🗳️ Eleições 2026: acompanhe a apuração em tempo real Acompanhar →
Result
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo
Público › Política

MP denuncia Tito Barichello e Tathiana Guzella por operação policial irregular e expõe histórico de ações sem autorização

Deputado estadual e vereadora de Curitiba são acusados de abuso de autoridade após diligência armada em 2024; outra operação envolvendo Tathiana também foi questionada pela Polícia Civil

Gazeta do Paraná · · 10 min de leitura
Tathiana e Tito
Tathiana e Tito — Crédito: Reprodução redes sociais

A denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) contra o deputado estadual Tito Barichello (PL) e a vereadora de Curitiba Tathiana Guzella (PL) trouxe novamente à tona uma controvérsia iniciada em março de 2024, quando os dois, que também são delegados da Polícia Civil, participaram de uma diligência policial sem autorização institucional.

O episódio, registrado em vídeos e divulgado nas redes sociais, envolveu o uso de armamento, equipamentos policiais e a tentativa de localizar um homem contra o qual havia um mandado de prisão. Mais de dois anos depois, a atuação passou a ser objeto de acusação formal na Justiça.

O caso, entretanto, não se limita à operação que motivou a denúncia. Reportagens publicadas na época identificaram outra ocorrência envolvendo Tathiana Guzella enquanto ela estava afastada das funções policiais, na qual a então assessora parlamentar apareceu algemando um homem suspeito de violência doméstica.
Segundo informações atribuídas à Polícia Civil, essa segunda atuação também não havia sido autorizada pela instituição. A sucessão de episódios amplia o debate sobre os limites da atuação de delegados afastados de suas funções para exercer atividades políticas, o uso de prerrogativas policiais e a eventual utilização de operações de segurança pública para obtenção de visibilidade eleitoral.

 

Mandado de prisão tinha outra origem

A operação que deu origem à denúncia ocorreu em 21 de março de 2024, em Curitiba. Na ocasião, Tito Barichello, Tathiana Guzella e um terceiro policial civil foram até um endereço onde pretendiam localizar um homem contra o qual, segundo as informações divulgadas, existia uma ordem judicial de prisão.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o deputado apareceu portando um fuzil e utilizando colete balístico com identificação da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Tathiana também utilizava equipamento com símbolos da Polícia Civil. A gravação apresentava a diligência como uma ação relacionada a uma suposta tentativa de homicídio contra um advogado da capital.

A versão apresentada publicamente, entretanto, não correspondia à natureza do mandado de prisão. Conforme informações divulgadas pela RPC, a denúncia do Ministério Público aponta que a ordem judicial estava relacionada ao descumprimento de uma medida protetiva de urgência em um caso de violência doméstica, e não à investigação de tentativa de homicídio.

Essa diferença é um dos pontos centrais da acusação. Para o Ministério Público, os envolvidos teriam utilizado a condição de policiais para obter exposição pública indevida e promoção pessoal com finalidade eleitoral. A acusação envolve os três participantes da diligência.

O homem procurado não foi localizado naquela noite. Ainda assim, as imagens da operação foram divulgadas nas redes sociais, apresentando os parlamentares em atividade semelhante à de equipes policiais em serviço. Na época, Tito Barichello já exercia mandato na Assembleia Legislativa do Paraná e estava afastado das funções de delegado. Tathiana Guzella também se encontrava afastada da Polícia Civil, atuando como assessora parlamentar na Câmara dos Deputados.

A Polícia Civil informou posteriormente que a operação não havia sido comunicada à instituição nem autorizada por seus responsáveis. A ausência de autorização tornou-se um dos principais elementos da investigação instaurada após a divulgação das imagens.

 

Deputado afirmou que tinha obrigação de agir

Quando o episódio ganhou repercussão, em março de 2024, Tito Barichello defendeu publicamente sua participação na diligência. Em declarações à imprensa, afirmou que havia recebido informações sobre ameaças contra um advogado e uma cliente dele, relacionadas a um processo de violência doméstica.

Segundo a versão apresentada pelo parlamentar à época, as ameaças teriam sido comunicadas por um líder religioso, e ele decidiu verificar pessoalmente a situação. Barichello afirmou que utilizou veículo, colete balístico e armamento particulares. Também declarou que não houve invasão de residência e que a equipe deixou o local depois de ser informada de que o homem procurado não estava presente.

O deputado argumentou que continuava sendo policial, apesar do afastamento para exercício do mandato parlamentar, e sustentou que sua omissão diante de uma possível situação criminosa poderia configurar prevaricação.

A defesa apresentada na ocasião pelo advogado Jeffrey Chiquini também questionou a caracterização da diligência como operação policial irregular. O advogado argumentou que o parlamentar havia ido verificar uma denúncia grave e lembrou que a legislação brasileira permite a qualquer cidadão efetuar prisão em flagrante.

A possibilidade de prisão em flagrante por particulares, contudo, é juridicamente distinta do cumprimento de mandados judiciais, que depende de atribuições e procedimentos específicos. É justamente a natureza da atuação realizada pelos envolvidos que está no centro da controvérsia.

A discussão chegou à Assembleia Legislativa em 25 de março de 2024. Na ocasião, o deputado Renato Freitas (PT) criticou a conduta de Barichello e questionou a utilização de equipamentos policiais por um parlamentar afastado das funções operacionais.

 

Outra prisão filmada também foi questionada

A controvérsia envolvendo a atuação de Tathiana Guzella não se restringiu à diligência realizada com o marido. Em 28 de março de 2024, uma reportagem do jornalista Rogério Galindo, publicada originalmente pelo Plural e reproduzida pela Ponte Jornalismo, revelou outra ocorrência envolvendo a então delegada licenciada. Nesse episódio, Tathiana apareceu em uma reportagem televisiva da Rede Massa participando da abordagem de um homem suspeito de violência doméstica.

As imagens mostravam a delegada algemando o suspeito, que estava no chão, e posteriormente concedendo entrevista à equipe de televisão. A reportagem destacou que Tathiana estava afastada da Polícia Civil para exercer atividade parlamentar e que essa condição não havia sido esclarecida durante a exibição da ocorrência. Questionada sobre a situação, a Polícia Civil informou que a ação também não tinha autorização institucional.

Na ocasião, a corporação declarou que nenhuma das operações divulgadas havia ocorrido com seu conhecimento ou consentimento e que os fatos estavam sendo analisados pela Corregedoria. A existência dessa segunda ocorrência amplia o histórico de questionamentos sobre a atuação da delegada licenciada. Entretanto, não há confirmação, nas informações públicas disponíveis, de que esse episódio tenha sido incluído na denúncia criminal apresentada em outubro de 2026. Também não foi possível identificar o resultado de eventual apuração específica sobre a prisão exibida pela Rede Massa.

 

Polícia Civil aponta limites para responsabilização administrativa

Um dos aspectos relevantes do caso está na resposta institucional às condutas investigadas. Após a repercussão da operação de março de 2024, a Polícia Civil informou que os fatos seriam examinados pela Corregedoria. A Procuradoria-Geral de Justiça também anunciou, naquele período, a abertura de procedimento para apurar as acusações envolvendo os servidores. Mais de dois anos depois, a Polícia Civil confirmou que conduziu o inquérito policial que resultou no indiciamento de Tito Barichello, Tathiana Guzella e um terceiro agente.

O procedimento serviu de base para a denúncia apresentada pelo Ministério Público. A corporação informou, contudo, que não possui competência legal para instaurar procedimento disciplinar contra os envolvidos em razão da situação funcional deles, afastados para exercício de mandato eletivo ou cedidos a outros órgãos.

A declaração evidencia uma distinção importante entre responsabilização criminal e administrativa. Enquanto a investigação criminal apura a possível prática de delitos, a esfera disciplinar examina infrações funcionais e depende das regras de competência aplicáveis a cada servidor. O afastamento das atividades operacionais não significa, por si só, perda da condição de servidor público. Tampouco representa autorização automática para exercer funções policiais durante o período de afastamento.

No caso dos parlamentares, a discussão envolve ainda os limites entre o exercício do mandato político e as atribuições próprias da carreira policial. Não há, nas informações divulgadas até o momento, confirmação sobre eventual responsabilização administrativa dos envolvidos por outro órgão competente.

 

Ministério Público aponta abuso de autoridade e porte ilegal de arma 

De acordo com as informações divulgadas pela RPC, o Ministério Público denunciou os três participantes da diligência por suposto abuso de autoridade. A acusação sustenta que os envolvidos teriam utilizado sua condição funcional para obter vantagem indevida, especialmente por meio da exposição pública e da promoção pessoal com finalidade eleitoral.

O MPPR também atribuiu a Tito Barichello e ao terceiro policial a prática de porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, em razão da utilização de um fuzil durante a ação sem a autorização exigida, segundo a acusação. A circunstância de o deputado ter afirmado, em 2024, que o armamento era particular não resolve, isoladamente, a discussão jurídica.

A regularidade do porte depende de requisitos legais específicos, incluindo a situação funcional do portador, a classificação da arma e as autorizações aplicáveis. A apresentação da denúncia representa uma nova etapa da investigação, mas não equivale à condenação dos envolvidos. Conforme as informações divulgadas sobre o procedimento, a Justiça concedeu prazo de 15 dias para apresentação de defesa preliminar, antes de decidir sobre o recebimento da acusação.

Até o momento, não há confirmação pública, nas fontes consultadas, de que a denúncia tenha sido recebida judicialmente. Também não foi localizado o número dos autos, o que impede verificar diretamente a íntegra das imputações e dos elementos probatórios apresentados pelo Ministério Público.

 

Episódio antecedeu eleição de Tathiana à Câmara

A dimensão eleitoral apontada pelo Ministério Público ganha relevância diante da trajetória política dos envolvidos. Tito Barichello foi eleito deputado estadual em 2022, quando ainda integrava o União Brasil. Posteriormente, passou ao PL, legenda pela qual também atua Tathiana Guzella.

A diligência questionada ocorreu em março de 2024, meses antes das eleições municipais daquele ano. Em outubro, Tathiana conquistou uma cadeira na Câmara Municipal de Curitiba com 12.515 votos, figurando entre as mulheres mais votadas para o Legislativo da capital. Antes da entrada na política, o casal havia conquistado visibilidade nas redes sociais com a divulgação de operações e atividades relacionadas ao trabalho na Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa. Essa exposição tornou-se parte importante da imagem pública construída pelos dois, que passaram a associar suas trajetórias políticas à experiência na segurança pública.

A denúncia do Ministério Público, entretanto, não significa que a eleição de Tathiana tenha sido irregular ou que o resultado eleitoral tenha sido influenciado de maneira comprovada pela diligência. A acusação diz respeito à suposta utilização da atividade policial para promoção pessoal, questão que deverá ser examinada judicialmente. O caso também recoloca em discussão a utilização de imagens de operações policiais por agentes públicos que posteriormente disputam cargos eletivos, especialmente quando há dúvida sobre a autorização institucional das ações divulgadas.

 

Defesa nega irregularidades e invoca presunção de inocência 

Em nota encaminhada à RPC após a divulgação da denúncia, Tito Barichello e Tathiana Guzella afirmaram confiar na Justiça e reiteraram seu compromisso com a legalidade, a ética e o respeito às instituições. Os parlamentares destacaram que a apresentação de uma denúncia não representa condenação e que os fatos ainda serão submetidos à apreciação judicial, com garantia do contraditório, da ampla defesa e da presunção de inocência.

Segundo a manifestação, a defesa técnica apresentará oportunamente os esclarecimentos e os elementos jurídicos considerados necessários para demonstrar a regularidade das condutas. A nota não detalhou os argumentos que serão apresentados especificamente em relação à acusação de abuso de autoridade nem à imputação de porte ilegal de arma de uso restrito. Também não foram divulgados, nas informações consultadas, os argumentos da defesa do terceiro policial denunciado.

O caso agora depende da análise judicial sobre o recebimento da denúncia e, caso seja admitida, do desenvolvimento da ação penal. 

Mais de dois anos após a divulgação das imagens que deram origem à investigação, o processo coloca sob exame não apenas a conduta dos agentes envolvidos, mas também os limites da atuação policial por servidores afastados de suas funções e a utilização da autoridade pública na construção de projeção política.

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.