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Oriovisto mistura dados corretos, projeções controversas e erra prazo da PEC ao criticar fim da escala 6x1

Senador paranaense diz apoiar mudança para escala 5x2, mas pede transição mais longa e alerta para falta de mão de obra e aumento de custos; checagem mostra que parte dos números tem respaldo, enquanto efeitos sobre preços são incertos e prazo citado no plenário está errado

Ana Zimermann · · 12 min de leitura
Oriovisto mistura dados corretos, projeções controversas e erra prazo da PEC ao criticar fim da escala 6x1
— Crédito: Reprodução/TV Senado

O senador paranaense Oriovisto Guimarães fez, nesta terça-feira (6), um dos principais contrapontos durante a primeira sessão de discussão, no Senado, da PEC 221/2019, que acaba com a escala de trabalho 6x1 e reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial. Oriovisto deixou claro que é favorável ao fim da escala 6x1 e à adoção da 5x2, mas criticou a forma e a velocidade da mudança. Argumentou que determinados setores podem enfrentar falta de trabalhadores, aumento dos custos e pressão sobre os preços. Também criticou a rejeição de suas emendas pelo relator, Omar Aziz, e relacionou a velocidade da tramitação ao período eleitoral.

A Gazeta do Paraná conferiu os principais pontos apresentados pelo senador e a conclusão foi a seguinte: Oriovisto mistura dados corretos, projeções econômicas controversas e um erro objetivo sobre o prazo de implantação da nova jornada. A alegação de que a tramitação estaria sendo acelerada com finalidade eleitoral, por sua vez, não pode ser comprovada pelos documentos disponíveis.

39,5 milhões de formais e número semelhante de informais

PARCIALMENTE VERDADEIRO

Oriovisto afirmou que o Brasil possui cerca de 39,5 milhões de trabalhadores com carteira assinada e praticamente o mesmo número de trabalhadores informais. Os números são próximos dos dados oficiais, mas a comparação exige uma ressalva. Na PNAD Contínua referente ao trimestre encerrado em agosto de 2026, o país registrava 39,5 milhões de empregados do setor privado com carteira assinada. Ao mesmo tempo, havia aproximadamente 38,8 milhões de trabalhadores informais, com taxa de informalidade de 37,5% da população ocupada. A proximidade numérica mencionada pelo senador, portanto, existe. O problema é tratar os 39,5 milhões como se fossem a totalidade dos trabalhadores formais brasileiros. O indicador corresponde especificamente aos empregados do setor privado com carteira e não inclui todas as demais modalidades de ocupação formal, como servidores públicos e trabalhadores domésticos formalizados. A forma mais precisa de apresentar os dados é: o Brasil tinha cerca de 39,5 milhões de empregados privados com carteira e 38,8 milhões de trabalhadores informais.

Falta mão de obra no Paraná?

PARCIALMENTE VERDADEIRO

Ao defender um período maior de adaptação, Oriovisto citou conversas com produtores de granjas do Sudoeste do Paraná. Segundo o senador, empresários do setor já encontram dificuldades para contratar trabalhadores e poderiam enfrentar um problema ainda maior com a redução da jornada. Há dados que dão sustentação à preocupação, embora não permitam generalizá-la para toda a economia paranaense. O Paraná vive um mercado de trabalho particularmente aquecido. A taxa estadual de desemprego chegou a 3,5% no primeiro trimestre de 2026, uma das menores já registradas no Estado. Um nível tão baixo de desocupação pode dificultar a contratação em determinadas regiões e atividades, principalmente aquelas que exigem trabalho presencial, por turnos ou em horários específicos.

No campo, entidades do setor também manifestaram preocupação. Estudo do Sistema FAEP aponta que a agropecuária paranaense reúne cerca de 645 mil postos de trabalho e sustenta que atividades contínuas, como avicultura e suinocultura, estão entre as mais sensíveis à redução da jornada. Isso não significa, porém, que esteja demonstrado que granjas paranaenses serão incapazes de encontrar os trabalhadores necessários. O relato apresentado por Oriovisto sobre produtores do Sudoeste é compatível com um mercado de trabalho apertado, mas não representa, por si só, evidência estatística de falta generalizada de mão de obra.

Redução da jornada exigiria milhões de trabalhadores?

NÚMEROS EXISTEM, MAS PRECISAM DE CONTEXTO

Durante o debate no Senado apareceram estimativas que variam entre 3,5 milhões e 4,5 milhões de empregos associados à redução da jornada. Os números existem, mas partem de cenários diferentes. Estimativa historicamente utilizada pelo Dieese aponta potencial de aproximadamente 3,5 milhões de empregos com a redução da jornada de 44 para 40 horas. Já estudo associado ao Cesit/Unicamp estimou potencial de até 4,5 milhões de novos postos, mas considerando uma redução mais ampla, de 44 para 36 horas semanais.

Esse segundo cenário, portanto, não corresponde à jornada de 40 horas prevista na PEC atualmente discutida pelo Senado. Há ainda outra diferença fundamental: estimar potencial de geração de empregos não significa afirmar que as empresas obrigatoriamente precisarão contratar exatamente esse número de trabalhadores. A redução das horas pode ser absorvida por diferentes combinações de novas contratações, reorganização de escalas, ganhos de produtividade, automação e mudanças operacionais. Curiosamente, o mesmo fenômeno é utilizado de maneiras opostas no debate. Defensores da redução apresentam novas contratações como geração de empregos; críticos apontam essas contratações como aumento de custos para as empresas.

A PEC vai provocar aumento dos preços?

CONTROVERSO

Oriovisto argumentou que, se uma empresa precisar produzir a mesma quantidade contratando mais trabalhadores, haverá aumento da folha salarial e esse custo acabará chegando aos preços. O mecanismo econômico é possível, mas não é automático. Entidades empresariais apresentaram estudos projetando impactos elevados. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, estima impactos bilionários sobre o setor industrial e alerta para eventual repasse de custos ao consumidor. No Paraná, estudo do Sistema FAEP calcula impacto potencial de aproximadamente R$ 4,1 bilhões anuais sobre a agropecuária, dos quais cerca de R$ 1,72 bilhão estariam relacionados à avicultura e suinocultura. Mas outros estudos chegam a resultados bem menos severos. Análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, em grandes setores como indústria e comércio, o impacto direto da redução para 40 horas poderia ficar abaixo de 1% dos custos operacionais, embora determinados segmentos sejam mais vulneráveis.

Há ainda outro elemento: produtividade. Se trabalhadores produzirem mais por hora, se empresas reorganizarem escalas ou incorporarem tecnologia, parte do aumento do custo da hora trabalhada pode ser compensada. Por isso, afirmar que a redução da jornada necessariamente provocará inflação vai além do que as evidências disponíveis permitem concluir. O risco existe, especialmente em determinados setores, mas sua magnitude depende da produtividade, das margens das empresas, da necessidade efetiva de novas contratações e da capacidade de repassar custos.

Informais podem pagar a conta?

HIPÓTESE, NÃO FATO COMPROVADO

Oriovisto também chamou atenção para os quase 39 milhões de trabalhadores informais. O raciocínio apresentado pelo senador é que eles não receberiam diretamente a redução constitucional da jornada, mas poderiam ser atingidos caso o aumento dos custos empresariais seja transferido aos preços. A primeira premissa está baseada em um problema real: o Brasil possui aproximadamente 38,8 milhões de trabalhadores informais. A conclusão, porém, depende justamente do efeito inflacionário.

Para que a previsão de Oriovisto se confirme, seria necessário ocorrer uma sequência: redução da jornada, aumento relevante dos custos, repasse aos preços e consequente perda de poder de compra. É um cenário economicamente possível, mas não uma consequência que possa ser apresentada antecipadamente como fato.

Empresas terão apenas dois meses para se adaptar?

FALSO

Este é o erro factual mais claro do discurso do senador paranaense. Oriovisto afirmou mais de uma vez que as empresas teriam aproximadamente dois meses para passar das atuais 44 horas para 40 horas semanais. Não é isso que determina o texto em discussão. A PEC estabelece uma transição em duas etapas. Após 60 dias da promulgação, a jornada máxima semanal passa de 44 para 42 horas. Somente 12 meses depois dessa primeira redução ocorre a nova mudança, de 42 para 40 horas semanais. Assim, a implantação integral da jornada de 40 horas ocorre 14 meses depois da promulgação, e não dois meses depois.

O erro foi apontado imediatamente após o discurso. Paulo Paim pediu a palavra para fazer a correção, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, confirmou a informação sobre a transição. É possível discutir se 14 meses são ou não suficientes para que determinados setores reorganizem suas operações. O que não corresponde ao texto da PEC é afirmar que haverá uma passagem direta de 44 para 40 horas em apenas 60 dias.

Omar Aziz rejeitou todas as emendas de Oriovisto?

VERDADEIRO

Oriovisto também reclamou que nenhuma das mudanças que propôs foi aceita pelo relator da PEC na Comissão de Constituição e Justiça, senador Omar Aziz. Nesse ponto, os registros oficiais confirmam a declaração. Oriovisto apresentou sete emendas ao longo da tramitação: as emendas 6, 7, 8, 9, 10, 25 e 34. Todas foram rejeitadas. A decisão, porém, não atingiu apenas as propostas do senador paranaense. A CCJ recebeu dezenas de emendas e Omar Aziz optou por defender a aprovação da PEC nos termos em que havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados.

A estratégia tem uma consequência importante. Mudanças de mérito feitas pelo Senado poderiam obrigar a proposta a retornar para análise da Câmara. A manutenção do texto permite, caso seja aprovado pelos senadores sem modificações, avançar para a promulgação sem uma nova análise do mérito pelos deputados. Foi nesse contexto que Oriovisto ironizou o relator, chamando-o de um "trator simpático", e acusou o Senado de simplesmente "carimbar" o texto recebido da Câmara.

Senado virou apenas “carimbador” da Câmara?

CRÍTICA POLÍTICA BASEADA EM UM FATO

A expressão utilizada por Oriovisto representa uma avaliação política e, portanto, não cabe classificá-la como verdadeira ou falsa. O fato que sustenta a crítica, entretanto, é verificável. O parecer de Omar Aziz foi favorável à aprovação da PEC nos termos aprovados pela Câmara e contrário às alterações apresentadas na comissão. Isso não significa que o Senado estivesse impedido de modificar a proposta. A rejeição das emendas foi uma decisão política da maioria da CCJ, não uma limitação constitucional ou regimental que impedisse alterações.

Houve aceleração da tramitação?

SIM, MAS É PRECISO CONTEXTUALIZAR

Os documentos do Senado mostram que houve iniciativas destinadas a acelerar o rito da PEC. A proposta chegou ao Senado no fim de maio de 2026. Em 21 de agosto foi encaminhada à CCJ e distribuída a Omar Aziz. Cinco dias depois, em 26 de agosto, o relator já havia apresentado parecer sobre parte das emendas. Em 2 de setembro, a CCJ aprovou o parecer e também um Calendário Especial, instrumento destinado a dar maior velocidade à tramitação. Portanto, é correto afirmar que houve uma decisão institucional para acelerar o processo.

Há, entretanto, um contraponto importante. A PEC estava pronta para análise do plenário desde 2 de setembro, mas a primeira sessão de discussão ocorreu somente em 6 de outubro, mais de um mês depois. Além disso, a proposta continua submetida às exigências constitucionais para alteração da Constituição, incluindo discussões e votações em dois turnos e apoio mínimo de três quintos dos senadores — 49 votos.

A pressa foi provocada pela eleição?

NÃO COMPROVADO

Este é o ponto politicamente mais forte — e também mais difícil de comprovar — do pronunciamento de Oriovisto. O senador relacionou a velocidade da tramitação ao calendário eleitoral e sugeriu que candidatos teriam interesse em votar a PEC antes do segundo turno para utilizar o tema como bandeira de campanha. A coincidência temporal existe. O primeiro turno das eleições ocorreu em 4 de outubro. A primeira sessão de discussão da PEC no plenário aconteceu em 6 de outubro, dois dias depois. O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Portanto, a discussão acontece efetivamente no intervalo entre os dois turnos. Isso, entretanto, não demonstra que a PEC tenha sido acelerada por causa da eleição.

Há um dado especialmente relevante contra essa conclusão: a decisão formal de adotar um calendário especial para a proposta ocorreu em 2 de setembro, mais de um mês antes do primeiro turno. A articulação política para priorizar o fim da escala 6x1 também já vinha ocorrendo antes da votação de 4 de outubro. Assim, há três fatos distintos. Houve esforço para acelerar a PEC. A discussão em plenário ocorre em pleno período eleitoral. A aceleração começou antes de se conhecer o resultado do primeiro turno. A partir desses elementos, é legítimo que Oriovisto faça uma crítica política e questione a conveniência eleitoral da votação. O que não é possível, com os documentos disponíveis, é estabelecer como fato que a eleição seja a causa da aceleração.

Checagem mostra discurso com acertos, ressalvas e um erro objetivo

A análise das declarações de Oriovisto mostra que o senador apresenta preocupações que encontram respaldo em dados econômicos, especialmente quando chama atenção para o tamanho da informalidade, para um mercado de trabalho bastante aquecido no Paraná e para dificuldades que setores intensivos em mão de obra podem enfrentar. Também é verdadeira a afirmação de que suas sete emendas foram rejeitadas durante a passagem da PEC pela CCJ.

Já os efeitos econômicos precisam ser tratados com mais cautela. Há estudos que projetam aumento expressivo de custos e alertam para possíveis reflexos sobre preços, enquanto outras análises calculam impactos significativamente menores e consideram que ganhos de produtividade e reorganização das empresas podem absorver parte da mudança. Da mesma maneira, as estimativas de milhões de empregos não são uma previsão de quantos trabalhadores obrigatoriamente precisarão ser contratados.

O erro objetivo está no prazo. Ao afirmar que a jornada cairia diretamente de 44 para 40 horas em apenas dois meses, Oriovisto descreveu incorretamente a regra de transição prevista no texto. A mudança integral está programada para ocorrer ao longo de 14 meses. Já a acusação de que a tramitação estaria sendo acelerada para atender interesses eleitorais permanece no campo da interpretação política: há aceleração documentada e há coincidência com o calendário eleitoral, mas o movimento para dar prioridade à PEC começou antes do primeiro turno.

Fontes consultadas: Senado Federal — tramitação da PEC 221/2019, pareceres, emendas, registros da CCJ e notas taquigráficas da sessão de 6 de outubro de 2026; Agência Senado; IBGE — PNAD Contínua; Ipea; Ipardes; Sistema FAEP; CNI; Dieese; Cesit/Unicamp.

 

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