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MP questiona 42 candidaturas em 10 estados por suposta ligação com o crime organizado

Em 22 casos, o registro foi barrado ou o candidato renunciou; outros quatro foram liberados, mas o MP Eleitoral recorreu ao TSE

Gabriel Porta · · 5 min de leitura
Urna eletrônica
Urna eletrônica — Crédito: Alejandro Zambrana/Secom/TSE

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O Ministério Público (MP) Eleitoral questionou a validade de pelo menos 42 candidaturas, em 10 estados, por suposto vínculo dos candidatos com o crime organizado. Em 22 casos, o registro foi barrado pela Justiça Eleitoral ou o candidato renunciou. A maioria, porém, ainda aguarda o julgamento de recursos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em outros quatro casos, a candidatura foi liberada, mas o MP Eleitoral contesta a decisão no TSE.

Por que o MP questiona esses registros

Desde 2024, o TSE tem impedido a candidatura de pessoas ligadas a facções criminosas. As decisões vieram depois de pedidos do Ministério Público, baseados no artigo 17 da Constituição, que proíbe os partidos de usarem organizações paramilitares. Para o MP Eleitoral, esse trecho impede que grupos criminosos usem partidos e candidatos para ampliar a influência política, mesmo sem condenação criminal.

“Temos atuado para impedir que grupos criminosos aparelhem partidos políticos, financiem campanhas ou lancem candidaturas. Essa influência compromete a liberdade de escolha dos eleitores, o equilíbrio da disputa e a democracia brasileira”, afirma o vice-procurador-geral eleitoral, Alexandre Espinosa.

Onde estão os casos

O Rio de Janeiro concentra 26 das candidaturas questionadas neste ano. Em seguida vêm Paraíba (4), São Paulo (3), Acre (2), Mato Grosso do Sul (2), Amapá, Bahia, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Norte, com um caso cada. A maioria dos candidatos concorreu a deputado estadual (22) e a deputado federal (16). Também há questionamentos sobre candidaturas a senador, suplente e governador.

Candidatos eleitos com registro validado

Alguns candidatos tiveram o registro validado pela Justiça e foram eleitos, no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas ainda aguardam o julgamento de recursos contra essa decisão.

Um deles é Márcio Canella (União), segundo deputado estadual mais votado do Rio. Ele foi preso na 8ª fase da Operação Unha e Carne, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis no estado. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) validou o registro, mas o Ministério Público pediu ao TSE que mude a decisão. Em parecer enviado ao tribunal, o vice-procurador-geral eleitoral diz haver indícios suficientes de ligação do político com milícias do estado. O caso aguarda julgamento.

Em São Paulo, o MP Eleitoral também recorreu ao TSE para barrar a candidatura de Ney Santos (Republicanos) a deputado federal. Ele responde a uma ação penal na qual é acusado de comandar uma organização criminosa e de lavar dinheiro do tráfico de drogas. Nas eleições de 2016, foi condenado por abuso de poder econômico, ligado a financiamento ilícito de campanha. O MP Eleitoral defende no TSE que não é preciso haver condenação criminal em segunda instância ou definitiva para impedir o registro, bastando provas robustas de vínculo com o crime organizado. O recurso ainda será julgado.

Registros negados, mas com votos suficientes

Outros seis candidatos tiveram o registro negado pela Justiça Eleitoral e, mesmo assim, conseguiram votos para se eleger, no Rio de Janeiro e em Mato Grosso do Sul. Eles disputaram a eleição sub judice, ou seja, com a candidatura em discussão na Justiça. Essa condição continua até a decisão definitiva sobre a validade dos registros.

Em Mato Grosso do Sul, Jamilson Name (PP) concorreu a deputado estadual e recebeu 35,2 mil votos. Ele foi condenado a oito anos de prisão por participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro. Segundo o processo, assumiu o grupo depois da prisão do pai e usou uma empresa para explorar o jogo do bicho e esconder o dinheiro da atividade ilegal. “Associações criminosas podem se organizar sob diversas formas de violência (bélica, política, econômica ou religiosa), de forma ostensiva ou subliminar”, escreveu o vice-procurador-geral eleitoral no parecer que pede ao TSE que negue o registro. Para Espinosa, a proibição da Constituição não vale apenas para grupos criminosos armados. O caso aguarda julgamento no TSE.

No Rio, o candidato a deputado estadual Diego Alba (PSDB) teve o registro negado pelo TRE-RJ, mas recebeu 48,5 mil votos. Ele foi condenado por participar de uma quadrilha armada especializada em assaltos a clientes de bancos. Há ainda indícios de intimidação de testemunhas em processos e investigações sobre fraudes com uso de empresas. O recurso no TSE aguarda análise.

Renato Machado (PT), também candidato a deputado estadual no Rio, teve o registro barrado e recebeu 48,3 mil votos. O MP Eleitoral afirma ter provas de que ele lidera o núcleo político de um grupo criminoso que atua em Maricá (RJ) e se associa a uma narcomilícia da região. O recurso dele também aguarda julgamento.

No Rio, outros candidatos a deputado estadual estão na mesma situação. João Drumond (PRD) é apontado pelo MP Eleitoral como ligado a grupos criminosos e ao jogo do bicho. Ricardo Abrão (PSDB) foi alvo de uma operação que investiga um esquema de compra de votos. A candidatura de Val Ceasa (PRD) foi questionada por suposto vínculo com uma facção criminosa armada.

Prioridade do MP Eleitoral

O combate à influência do crime organizado nas eleições foi uma das prioridades do Ministério Público neste ano. No início de 2026, foi criado o Grupo de Trabalho de Combate ao Crime Organizado no Âmbito Eleitoral, que fez estudos, promoveu capacitações e orientou procuradores e promotores.

Em junho, como resultado do trabalho do grupo, o MP Eleitoral recomendou aos partidos que criem protocolos internos de integridade e de fiscalização dos pré-candidatos, para evitar a infiltração de facções. Os Grupos de Apoio ao Enfrentamento ao Crime Organizado (Gaecos nacional e regionais) também passaram a atuar em crimes eleitorais praticados por organizações criminosas e em outras práticas ilegais ligadas às eleições, em apoio aos procuradores eleitorais.

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