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Pesquisas, obras, Copel e debates: checamos falas de Sandro Alex, Moro e Requião Filho

Gazeta do Paraná analisou declarações divulgadas entre 24 e 28 de setembro e encontrou afirmações classificadas como enganosas ou incompletas; checagem confrontou discursos de campanha com pesquisas, registros públicos e documentos oficiais

Ana Zimermann · · 8 min de leitura
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... — Crédito: divulgação campanhas

A poucos dias da votação do primeiro turno, a disputa pelo Governo do Paraná entrou em uma fase de maior intensidade, com agendas concentradas, carreatas, entrevistas, sabatinas, divulgação de pesquisas e ataques diretos entre adversários. Nesse ambiente, números sobre obras, segurança, serviços públicos e desempenho eleitoral passaram a ser usados com frequência crescente pelas campanhas para sustentar suas narrativas.

É justamente nesse momento que a verificação das declarações ganha relevância. Afirmações feitas em entrevistas ou materiais oficiais de campanha podem misturar dados corretos com interpretações, projeções, generalizações ou recortes específicos de levantamentos. Por isso, a Gazeta do Paraná fez uma nova varredura nas falas de Sandro Alex (PSD), Sergio Moro (PL) e Requião Filho (PDT) divulgadas entre os dias 24 e 28 de setembro.

A análise priorizou declarações que pudessem ser confrontadas objetivamente com pesquisas registradas, documentos governamentais, registros de entrevistas, dados públicos e informações oficiais. Promessas de governo, opiniões pessoais e projeções sobre o futuro não foram classificadas como verdadeiras ou falsas.

Nos casos abaixo, a classificação considera exclusivamente a parte factual da declaração.

Campanha de Sandro diz que candidato “se consolidou na segunda colocação”

Classificação: ENGANOSA

Em material divulgado durante a reta final da campanha, a candidatura de Sandro Alex passou a sustentar que o candidato havia se “consolidado na segunda colocação” na corrida pelo Palácio Iguaçu. A afirmação encontra respaldo em alguns levantamentos. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 11 de setembro, por exemplo, apontou Sergio Moro com 35%, Sandro Alex com 25% e Requião Filho com 21%. Naquele levantamento específico, portanto, Sandro aparecia numericamente em segundo lugar. O problema está em transformar a posição registrada em determinados levantamentos em uma condição “consolidada”.

Pesquisas eleitorais realizadas por institutos diferentes ao longo de setembro apresentaram cenários distintos para a disputa entre Sandro Alex e Requião Filho. Isso significa que a segunda colocação não era uniforme no conjunto das pesquisas disponíveis. Por esse motivo, a afirmação é classificada como enganosa. Ela se apoia em pesquisas reais nas quais Sandro aparece na segunda posição, mas a palavra “consolidado” transmite uma estabilidade que não pode ser atribuída ao conjunto dos levantamentos.

Sandro Alex diz que Curitiba tem mais de R$ 500 milhões em obras com recursos do Estado

Classificação: INCOMPLETA 

Durante carreata realizada em Curitiba no dia 26 de setembro, Sandro Alex afirmou: “Só Curitiba tem em obras com recursos do Estado mais de R$ 500 milhões.” Logo depois, citou o trinário da Marechal Floriano, a trincheira do Jardim Botânico e as trincheiras da Vila São Pedro. Os investimentos mencionados existem e contam com participação financeira do Governo do Paraná. O convênio referente ao trinário da Marechal Floriano prevê R$ 164 milhões do Tesouro Estadual, além de contrapartida da Prefeitura de Curitiba. As trincheiras da Estação Vila São Pedro são objeto de convênio no valor de R$ 119 milhões entre Estado e município. Já a trincheira do Jardim Botânico foi anunciada com investimento de R$ 67,9 milhões. Somadas, as três intervenções citadas imediatamente após a declaração ficam abaixo dos R$ 500 milhões.

Em janeiro, o próprio Governo do Estado informou que os principais projetos viários então anunciados em parceria com Curitiba alcançavam aproximadamente R$ 400 milhões. Isso não significa que o volume total de recursos estaduais destinados a obras na capital não possa superar R$ 500 milhões. Há outros programas e investimentos estaduais em execução. A declaração, porém, não apresenta quais outros contratos ou convênios foram incluídos na conta para chegar aos “mais de R$ 500 milhões”. Por isso, recebe a classificação incompleta. Os investimentos mencionados são reais, mas a campanha não apresentou a memória de cálculo necessária para verificar integralmente o valor declarado.

Moro afirma que reclamações contra serviços da Copel são “constantes”

Classificação: INCOMPLETA

Durante plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Foz do Iguaçu, o Codefoz, realizada em 24 de setembro, Sergio Moro afirmou que as reclamações relacionadas aos serviços da Copel são “constantes”. Segundo o registro da entidade, Moro disse que, caso eleito, cobrará da companhia um plano consistente de investimentos. Existem registros públicos de reclamações envolvendo interrupções e oscilações de energia no Paraná.

O assunto chegou inclusive ao Senado. Em maio, a Comissão de Serviços de Infraestrutura realizou audiência pública para discutir quedas e oscilações de energia elétrica no Estado. Representantes do setor produtivo relataram problemas no fornecimento e prejuízos associados às interrupções. Isso demonstra que existem reclamações e episódios documentados. A frase, entretanto, não informa quantas reclamações foram registradas, qual período está sendo considerado nem se houve aumento ou redução dos problemas.

A qualidade do fornecimento de energia pode ser mensurada por indicadores regulatórios, como duração e frequência das interrupções, além do número de reclamações formalizadas. Sem apresentar essa série histórica, a expressão “constantes” não permite dimensionar o problema. Por isso, a declaração é classificada como incompleta; há base factual para a existência de reclamações, mas faltam dados que mostrem sua frequência, evolução e dimensão.

Requião Filho diz que Moro “fugiu de todos os debates” e de sabatinas e entrevistas

Classificação: ENGANOSA

Durante sabatina do Grupo Massa em Curitiba, em 24 de setembro, Requião Filho criticou a ausência de Sergio Moro na entrevista que havia sido programada pela emissora e declarou: “Infelizmente ele fugiu de todos os debates e agora também está fugindo de sabatina e entrevista.” 

Moro realmente deixou de participar de diferentes debates durante a campanha. Também não compareceu à sabatina da Rede Massa prevista para 23 de setembro. A declaração torna-se problemática quando estende a ausência genericamente para “sabatina e entrevista”. No próprio dia 24 de setembro, Moro participou de entrevista na Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. No mesmo período, também participou de plenária pública do Codefoz, respondendo a questionamentos sobre saúde, infraestrutura, Copel, Sanepar, segurança e desenvolvimento econômico.

Assim, a crítica sobre ausências em debates e na sabatina específica da Rede Massa tem base factual, mas a generalização de que o candidato também estaria fugindo de “entrevista” não corresponde à totalidade da agenda documentada. A declaração é, portanto, classificada como enganosa, pois combina ausências efetivamente registradas com uma generalização contrariada por entrevistas concedidas no mesmo período.

Jornada de 60 horas dos policiais: fala de Requião exige contexto

Classificação: INCOMPLETA

A carga de trabalho dos policiais também aparece repetidamente no discurso de Requião Filho. Em entrevistas e sabatinas durante a campanha, o candidato tem afirmado que policiais paranaenses trabalham jornadas de aproximadamente 60 horas por semana. Há situações em que escalas policiais podem, efetivamente, produzir jornadas dessa magnitude. O problema é apresentar o número como se representasse automaticamente a jornada de todo policial estadual.

Não foi localizado, entre os documentos analisados nesta checagem, um ato normativo que estabeleça uma jornada geral e uniforme de 60 horas semanais para todos os policiais do Paraná. As escalas podem variar conforme corporação, unidade, função, serviços extraordinários e organização do trabalho. Por isso, a declaração é classificada como incompleta. O número pode corresponder a situações concretas enfrentadas por policiais, mas não há base suficiente para generalizá-lo como carga horária padrão de toda a categoria.

O que ficou fora da checagem

Outras declarações encontradas na varredura foram deixadas de fora porque tratavam essencialmente de promessas ou compromissos futuros. No caso de Sandro Alex, por exemplo, a ampliação da BR-277 e a implantação de novas faixas são temas respaldados por projetos e contratos já existentes, mas parte das declarações envolve cronogramas e entregas futuras.

Moro também fez promessas relacionadas à segurança, saúde, Copel, Sanepar e infraestrutura. Requião Filho, por sua vez, reiterou propostas de mudanças na gestão de empresas públicas e no modelo de segurança. Esse tipo de declaração pode ser analisado quanto à viabilidade, custo ou compatibilidade com a legislação, mas não cabe classificá-lo agora como verdadeiro ou falso.

Nenhuma declaração recebeu o selo “falsa”

Nesta rodada, a Gazeta do Paraná não identificou, entre as declarações selecionadas dos três candidatos entre 24 e 28 de setembro, uma afirmação que pudesse receber de forma segura e documentalmente sustentada a classificação “falsa”. Isso não significa que todas as falas estejam plenamente corretas. Os principais problemas encontrados foram outros: generalizações, uso de recortes de dados como se representassem um cenário consolidado e ausência de informações fundamentais para que determinadas afirmações fossem verificadas em toda a sua extensão. A distinção é importante. Uma declaração pode conter um dado real e ainda assim produzir uma impressão equivocada quando omite contexto ou amplia uma situação específica para todo um grupo ou período.

Checagem busca separar dado, interpretação e discurso de campanha

Na reta final da eleição, a tendência é que o volume de afirmações aumente, assim como o uso de números para reforçar discursos políticos. Pesquisas podem ser apresentadas de maneiras diferentes pelas campanhas; valores de obras podem ser agregados sem detalhamento; problemas pontuais podem ser usados para representar situações gerais. A função da checagem não é avaliar propostas nem apontar qual candidato tem o melhor programa. O objetivo é mais restrito: verificar se as afirmações factuais utilizadas no debate público correspondem ao que mostram documentos, dados oficiais e registros disponíveis.

Nos casos analisados, a principal conclusão é que poucas declarações podem ser reduzidas a um simples “verdadeiro” ou “falso”. Parte delas exige contexto, especialmente quando dados corretos são acompanhados por generalizações ou apresentados sem as informações necessárias para compreender sua dimensão. A Gazeta do Paraná continuará acompanhando as declarações dos candidatos e confrontando números, dados de gestão e informações de campanha com registros públicos até o encerramento do processo eleitoral.

 

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