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A alfaiataria dos poderosos: do caso Master aos negócios bilionários no Paraná

Endereço que surgiu em mensagens de interlocutor de Daniel Vorcaro envolvendo André Mendonça já havia sido revelado pela Gazeta como cenário de reuniões sobre grandes negócios no Estado; Nelson Tanure, Fábio Faria e um misterioso terceiro elemento aparecem no centro dessa história

Por Gazeta do Paraná

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A alfaiataria dos poderosos: do caso Master aos negócios bilionários no Paraná Créditos: Google Maps

Uma foto, um terno e uma mensagem enviada a Daniel Vorcaro colocaram nesta quarta-feira (2) uma sofisticada alfaiataria frequentada por políticos e empresários no meio de mais um capítulo do caso Banco Master. O endereço é a Vasco Vasconcellos, nome conhecido da alta alfaiataria brasileira e que agora aparece também nas investigações sobre as relações mantidas pelo banqueiro com personagens do alto escalão da República.

Para a Gazeta do Paraná, porém, o endereço não é novidade. Muito antes de a Vasco Vasconcellos aparecer nas mensagens extraídas do celular de Vorcaro, fontes da Gazeta já haviam apontado a alfaiataria como cenário de encontros reservados entre personagens poderosos. O assunto, segundo os relatos, passava por negócios bilionários no Paraná e pelas movimentações que cercaram grandes operações realizadas durante o governo de Ratinho Junior.

As informações foram reveladas pela coluna Política & Cia e também pelo programa Tijolinho. Entre os personagens citados pelas fontes estavam o empresário Nelson Tanure, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e um terceiro elemento, descrito como alguém muito próximo do governador Ratinho Junior.

Agora, a alfaiataria que aparecia naquela história voltou às manchetes nacionais. Desta vez, dentro do celular de Daniel Vorcaro.

 

“Trabalhando por você”

Em 8 de fevereiro de 2025, o advogado Ciro Rocha Soares enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia ao lado do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Logo depois, veio o áudio: “Fala, Vorcarinho. Trabalhando por você. Levei o André lá no Vasco agora para fazer um terno”, disse Ciro.

Naquele período, segundo as mensagens analisadas pela Polícia Federal, Ciro buscava aproximar Vorcaro de Mendonça. Pouco mais de um mês depois, em 14 de março, o banqueiro e o ministro efetivamente se encontraram em São Paulo.

Mendonça confirmou ter encontrado Ciro na alfaiataria Vasco na unidade de Brasília, mas contestou a versão apresentada pelo advogado. Disse que não foi levado por ele ao estabelecimento e que nenhuma despesa sua foi paga por Ciro.

Ao relatar a Vorcaro sua aproximação com Mendonça, Ciro fez questão de mencionar o endereço: estivera com o ministro “lá no Vasco”. Era o mesmo local que já aparecia nas informações recebidas pela Gazeta, mas em outra unidade da mesma empresa. 

 

O endereço

As informações obtidas anteriormente pela Gazeta apontavam a unidade paulista da Vasco Vasconcellos como local de reuniões reservadas envolvendo personagens interessados em grandes operações no Paraná. Segundo as fontes, naquele ambiente teriam sido discutidos negócios bilionários e movimentações relacionadas a processos de privatização realizados no Estado durante o governo Ratinho Junior.

É nesse cenário que as fontes situam Nelson Tanure, Fábio Faria e o terceiro personagem próximo ao governador.

Tanure já possuía histórico de participação em negócios envolvendo ativos paranaenses. Em 2020, o Fundo Bordeaux, então ligado ao empresário, venceu o leilão da Sercomtel, de Londrina, transferindo o controle da companhia à iniciativa privada.

Anos depois, o nome de Tanure apareceria no centro de outra história bilionária.

 

Tanure e o Master

A Polícia Federal apontou Nelson Tanure como possível “sócio oculto” do Banco Master, exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias. O empresário também foi alvo de busca e apreensão na Operação Compliance Zero, que investiga as operações da instituição de Daniel Vorcaro.

A suspeita chegou ao Senado. Em março, durante depoimento à CPI do Crime Organizado, o fundador da Esh Capital, Vladimir Timerman, afirmou aos parlamentares que Vorcaro não seria o verdadeiro dono do Banco Master e apontou Tanure como um dos personagens que estariam efetivamente no comando da instituição.

“O senhor Nelson Tanure é uma das cabeças, eu acho que é o mais alto da hierarquia”, declarou Timerman. Segundo a versão apresentada pelo gestor aos senadores, Vorcaro funcionaria como uma espécie de face pública do banco, enquanto outros personagens permaneceriam por trás de sua estrutura.

Tanure nega categoricamente a acusação. Sustenta que nunca foi sócio, controlador ou beneficiário direto ou indireto do Banco Master e afirma ter mantido com a instituição apenas relações comerciais legítimas, como cliente e investidor.

 

Fábio Faria

Fábio Faria, o segundo personagem apontado pelas fontes nas reuniões da alfaiataria, também aparece no celular de Daniel Vorcaro. As mensagens revelam o ex-ministro atuando como intermediário do banqueiro junto a autoridades.

Foi Faria quem ajudou a aproximar Vorcaro de Alexandre de Moraes. Em dezembro de 2023, o banqueiro esteve na casa do ministro, em São Paulo. Antes do encontro, Faria pediu o modelo e a placa do carro de Vorcaro para que sua entrada na garagem fosse autorizada. Depois, repassou ao banqueiro um contato atribuído a Moraes.

A intermediação continuou nos meses seguintes. Em janeiro de 2024, Faria aparece em conversas relacionadas ao contrato que seria firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Segundo o relatório da PF, perguntou a Vorcaro se ele havia respondido a “Vivi” e participou de conversas sobre o prazo do contrato.

Em outra mensagem, Faria avisou Vorcaro que havia confirmado um jantar com “o Careca”. Em outro momento, encaminhou uma conversa com Moraes e informou que iria remarcar um encontro com “Alex”. Os registros também mostram o ex-ministro providenciando endereços, horários e contatos.

O homem citado pelas fontes da Gazeta nas conversas sobre negócios no Paraná era também um dos interlocutores de Vorcaro com acesso direto a integrantes do alto escalão da República.

 

O terceiro homem

Há ainda o terceiro personagem. As fontes que relataram à Gazeta as reuniões na Vasco Vasconcellos o descreveram como alguém muito próximo do governador Ratinho Junior. Sua existência já havia sido mencionada pelo jornal no programa Tijolinho, sem a divulgação de sua identidade.

A Gazeta apurou posteriormente que esse personagem manteve uma relação contratual milionária com o Banco Master e recebeu milhões de reais da instituição. A existência do contrato e dos pagamentos foi comprovada documentalmente pela reportagem.

A Gazeta conhece sua identidade, mas ainda não publicará o nome enquanto busca confirmar sua participação nas reuniões da alfaiataria.

Assim, os três personagens apontados pelas fontes naquele endereço reaparecem, por caminhos diferentes, no universo do Master: Tanure nas investigações sobre a estrutura e o controle da instituição; Faria nas mensagens de Vorcaro; e o terceiro homem em um contrato milionário com o banco.

 

Portas abertas

O episódio envolvendo André Mendonça apresenta outro intermediário. Em vez de Fábio Faria, entra em cena o advogado Ciro Rocha Soares.

Segundo as mensagens, Ciro buscava aproximar Vorcaro de Mendonça quando enviou a fotografia ao lado do ministro e afirmou estar “trabalhando” para o banqueiro. Pouco mais de um mês depois, Vorcaro e Mendonça se encontraram.

No caso de Alexandre de Moraes, as mensagens mostram Fábio Faria organizando encontros, repassando contatos e providenciando acessos. No episódio envolvendo Mendonça, Ciro aparece exercendo papel semelhante. É nesse segundo circuito que surge documentalmente a Vasco Vasconcellos.

A alfaiataria atua em São Paulo e Brasília e tem entre seus clientes empresários, executivos e figuras públicas. Em 2025, segundo o próprio Vasco Vasconcellos, a empresa faturou R$ 48 milhões. Os costumes sob medida começam na casa dos R$ 18,9 mil, e algumas peças podem alcançar valores de centenas de milhares de reais.

Não há indicação de que o estabelecimento ou seu proprietário tenham participado das articulações mantidas por seus clientes.

 

A Gazeta chegou antes

Quando a Gazeta do Paraná revelou as primeiras informações sobre as reuniões na Vasco Vasconcellos, o endereço ainda não havia aparecido nas investigações nacionais do caso Master. As fontes apontavam três personagens: Nelson Tanure, Fábio Faria e um homem muito próximo de Ratinho Junior.

Depois vieram os documentos. Tanure entrou no centro das investigações sobre o Master. Fábio Faria apareceu nas mensagens de Vorcaro abrindo portas junto a autoridades. O terceiro personagem teve comprovado um contrato milionário com o banco.

Agora, o próprio endereço aparece no celular de Vorcaro. “Levei o André lá no Vasco agora para fazer um terno”, disse Ciro Rocha Soares ao banqueiro.

Os episódios ocorreram em períodos diferentes e, até aqui, não há prova de que façam parte de uma mesma articulação. Mas o endereço que surgiu nas mensagens do caso Master já era conhecido da Gazeta.

A alfaiataria apareceu primeiro nas informações das fontes. Depois vieram os documentos. E os três caminhos chegaram ao mesmo lugar: ao Banco Master.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp