Paraná
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A investigação que apura possíveis fraudes em licitações na Câmara Municipal de Rebouças avançou com base em uma denúncia formal, um vídeo gravado dentro do próprio Legislativo e o cumprimento de mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça.
A Notícia-Crime apresentada pelo presidente da Câmara, Jefferson Matsuti Okamoto, aponta o vereador Márcio Roberto de Souza, conhecido como “Tiu Chico”, e a empresa Antunes e Copanski Ltda, representada por seus sócios Marcos Paulo Copanski e Paula Franciele Pyl Antunes Copanski, como envolvidos em um suposto esquema de manipulação de resultados em processos licitatórios.
De acordo com o documento, o vereador “utilizando-se de seu cargo e de acesso privilegiado a informações, estaria obtendo fotos ou detalhes dos lances apresentados por outros licitantes”, e tais dados “eram então repassados ao concorrente Antunes e Copanski LTDA, que, de posse dessas informações, ajustava seu lance para um valor abaixo dos demais, garantindo assim a vitória nas licitações de forma indevida e fraudulenta”.
Ainda segundo a denúncia, “essas informações sensíveis e sigilosas, essenciais para a competitividade dos certames”, teriam sido utilizadas para comprometer a lisura dos processos licitatórios.
Gravação no gabinete
O principal elemento da investigação é uma gravação realizada no dia 9 de fevereiro de 2026, dentro do gabinete da presidência da Câmara.
Conforme o documento, durante a reunião, a representante da empresa mencionada “confessou detalhadamente o modus operandi da fraude, confirmando a participação do vereador […] e descrevendo como as informações sigilosas eram obtidas e utilizadas para manipular o resultado das licitações anteriores”.
A peça ainda afirma que “a gravação revela o ajuste entre o vereador e o concorrente, bem como a forma como as licitações eram viciadas”, sendo tratada como elemento central da apuração.
Mandados e investigação policial
A Polícia Civil instaurou inquérito com base na denúncia e no conteúdo da gravação. Ao todo, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão em endereços residenciais e comerciais de investigados.
Durante a operação, foram recolhidos celulares, computadores e documentos, que passam por análise e eventual perícia.
O delegado responsável pelo caso afirmou que a investigação teve origem em um vídeo “em que uma empresária relata alguns eventuais ilícitos cometidos no âmbito do processo de licitação da Câmara de Vereadores”, destacando que o material apreendido será analisado nos próximos dias.
Possível ligação com a Prefeitura
Os documentos também indicam a possível participação de um terceiro envolvido, ligado à Prefeitura de Rebouças.
Segundo a denúncia, as informações utilizadas no esquema “poderiam ser obtidas também por intermédio de outro indivíduo, cuja identidade deve ser objeto de apuração”, incluindo “um agente público ligado diretamente à Prefeitura Municipal de Rebouças/PR”.
Tentativa de cassação foi arquivada
Paralelamente à denúncia criminal, o presidente da Câmara protocolou pedido de cassação do mandato do vereador, alegando quebra de decoro parlamentar.
O documento sustenta que a conduta representa “uso espúrio do mandato para beneficiamento próprio ou de terceiros em detrimento do interesse público” e que a prática configura “afronta direta aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência que devem reger a Administração Pública”.
Apesar disso, o plenário da Câmara rejeitou a abertura de investigação interna por 6 votos a 2.
Em entrevista, Okamoto criticou duramente a decisão dos colegas. “O dever do vereador é fiscalizar. Quando a gente diz que vai deixar tudo para a Justiça, o Legislativo fica de mãos abanando. Isso é uma vergonha para a Câmara de Rebouças”, afirmou.
Ele também detalhou o que considera ser o funcionamento do esquema. “O vereador tinha alguém que ele queria que ganhasse e repassava os valores dos concorrentes. A empresa baixava em alguns centavos e ganhava a licitação. Basicamente, fazia os outros de idiota para garantir a vitória de quem ele queria”, declarou.
Empresa com histórico de contratos públicos
Levantamento documental indica que a empresa Antunes e Copanski Ltda, conhecida como Mercado Antunes, possui participação recorrente em contratos com o poder público municipal.
Os registros mostram contratos firmados em diferentes anos. Em 2024, há contratos que chegam a R$ 411,7 mil e R$ 365,7 mil, além de outros na faixa de R$ 25 mil a R$ 32 mil. Em 2025, os valores incluem contratos de aproximadamente R$ 181,4 mil — com aditivo superior a R$ 249 mil — além de outros de R$ 91,8 mil e R$ 97,6 mil. Já em 2026, aparecem novos vínculos, incluindo contrato na faixa de R$ 4 mil ainda vigente.
Os contratos foram firmados por meio de pregões e registros de preço, indicando continuidade da atuação da empresa junto à administração municipal ao longo dos últimos anos.
A reportagem não afirma irregularidade nesses contratos, mas os dados passam a integrar o contexto analisado pelas autoridades.
Histórico de questionamentos no município
O caso atual não é isolado. Nos últimos anos, o município de Rebouças já foi alvo de outras denúncias envolvendo contratos públicos.
Em 2023, uma ação judicial apontou possíveis irregularidades na aquisição de um equipamento rodoviário, incluindo questionamentos sobre a execução do contrato e a adequação do objeto entregue ao previsto em edital.
Em outro episódio, o Ministério Público também analisou suposto prejuízo aos cofres públicos em contratos da administração municipal, caso em que o ex-prefeito Luiz Everaldo Zak e sua defesa negaram irregularidades.
Embora distintos, os episódios evidenciam um histórico recente de questionamentos sobre a condução de licitações no município.
Próximos passos
A Polícia Civil segue com a análise do material apreendido, que poderá passar por perícia técnica. A investigação busca confirmar a materialidade dos fatos e identificar todos os envolvidos.
O Ministério Público acompanha o caso e poderá adotar medidas a partir dos elementos reunidos no inquérito.
Créditos: Redação
