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Guerra no Oriente Médio: Alta do diesel ameaça frete e custos do agronegócio Créditos: Claudio Neves/Portos do Paraná

Guerra no Oriente Médio: Alta do diesel ameaça frete e custos do agronegócio

Com o diesel representando 50% do custo do frete, setor de transporte já sente reflexos na logística da safra

A escalada do conflito no Oriente Médio já começa a gerar reflexos no mercado internacional e acende alertas para setores estratégicos da economia brasileira, como transporte, logística e agronegócio. A região concentra alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo e também rotas marítimas fundamentais para o abastecimento energético global.

Nos primeiros dias após o início do conflito, o mercado internacional reagiu rapidamente. O barril de petróleo registrou alta nas bolsas internacionais, movimento que tende a impactar o preço dos combustíveis em diversos países.

Segundo o economista Rui São Pedro, o comportamento do petróleo é imediato em situações de instabilidade geopolítica.

“O petróleo é uma commodity negociada em bolsas internacionais. Logo após o início do conflito, o barril já registrou aumento de cerca de 7%. Isso indica que o impacto no preço dos combustíveis tende a chegar rapidamente ao consumidor”, explica.

De acordo com ele, mesmo países produtores de petróleo acabam sendo afetados pelas oscilações do mercado internacional.

“Embora o Brasil seja um grande produtor, o petróleo que produzimos não é o mais adequado para gerar gasolina e diesel em grande escala. Por isso dependemos da importação de petróleo mais leve, e isso nos deixa expostos às variações internacionais”, afirma.

Estreito estratégico concentra 20% do petróleo mundial

Um dos pontos mais sensíveis do conflito é o Estreito de Ormuz, passagem marítima localizada entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. A rota é considerada estratégica para o comércio global de energia.

Segundo especialistas, cerca de 20% do petróleo consumido no mundo passa por essa região. Qualquer bloqueio ou restrição na navegação pode provocar forte impacto no abastecimento global.

“Se o Estreito de Ormuz sofre qualquer tipo de bloqueio ou limitação, uma parte relevante da produção mundial de petróleo deixa de circular. Isso gera pressão imediata sobre os preços da energia”, explica Rui São Pedro.

O professor e analista Claudio Rojo afirma que conflitos nessa região costumam provocar repercussões que ultrapassam o campo militar e atingem diretamente a economia mundial.

“Energia, transporte e alimentos estão conectados em uma mesma rede global. Quando o preço do petróleo sobe, os efeitos acabam se espalhando por fertilizantes, fretes e alimentos”, afirma.

Segundo ele, a economia global reage rapidamente a qualquer sinal de instabilidade em regiões estratégicas.

“O Oriente Médio concentra algumas das maiores reservas e produtores de petróleo do planeta. Quando há instabilidade nessa região, o impacto não fica restrito ao conflito. Ele se espalha por cadeias produtivas em diversos países”, explica.

Impacto imediato no transporte

No Brasil, um dos primeiros setores a sentir os efeitos da alta do petróleo é o transporte de cargas, especialmente o rodoviário, responsável pela maior parte da movimentação de mercadorias no país.

Edson Pilati, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Oeste do Paraná (Sintropar), afirma que o impacto no setor é praticamente imediato.

“O mercado de energia reage muito rápido aos sinais de conflito. O diesel é o principal custo do transporte rodoviário e representa mais de 50% do valor do frete. Por isso, qualquer aumento no petróleo tem impacto direto na atividade”, explica.

Segundo ele, os efeitos já começaram a ser percebidos poucos dias após o início da guerra.

“Logo nos primeiros dias já tivemos aumento no preço do diesel em postos da região. No início alguns conseguem segurar o preço por causa de estoques, mas isso dura pouco. Quando é necessário repor o combustível, o aumento chega rapidamente”, afirma.

Frete e transporte da safra podem ficar mais caros

O aumento do diesel e a instabilidade no comércio internacional também podem encarecer o transporte da produção agrícola.

“Com o aumento do combustível, toda a cadeia logística sente. O frete fica mais caro, o transporte da safra encarece e isso acaba refletindo em toda a cadeia produtiva do agronegócio”, diz Pilati.

Segundo ele, mesmo empresas que possuem reservas próprias de combustível conseguem absorver o impacto apenas por um período curto.

“Algumas transportadoras conseguem trabalhar com estoque em tanques próprios, mas isso é limitado em relação ao tamanho do mercado. Em pouco tempo o aumento acaba chegando ao custo do frete”, afirma.

Exportações para o Oriente Médio preocupam

Outro ponto de atenção envolve as exportações brasileiras de alimentos, especialmente carne de frango e bovina, já que países do Oriente Médio estão entre os principais compradores desses produtos.

De acordo com Pilati, a região Oeste do Paraná possui forte relação comercial com esses mercados.

“Uma parcela significativa da produção de carnes do oeste do Paraná tem como destino o Oriente Médio. Se houver fechamento de portos ou problemas nas rotas marítimas, essas exportações podem ser afetadas”, alerta.

Ele explica que a instabilidade também pode elevar o custo do transporte marítimo.

“Quando existe risco de navegação em áreas próximas ao conflito, os seguros marítimos aumentam e o frete internacional também fica mais caro. Isso impacta diretamente a cadeia de exportação”, afirma.

Fertilizantes e insumos também podem sofrer pressão

Além do combustível, o petróleo é matéria-prima para diversos produtos utilizados na indústria e na agricultura, como fertilizantes, plásticos e pneus.

Segundo Pilati, a elevação do petróleo pode gerar reflexos indiretos em vários setores da economia.

“O petróleo é insumo para diversos produtos, como pneus, polímeros e fertilizantes químicos. Quando há aumento no preço ou interrupções na produção, toda a cadeia produtiva pode ser impactada”, explica.

Incerteza domina o cenário econômico

Para especialistas, o principal fator de preocupação neste momento é a duração e a intensidade do conflito.

Quanto mais tempo a guerra se prolongar, maior tende a ser o impacto sobre preços, logística e comércio internacional.

“O maior problema em momentos como esse é a imprevisibilidade. Tudo depende de como o conflito vai evoluir e quanto tempo ele vai durar. Isso dificulta o planejamento das empresas e aumenta o risco de custos mais altos”, afirma Pilati.

Ao mesmo tempo, analistas apontam que países com forte capacidade de produção de alimentos, como o Brasil, podem ganhar relevância em cenários de instabilidade global.

Segundo Claudio Rojo, em momentos de crise internacional os mercados tendem a buscar fornecedores considerados confiáveis.

“O Brasil possui grande capacidade de produção de alimentos e isso pode se tornar uma vantagem estratégica em períodos de instabilidade no mercado global”, avalia.

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