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As três vezes em que os Estados Unidos capturaram presidentes em exercício

Em três episódios raríssimos — Noriega no Panamá, Saddam no Iraque e Maduro na Venezuela — os Estados Unidos cruzaram a fronteira diplomática e capturaram presidentes, alegando crime, guerra ou ameaça internacional

Por Gazeta do Paraná

As três vezes em que os Estados Unidos capturaram presidentes em exercício Créditos: Reprodução

Há decisões na política internacional que não cabem em notas oficiais nem em comunicados diplomáticos. Elas acontecem de madrugada, com helicópteros cortando o céu, explosões ao longe e um anúncio seco feito horas depois. A captura de um presidente estrangeiro por forças dos Estados Unidos pertence a essa categoria rara — extrema, ruidosa e historicamente excepcional.

 

Ao longo de mais de um século de intervenções, pressões e guerras indiretas, Washington só cruzou essa linha três vezes. Em cada uma delas, o alvo era um chefe de Estado transformado em símbolo: do inimigo, do caos ou do crime organizado. O método variou, o contexto mudou, mas o gesto foi sempre o mesmo — retirar o presidente do poder pela força.

 

Panamá, 1989: o aliado que virou réu

No fim da Guerra Fria, o Panamá era um pequeno país com um ativo estratégico gigantesco: o canal que liga dois oceanos. À frente do governo estava Manuel Noriega, general formado e treinado pelos próprios Estados Unidos, durante anos colaborador da CIA.

A relação azedou quando Washington passou a acusá-lo de algo que ultrapassava a política: narcotráfico, lavagem de dinheiro e ligação direta com cartéis colombianos. Noriega deixou de ser um aliado incômodo para se tornar um criminoso internacional.

Em dezembro de 1989, os EUA lançaram a Operação Just Cause. Tropas desembarcaram no Panamá, bombardearam pontos estratégicos e tomaram o controle do país em poucos dias. Noriega tentou resistir refugiando-se na Nunciatura Apostólica, mas acabou se rendendo após um cerco psicológico que entrou para o folclore diplomático.

Algemado, foi levado para os Estados Unidos, julgado em tribunal federal e condenado. Era a primeira vez que um presidente estrangeiro era capturado e processado em solo americano. A mensagem estava dada: Washington não hesitaria em tratar um chefe de Estado como réu comum.

Em Miami, foi julgado por um tribunal federal e condenado por tráfico internacional de drogas, conspiração e lavagem de dinheiro. Cumpriu mais de 17 anos de prisão em penitenciárias americanas.

Após cumprir pena nos EUA, Noriega foi extraditado para a França, onde também foi condenado por lavagem de dinheiro. Em seguida, foi enviado de volta ao Panamá, onde enfrentou novos processos relacionados a crimes cometidos durante seu regime.

Já idoso e com a saúde debilitada, terminou seus dias sob custódia domiciliar e depois hospitalar. Manuel Noriega morreu em 2017, aos 83 anos, no Panamá.

 

Iraque, 2003: a captura que simbolizou uma guerra

Quatorze anos depois, o mundo assistiria a uma operação de escala muito maior. O alvo era Saddam Hussein, que governava o Iraque desde os anos 1970.

Após os atentados de 11 de setembro, Saddam foi apresentado pela Casa Branca como ameaça global. As acusações incluíam armas de destruição em massa e vínculos com o terrorismo — alegações que mais tarde se revelariam falsas, mas que serviram de base para a invasão.

Em março de 2003, tropas americanas entraram no Iraque. Meses depois, Saddam foi encontrado escondido em um buraco próximo a Tikrit, em uma operação televisionada que correu o mundo. Diferentemente de Noriega, ele não foi levado aos EUA. Foi entregue às autoridades iraquianas, julgado e executado.

A captura de Saddam se tornaria o símbolo máximo da política de “mudança de regime” pela força — e também o início de um longo trauma político para os próprios Estados Unidos.

 

Venezuela, 2026: da sanção à captura

Décadas depois, a linha voltou a ser cruzada — desta vez na América do Sul. O presidente venezuelano Nicolás Maduro já era alvo de sanções duríssimas, isolamento diplomático e acusações formais do Departamento de Justiça dos EUA, que o ligavam ao narcotráfico e ao chamado narco-terrorismo.

Por anos, Washington apostou no estrangulamento econômico e na pressão política. Mas, na madrugada de janeiro de 2026, essa estratégia deu lugar a uma ação direta. Ataques militares atingiram pontos estratégicos da Venezuela, e Maduro foi capturado por forças americanas e retirado do país para ser julgado nos Estados Unidos.

Diferentemente do Iraque, não houve ocupação prolongada. Diferentemente do Panamá, não se tratava de um ex-aliado isolado. Mas nos três casos os Estados Unidos só avançaram para a captura quando deixaram de tratar o conflito como disputa política e passaram a enquadrar o líder como ameaça criminal ou estratégica, retirando-lhe, na prática, o status de chefe de Estado. Em todos, houve acusações graves previamente formalizadas, construção de um discurso de excepcionalidade (guerra, narcotráfico ou segurança internacional), isolamento diplomático progressivo e a decisão de que sanções ou negociações já não bastavam. A captura ocorreu como ato final de uma escalada longa, não como evento isolado, e serviu tanto para neutralizar o líder quanto para produzir um efeito simbólico: afirmar que, diante de certos limites, Washington se reserva o direito de substituir a diplomacia pela força.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp